sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

colóquio

parte IX

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- O que você espera, afinal?

- Eu não sei o que eu espero, Fernando. Eu só desconfio.

Eu desconfio que espero que um dia, assim sem mais, enquanto eu estiver no sofá da sala assistindo a algum filme sem nexo causal no Eurochanel, você vai bater à minha porta. Você vai bater à minha porta e dizer que confessa. Que confessa que eu fui seu grande amor, tal qual a canção. E que ainda gosta de petipoá, aquele misto de ervilha com milho em conserva.

- E depois?

- Depois eu não sei. Talvez eu feche a porta volte a assistir ao filme, talvez eu estanque na porta e desande a chorar, talvez a cena corte, insinuando o que vai acontecer em seguida, que não é exibível no horário da tarde. Talvez você nunca venha. Talvez você nunca bata à minha porta. Você nunca visitou minha casa nova, não deve saber o caminho.

- Eu sei o caminho, Julieta.

- Você bateria à minha porta, Fernando?

- Sabe, eu já cheguei perto e dei meia-volta. Você nunca desconfiou. 
  

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

para exprimir


Hoje é dia de homenagem. A homenagem vai para ela, a mãe de tudo o que figura nessa publicação eletrônica e em tudo o mais. A homenagem vai para ela, a Arte.

Não, que eu saiba, hoje não é Dia da Arte – que, se não existe, deveria. Acontece que o dia de hoje me permeou da necessidade de prestar essa justa homenagem.

Pois bem, como vocês, estimados leitores, já devem saber ou haver percebido – ou não, há sempre os desavisados na vida, que aqui, nesta publicação, jamais serão descriminados – que a voz que vos escreve está escrevendo um roteiro de filme. Desconheço o processo de criação dos demais roteiristas, mas grande parte do desenrolar de minha narrativa foi fertilizado em viagens de ônibus, adoráveis caminhadas na Av. Rio Branco à tarde, especialmente naquele pedacinho tão belo ladeado pelo Municipal, a Biblioteca e o Odeon, e pelas longas muradas da Av. Visconde de Albuquerque. Sempre dão pano para imaginação.

Como de hábito, em meu caminho no coletivo de volta a casa após a labuta, estava a pensar no desenrolar da famigerada narrativa. De súbito, pensei em matar o personagem principal, que faz um ex-par romântico com a outra personagem principal. Em seguida, pus-me a imaginar, cena a cena, as sensações da personagem, seus pensamentos, sua vida.

Neste momento, começa a chover e pingos d’água salpicam a janela do coletivo. Quando dei por mim, um arrepio tomou-me conta, de cabo a rabo, e meus olhos umedeceram. Quando dei por mim, vi-me emocionada por sensações tais quais como se assiste a um filme – já finalizado, devo ressaltar.

Instantânea foi minha admiração ao constatar que um simples esboço de arte querendo nascer já foi suficiente para provocar sensações levadas à flor da pele. Como podia, tal qual magia. 

Lembrei-me dos versos de Ferreira Gullar: “Uma parte de mim/é só vertigem:/outra parte,/linguagem.//Traduzir uma parte/na outra parte/que é uma questão/de vida ou morte /será arte?”  Sim, será.

Um brinde.

domingo, 11 de dezembro de 2011

correspondência

parte III


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“Rio de Janeiro, Verão

Se lhe escrevo num dia de domingo em que achei que o sol viria, e não veio, é porque protelei por toda a semana o desague. Isso de escrever correspondência é desague. Desague a gente protela até rebentar. Rebentou.

Sabe, caro, já ouvi dizer que parece corda torcida, que a gente força até romper, mas não rompe nunca. Só torce. 

Ouvi dizer, ali, que parece aperto, afogamento, pedra no peito. Prendi o ar até estancar e nada. Não se pareceu. Nada se parece.

Disseram-me ser silêncio. Calei-me horas, dias, passaram, passei. Nada. De longe, talvez. De perto, pouco fazia jus.

Ar sofrido, disse João Guimarães Rosa. Disse que era ar sofrido. De ar, só tenho esse, caro. Esse ar a gente não vê. Nisso, talvez se achegue perto, isso da gente não ver. Não se vê, não se tateia. Só se conta, se descreve, se canta, se proseia.

A essa hora, prezado, já posso prosear tantas outras proximidades que podiam fazer jus a explicação a contento. Parece que pensar é viver novamente. Espero haver ainda, em algum momento, sujeito que vá suceder na descrição, o que não fiz. Por ora, creio não o fazer.

Por ora, meu caro, creio não haver conseguido atingir o objetivo dessa correspondência e explicar, aos por menores que sejam fiéis, o que é, afinal, toda a saudade que se sente. Mais tarde, talvez.

Meus melhores desejos, caro amigo.”

domingo, 4 de dezembro de 2011

francamente

- O que você acha desse?

- Está ótimo, Márcia. Vamos andando, assim nos atrasamos.

- Não sei, Ricardo. Não quero sobressair à Vânia.
Talvez eu deva vestir o preto. É mais discreto.

- Já chega, vamos embora. É o terceiro vestido que você experimenta.

- Isso é assunto sério, Ricardo. Estou apostando nesse encontro às escuras da Vânia com o Felipe há tempos. Sempre achei que os dois combinavam. E a Vânia anda sozinha de dar dó.

- Está bem. Você não vai sobressair à Vânia, no duro. Agora vamos.

- No duro? O que você quis dizer com isso, Ricardo? Você acha a Vânia mais atraente do que eu? Você acha. Eu sabia. Eu sempre soube, Ricardo.

- Lá vamos nós.

- Desembucha, Ricardo. Há quanto tempo você está de caso com a Vânia?

- Eu não estou de caso com a Vânia, Márcia.

- Se não está, queria estar. Queria, não queria, Ricardo? Confesse.

- Márcia, a Vânia já deve estar nos esperando para buscá-la faz mais de hora. E o coitado do Felipe já deve estar no restaurante. Podemos ir?

- Não muda de assunto, Ricardo.

- Eu não mudei de assunto. Ainda estamos falando da Vânia. Está nos esperando.

- Ricardo, olhe lá. Não estou para piadas.

- Imagino que não. Podemos ir?

- Sabe, a Vânia nunca me enganou. Sirigaita.

- Mas o que é isso, Márcia. É sua amiga.

- Fosse amiga, não estaria de caso com você.

- Agora chega. Não vou mais a restaurante nenhum.

- Não vamos? Mas e a Vânia? Está nos esperando há mais de hora.
 
- A Vânia que tome um táxi. Por mim já chega. Boa noite, Márcia.

- Francamente, Ricardo. Criar confusão à hora de sair de casa, agora veja você. Homens se chateiam por cada coisa, viu...