domingo, 4 de março de 2012

correspondência

parte IV

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“Rio de Janeiro, Verão.

Agradecimento, acredito, ser o justo e digno a ser feito a este ponto, desta hora. Perguntaste-me ser o motivo do silêncio das letras restar vazia quem vos escreve de sentimentos ou de razão, a ponto de não conseguir juntá-las na metragem da palavra feita. De minha resposta brotaram estas palavras que lhe teço, que juntas em sequencia tornam-se esta correspondência, ou do que se chama. Juntas tornaram-se metragem de palavra feita, e por isto lhe vem o agradecimento.  

De vazio do sentir não há, nem de perto nem de longe, nem de distância arrazoada, que se falar. Não creio que virá de haver, ainda nesta vida. Quando se nasce para sentir, meu caro, não é caminho que se toma de volta com trouxa dependurada do ombro, a caminhar de chinelas, calor que faz nessa estrada de terra. De vazio de razão, poderia se falar, não mais que desejaria se falar, se pudesse. Se esta, o mármore das exatidões que seguram a trama, não nos fosse cobrada pela vida. Pode-se ignorar, mas a que preço, meu caro,  lhe pergunto. Não, dela também não houve esvaziamento que se faça notar.

Posso lhe falar das torrentes, das enxurradas, dos atropelos que sofri e pratiquei ao longo desse inverno das letras em série. Posso lhe falar da inquietude de pensamentos ligeiros e fugazes, que ao final da consideração já não mais existiam, mas em seu lugar, semente para o próximo. E assim foi, neste período que perguntaste a ti mesmo por onde andavam as palavras que saem destas mãos – com o perdão da sinestesia adaptada -, que nasciam e se punham com o sol, no mesmo dia, nas mais inquietas divagações e nos mais borrados traçados.

Há de se ter paciência e aceitação com ela, a vida, e respeito ao seu deslinde. Ora, se não querem as letras pôr-se em fila indiana e formarem palavras, que não o façam, não há de se perderem, quando do tempo oportuno, nos dão notícia de volta.

Não se aflija, meu caro, se tuas letras não se juntam, se tua sequencia de viver se assemelha a rio quando do encontro da pororoca. Tal qual natureza de nascente, elas sabem quando voltar a ti, assentar e agruparem-se novamente. Deve-se esperar, a isto e a tudo o mais. O mais nos vem ao encontro, se permanecemos caminhando.

Meus melhores sentimentos, caro.”