domingo, 22 de janeiro de 2012

colóquio



Como tudo na vida, o Colóquio tem início, meio e fim. A gente precisa estar atento para não perder cada transição de momento. Como tudo na vida. 

Chega o momento final de Colóquio, da Julieta e do Fernando. Eles agradecem a atenção e mandam baixar a cortina. Até loguinho. 

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parte FINAL

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- Aquele ali também. É seu.

- O Dylan não era seu?

- Não. Você comprou na liquidação, lembra? Dois dvdês pelo preço de um. Leva.

- Ah...

- Leva também o Salinger.

- É seu, Julieta. Te dei no nosso primeiro Natal.
- Eu sei. Leva.

- Ok.

Silêncio.

- E o apê novo? Tá se acostumando com Botafogo?

- É, não é ruim. Tem mais barulho. Faz companhia ao meu silêncio.
Silêncio.

- Olha, não foi por não amar. A gente amou. Não amou, Fernando?

- Sim. Ou descuidou do resto. Tem quem diga que é a mesma coisa.

- E agora?

- Agora gente cuida de novo. -- Fernando responde com a resignação de quem já respondeu a pergunta a si mesmo.

- Silêncio.

- Fernando?

Promete que não descuida assim com mais ninguém?

- Prometo.

- Ok. Não esquece o Dylan.

- Ok, Julieta.

 -- Barulho da grade do elevador. 


domingo, 8 de janeiro de 2012

azulão


- Como é que é, não sai texto novo? Duas semanas, meu caro. Avie-se.

Já estava cansado daquilo, sua arte, sua abertura de comporta, seu ponto que foge da linha, parecia agora repartição, era cobrado, carimbado, lhe obrigava a sentir. Que espécie de coisa se sentia obrigado. Não haveria de ser grande coisa, pensava.

Precisava, precisava cumprir com as contas, precisava cumprir. Que raios de tudo na vida ser cumprimento, diacho. Contador, devia ter se formado contador. Vai ser escritor e poda a arte pela raiz. É isso que se faz com a arte na redação, se poda, pensava, em seu motim interno.

- Está bem, não amole. Vou viver e volto.

- Pois vai aonde ao meio do expediente, homem? Endoideceu?

- Sem vida, sem palavra. Até mais tarde.

E foi-se, mãos no bolso, Avenida Rio Branco abaixo, olhando para cima. Aquele azul tão grande distraía, e precisava concentrar-se.  Duas semanas. Aviar. Nada de céu.

Observava então os transeuntes, tão ocupados, quantas caras de resignação. Impossível haver tanta gente resignada no Rio de Janeiro. Devem estar fingindo, concluiu. Parecer distraído não é permitido. Não no Centro da cidade, numa quarta-feira à tarde do preguiçoso e já folião mês de janeiro. Há de se fazer esforço dobrado no semblante da resignação. E suado. Que calor fazia, meu caro.

Concentrava-se em espantar a distração, a respiração, o azul, o suspiro. Suspiro também não pode, tem emoção, suspiro não cumpre prazo, suspirava, já sentindo saudade do suspiro.  Como é, duas semanas. Rápido, apertar o passo era mandatório, quem precisava cumprir tinha de apertar o passo. Firula de prosador, isso de andar devagar. Assim não cumpre, e precisava cumprir.

Parou no balcão, pediu um suco de laranja. Com gelo, bastante gelo. Que calor de matar. Suspirou pensando no ar-condicionado da redação. Condenou-se por esquecer, suspiro não pode. Nem olhar para cima. Azul não pode. Azul é poesia, não escrevia na sessão de poesia, privilégio dos dias de sábado. Escrevia no caderno da cidade, tinha de falar das obras de modernização do porto, do estacionamento irregular aos fins de semana, do choque de ordem nas praias. Não podia falar do céu, oras, tinha de cumprir.

Lembrou-se de seus dez anos de idade, da escola, da bermuda marrom, da professora Sônia de Língua Portuguesa, do ovo. O ovo da Cecília Meireles fascinaria sua vida todos os dias, a partir daquele. Desde infante se deliciava com os textos contidos na apostila de Gramática da Língua Portuguesa. A professora Sônia mandava ler, ele já tinha lido. Lera na aula de Matemática, na aula de Ciências, não resistia.

Pois bem, naquele dia de verão, sentado ali à transversal da janela que denunciava a vida lá fora, ouvia a professora Sônia ler o tal texto do ovo. Ela dizia:

“- Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na porta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Neste ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.”

Acreditava ter sido originada, neste dia, sua ternura por céus azuis, sua atração, seu fascínio em olhar para cima, principalmente ali, no Centro da cidade, onde todas as espécies de arquitetura varam o azul exprimindo uma sequência distinta e indubitavelmente fascinante de épocas, anos, vidas, céus.

Final do suco de laranja, gelo mastigado, não podia sentir-se completamente feliz. E as obras, e o choque de ordem? Deveria ater-se ao caos, ao desande, ao concreto que não varava tempo.

Mãos no bolso novamente, retornaria. Poderia caminhar até a Praça Tiradentes, de nada adiantaria, a resignação não o contagiava, a pressa não o atingia, o pé-ante-pé lhe parecia nada mais justo que valsa, estava vivo, afinal, qual seria o problema daquela gente, não saberiam estarem vivos? Sentia vontade de berrar à face de um a um e informá-los disso, transeuntes resignados, corram e olhem o céu, obedeçam à canção. Não berrou. Nem berraria, seria detido por insanidade e não escreveria o bendito texto, não cumpriria. Duas semanas, Otávio, duas semanas.

Não voltou à redação naquele dia. Nem no dia seguinte. Ouviu-se, meses depois, num bar na Praça Santos Dumont, sobre uma tal nova editora – Editora Azul. Estupendas publicações, disse um, ao que outro retruca que assim ouvira falar, que esse Otávio sabe o que faz.

Dedicada a obras sobre a cidade, todo o tipo de conteúdo, da prosa à poesia, do suspiro ao berro – lia-se na contracapa das obras publicadas. Naquela quarta-feira à tarde do preguiçoso e já folião mês de janeiro, Otávio decidira que sabia o que fazia. E fez.

Alguma coisa na vida a gente há de saber que sabe. Mais cedo ou mais tarde, a gente há de se aviar.