- Como é que é, não sai texto novo? Duas
semanas, meu caro. Avie-se.
Já estava cansado daquilo, sua arte, sua
abertura de comporta, seu ponto que foge da linha, parecia agora repartição,
era cobrado, carimbado, lhe obrigava a sentir. Que espécie de coisa se sentia
obrigado. Não haveria de ser grande coisa, pensava.
Precisava, precisava cumprir com
as contas, precisava cumprir. Que raios de tudo na vida ser cumprimento,
diacho. Contador, devia ter se formado contador. Vai ser escritor e poda a arte
pela raiz. É isso que se faz com a arte na redação, se poda, pensava, em seu
motim interno.
- Está bem, não amole. Vou viver
e volto.
- Pois vai aonde ao meio do
expediente, homem? Endoideceu?
- Sem vida, sem palavra. Até mais
tarde.
E foi-se, mãos no bolso, Avenida
Rio Branco abaixo, olhando para cima. Aquele azul tão grande distraía, e
precisava concentrar-se. Duas semanas. Aviar.
Nada de céu.
Observava então os transeuntes,
tão ocupados, quantas caras de resignação. Impossível haver tanta gente
resignada no Rio de Janeiro. Devem estar fingindo, concluiu. Parecer distraído não
é permitido. Não no Centro da cidade, numa quarta-feira à tarde do preguiçoso e
já folião mês de janeiro. Há de se fazer esforço dobrado no semblante da
resignação. E suado. Que calor fazia, meu caro.
Concentrava-se em espantar a
distração, a respiração, o azul, o suspiro. Suspiro também não pode, tem emoção,
suspiro não cumpre prazo, suspirava, já sentindo saudade do suspiro. Como é, duas semanas. Rápido, apertar o passo
era mandatório, quem precisava cumprir tinha de apertar o passo. Firula de prosador, isso de andar devagar. Assim não cumpre, e precisava cumprir.
Parou no balcão, pediu um suco de
laranja. Com gelo, bastante gelo. Que calor de matar. Suspirou pensando no ar-condicionado
da redação. Condenou-se por esquecer, suspiro não pode. Nem olhar para cima.
Azul não pode. Azul é poesia, não escrevia na sessão de poesia, privilégio dos
dias de sábado. Escrevia no caderno da cidade, tinha de falar das obras de
modernização do porto, do estacionamento irregular aos fins de semana, do
choque de ordem nas praias. Não podia falar do céu, oras, tinha de cumprir.
Lembrou-se de seus dez anos de
idade, da escola, da bermuda marrom, da professora Sônia de Língua Portuguesa,
do ovo. O ovo da Cecília Meireles fascinaria sua vida todos os dias, a partir
daquele. Desde infante se deliciava com os textos contidos na apostila de
Gramática da Língua Portuguesa. A professora Sônia mandava ler, ele já tinha
lido. Lera na aula de Matemática, na aula de Ciências, não resistia.
Pois bem, naquele dia de verão,
sentado ali à transversal da janela que denunciava a vida lá fora, ouvia a
professora Sônia ler o tal texto do ovo. Ela dizia:
“- Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na porta
do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Neste ovo costumava pousar um
pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo
de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão
maravilhosa e sentia-me completamente feliz.”
Acreditava ter sido originada,
neste dia, sua ternura por céus azuis, sua atração, seu fascínio em olhar para
cima, principalmente ali, no Centro da cidade, onde todas as espécies de
arquitetura varam o azul exprimindo uma sequência distinta e indubitavelmente
fascinante de épocas, anos, vidas, céus.
Final do suco de laranja, gelo
mastigado, não podia sentir-se completamente feliz. E as obras, e o choque de
ordem? Deveria ater-se ao caos, ao desande, ao concreto que não varava tempo.
Mãos no bolso novamente,
retornaria. Poderia caminhar até a Praça Tiradentes, de nada adiantaria, a
resignação não o contagiava, a pressa não o atingia, o pé-ante-pé lhe parecia
nada mais justo que valsa, estava vivo, afinal, qual seria o problema daquela
gente, não saberiam estarem vivos? Sentia vontade de berrar à face de um a um e
informá-los disso, transeuntes resignados, corram e olhem o céu, obedeçam à
canção. Não berrou. Nem berraria, seria detido por insanidade e não escreveria
o bendito texto, não cumpriria. Duas semanas, Otávio, duas semanas.
Não voltou à redação naquele dia.
Nem no dia seguinte. Ouviu-se, meses depois, num bar na Praça Santos Dumont,
sobre uma tal nova editora – Editora Azul. Estupendas publicações, disse um, ao
que outro retruca que assim ouvira falar, que esse Otávio sabe o que faz.
Dedicada a obras sobre a cidade,
todo o tipo de conteúdo, da prosa à poesia, do suspiro ao berro – lia-se na contracapa
das obras publicadas. Naquela quarta-feira à tarde do preguiçoso e já folião
mês de janeiro, Otávio decidira que sabia o que fazia. E fez.
Alguma coisa na vida a gente há de saber que sabe. Mais cedo ou mais tarde, a gente há de se aviar.