A tartaruga fugiu. É isso, a
tartaruga que morava na casa da Tânia fugiu.
Esteve fugindo, creio ser a flexão
verbal correta, visto que a fuga de um quelônio deve ser algo demorado,
contínuo que só. Mas o que choca a gente é que a Tânia não notou o processo, o
decorrer da fuga, os momentos de apreensão do ser em questão, nada. A tartaruga,
assim como estava, foi de seu quintal para o quintal do vizinho. Talvez não
gostasse da companhia de Tânia, talvez estivesse apenas entediada. Motivos à
parte, a Tânia não notou o processo da fuga.
Ouvindo o narrar de Tânia,
ofendida ela que estava por ter sido preterida por sua ex-companheira de lar,
pensei no significado da mudança voluntária da tartaruga da Tânia. A verdade é
que a gente não vê o que nos é discreto passar. Discreto, aqui, no sentido de
tênue, contínuo, ali ao lado. A gente acaba não notando que o tênue, o
contínuo, o ali ao lado também se movem.
O relâmpago, o estampido, o que
passa correndo em alarde se faz notar que dá gosto. Absorve o tempo, os dias,
as palavras, a gente. Quando a gente vê, nem viu. Nem viu o tênue, o contínuo,
o ali ao lado. Ter atenção no viver é enxergar o tênue, o contínuo, o ali ao
lado. Não ter atenção no viver é desperdício, é imoral. É jogar as folhas e o
talo dos legumes no lixo, com tanta da gente por aí precisando. É dar gargalhada de
olhos abertos.
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