sexta-feira, 25 de novembro de 2011

o tênue, o contínuo, o ali ao lado

A tartaruga fugiu. É isso, a tartaruga que morava na casa da Tânia fugiu. 

Esteve fugindo, creio ser a flexão verbal correta, visto que a fuga de um quelônio deve ser algo demorado, contínuo que só. Mas o que choca a gente é que a Tânia não notou o processo, o decorrer da fuga, os momentos de apreensão do ser em questão, nada. A tartaruga, assim como estava, foi de seu quintal para o quintal do vizinho. Talvez não gostasse da companhia de Tânia, talvez estivesse apenas entediada. Motivos à parte, a Tânia não notou o processo da fuga.

Ouvindo o narrar de Tânia, ofendida ela que estava por ter sido preterida por sua ex-companheira de lar, pensei no significado da mudança voluntária da tartaruga da Tânia. A verdade é que a gente não vê o que nos é discreto passar. Discreto, aqui, no sentido de tênue, contínuo, ali ao lado. A gente acaba não notando que o tênue, o contínuo, o ali ao lado também se movem.  

O relâmpago, o estampido, o que passa correndo em alarde se faz notar que dá gosto. Absorve o tempo, os dias, as palavras, a gente. Quando a gente vê, nem viu. Nem viu o tênue, o contínuo, o ali ao lado. Ter atenção no viver é enxergar o tênue, o contínuo, o ali ao lado. Não ter atenção no viver é desperdício, é imoral. É jogar as folhas e o talo dos legumes no lixo, com tanta da gente por aí precisando. É dar gargalhada de olhos abertos. 

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