sábado, 26 de novembro de 2011

colóquio

parte VIII 


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- Por quanto tempo? Para sempre?

- Não gosto de para sempre.

- Por que, Julieta?

- Porque para sempre não existe. Por isso jura-se tanto pelo para sempre. Porque a gente sabe que não existe.

- Então não será para sempre.

- Pode ser enquanto nos lembrarmos. Parece-me um bom motivo.

- Está bem. Enquanto nos lembrarmos, onde e com quem estivermos, nos encontraremos lá.

- Você promete, Fernando?

- Prometo.

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- Que surpresa, Fernando. Não imaginava que você ainda vinha aqui.

- Você me fez gostar, acabei apegando-me ao hábito. Antigos hábitos nunca morrem, não é? 
Já dizia a canção.

- Qual canção?

- Não sei, Julieta. Acho que dos Stones.

- Ah.

Silêncio.

- Você foi, Fernando?

- Fui.

- Sabe, eu também fui. Olhei para você de longe, por um tempo. Você me parecia bem. Fiquei contente. Olhei por mais um tempo e fui embora, depois da terceira música. Não consegui, eu acho.

- Por que nós, Julieta?

- Eu acho que foi nosso tempo verbal, Fernando. Nós fomos o pretérito do futuro. Não há chance para o pretérito do futuro. Já nasce acabado.

- Eu vi que você foi. Acho que também não consegui. Somos covardes, eu acho.  

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

o tênue, o contínuo, o ali ao lado

A tartaruga fugiu. É isso, a tartaruga que morava na casa da Tânia fugiu. 

Esteve fugindo, creio ser a flexão verbal correta, visto que a fuga de um quelônio deve ser algo demorado, contínuo que só. Mas o que choca a gente é que a Tânia não notou o processo, o decorrer da fuga, os momentos de apreensão do ser em questão, nada. A tartaruga, assim como estava, foi de seu quintal para o quintal do vizinho. Talvez não gostasse da companhia de Tânia, talvez estivesse apenas entediada. Motivos à parte, a Tânia não notou o processo da fuga.

Ouvindo o narrar de Tânia, ofendida ela que estava por ter sido preterida por sua ex-companheira de lar, pensei no significado da mudança voluntária da tartaruga da Tânia. A verdade é que a gente não vê o que nos é discreto passar. Discreto, aqui, no sentido de tênue, contínuo, ali ao lado. A gente acaba não notando que o tênue, o contínuo, o ali ao lado também se movem.  

O relâmpago, o estampido, o que passa correndo em alarde se faz notar que dá gosto. Absorve o tempo, os dias, as palavras, a gente. Quando a gente vê, nem viu. Nem viu o tênue, o contínuo, o ali ao lado. Ter atenção no viver é enxergar o tênue, o contínuo, o ali ao lado. Não ter atenção no viver é desperdício, é imoral. É jogar as folhas e o talo dos legumes no lixo, com tanta da gente por aí precisando. É dar gargalhada de olhos abertos.