"Rio de Janeiro, inverno,
Sabe, não escrevo há tanto tempo, meu amigo.
Meses, pode botar meses. Não falaria em bloqueio criativo e essas coisas de
artista-metido-a-besta. Falaria talvez da inspiração traiçoeira, do receio de
olhar para dentro e não enxergar nada, falha coragem. Hoje, porém, meu caro,
havia algo que se ver cá dentro.
Meses, quase ano, talvez, que me pediu um texto
sobre ou para ti. Que falasse de ti. Gostaste, recordo-me, achou belas minhas
palavras. Foram para tua pessoa, afinal, não podia o resultado diferir. Nunca
pôde.
Nunca pôde a festa dos olhos - qual na canção de Fagner - diferir à tua vista, ainda de longe, cruzando o lado direito da
calçada. Faziam festa digna de orquestra à tua vista, meus olhos. Depois
paravam nos teus, como se apertassem as mãos. Hoje, já velhos conhecidos, ainda
festejam, meus olhos e os teus, com um abraço e um tapinha nas costas.
Quantos anos fazem, meu amigo, que nossas vistas
fazem-se conhecidas? Alguns, punhado, bote um punhado aí. Dissesse-me alguém,
algum espectador de nossos desenlaces, que isso daria nisso, dir-lhe-ia mentir.
Pode, vê se pode, casuais caminhos de mesma calçada darem
nisso.
Pode. Escrevo hoje, falo-te e penso-te porque não
estás aqui, deves estar ali, donde seja ali. Estás aqui nestas palavras que
provocaste, a festa que não há à ausência de tuas vistas. Escrevo, e falo, e
divago em demasiado, para guardar que hoje, meu amigo, te desejei feliz donde
quer que seus olhos façam festejo. Desejei-te feliz em homenagem, que muito já
me o fez. Desejei-te feliz como seja, meu caro, aqui, lá, com estes ou sem
estes olhos que vos escrevem.
Desejo-te, meu amigo, a festa que se instala
quando minhas vistas alcançam as tuas. Se o posso, que fique aqui o mais
sincero desejo de tua prosperidade. Se o posso, o mais sincero desejo de que
sejas feliz. Se o posso mais, o mais sincero desejo de ver-te feliz.
Se o
pudesse, o mais sincero desejo de ser, ver e ter-te feliz.
Sincerely yours."