domingo, 11 de dezembro de 2011

correspondência

parte III


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“Rio de Janeiro, Verão

Se lhe escrevo num dia de domingo em que achei que o sol viria, e não veio, é porque protelei por toda a semana o desague. Isso de escrever correspondência é desague. Desague a gente protela até rebentar. Rebentou.

Sabe, caro, já ouvi dizer que parece corda torcida, que a gente força até romper, mas não rompe nunca. Só torce. 

Ouvi dizer, ali, que parece aperto, afogamento, pedra no peito. Prendi o ar até estancar e nada. Não se pareceu. Nada se parece.

Disseram-me ser silêncio. Calei-me horas, dias, passaram, passei. Nada. De longe, talvez. De perto, pouco fazia jus.

Ar sofrido, disse João Guimarães Rosa. Disse que era ar sofrido. De ar, só tenho esse, caro. Esse ar a gente não vê. Nisso, talvez se achegue perto, isso da gente não ver. Não se vê, não se tateia. Só se conta, se descreve, se canta, se proseia.

A essa hora, prezado, já posso prosear tantas outras proximidades que podiam fazer jus a explicação a contento. Parece que pensar é viver novamente. Espero haver ainda, em algum momento, sujeito que vá suceder na descrição, o que não fiz. Por ora, creio não o fazer.

Por ora, meu caro, creio não haver conseguido atingir o objetivo dessa correspondência e explicar, aos por menores que sejam fiéis, o que é, afinal, toda a saudade que se sente. Mais tarde, talvez.

Meus melhores desejos, caro amigo.”

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