domingo, 30 de outubro de 2011

sobre o MRU, inaugurações e outros aspectos teóricos do caos

Que meu estimado professor de Física à época colegial me perdoe, porém, infrutíferos seus esforços, nunca me entendi bem com a matéria. Estranho seria se fosse diferente, eu acho.

 No auge de minha limitação para com as exatidões da vida, contudo, fui capaz de compreender o conceito do MRU, o tal Movimento Retilíneo Uniforme. Pelo o que pude depreender, corrijam-me vocês se eu estiver errada, o resumo da ópera é que a velocidade do tal movimento mantém-se constante, segue o mesmo passo. Tivessem me explicado com estas palavras, talvez eu entendesse a tal da Física.

Aconteceu que me peguei pensando no tal movimento constante. É uma bela metáfora, esse conceito. Há quem seja MRU. Há quem goze da capacidade de manter-se em velocidade constante ad aeternum, até que algum fator externo altere sua aceleração. Há quem, por outro lado, viva de inaugurações. Há quem armazene fitas vermelhas no ser, tamanha a frequência de seu uso. Inaugurar-se a todo o tempo, descobrir ou espanar a poeira do que fora. De qualquer maneira, cortando a fita de laçarote vermelho com uma tesoura, sem precisar de qualquer fator externo para tal. Quem se inaugura o faz porque faz, porque nada mais é que natural. Nada é mais que natural que o não ser.

Quem se inaugura vive o caos. Vive o tentador caos da descoberta, que faz o inaugurante cruzar em diagonal a Praça da Cinelândia olhando para cima, para o céu, para o Teatro, para o Museu, para todas as coisas, perguntando-se o que será daquilo, daquela nova inauguração. Por alguma razão, quem se inaugura sempre acha que a resposta está no céu, está nas nuvens, está na fachada do Odeon. Volúveis, confusos, há quem diga. Mas há quem, sabiamente, diga que não. Quem vos fala, mesmo, pode atestar que já experimentou o conhecer de inaugurantes com uma baita convicção de si, do outro, de toda a sorte de coisas. Convicção feita dos retalhos de cada pedaço do novo, nunca deixados para trás, mas agregados. Esses inaugurantes, eu pude ver, fizeram-se fortes e cheios de cores e estampas, além dos dedos um tanto calejados de tanto costurar.

Sem, em momento algum, desprezar o engenhoso conceito do MRU, confesso achar cerceada a constância de uma velocidade que aguarda ser atingida por uma pedra ou dirigível quedado do céu para que mude, acelere ou diminua. Quanto aos calos nos dedos que costuram, dos males o menor. Basta comprar um dedal no armarinho, continuar costurando e ser constante quando for por bem o ser.  

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