domingo, 9 de outubro de 2011

desconfiança

Ao questionarem-me sobre a diferença entra a criação da crônica dissertativa, em primeira pessoa, e a crônica narrativa, em terceira pessoa, respondi que já não me garantia tanto. 

Explique-se, solicitaram-me. Expliquei. 

Ora, a gente tem de garantir-se para falar em primeira pessoa, sobre isso ou sobre aquilo. A gente tem de ter uma baita certeza sobre isso ou sobre aquilo. Ao menos, a gente tem de ter uma baita certeza de si.

Disse, então, que não tinha nem baita, nem diminuta certeza sobre coisa alguma, por ora. Ou sempre, vá saber.

Encerrada a sabatina, chamei o garçom, paguei a conta devida e fui-me embora. Caminhando, pedra portuguesa solta aqui e ali, caminho de volta a casa, pus-me a pensar. Que diferença fazia, afinal, não ser a gente, não ser a gente dizendo, não ser a gente vivendo, ser quem a gente inventa dizendo, ser quem a gente inventa vivendo. A personagem tem certeza, e a gente não?

Pois haveria de ser aquele o momento. Preparava-me, pé ante pé, para escrever o pronome eu, nu e só em seu significado. Não há  patrulha do dizer, a gente diz em nome de si o que bem entende. E assim fui, até apertando o passo, para chegar mais depressa.

Abro porta, abro geladeira, copo d’água, papel, caneta. Eu. Pois eu acho, meu caro. Eu.   

Olho. Afasto o papel, questão de perspectiva, sabe como é. Aproximo novamente, sobrancelha franzida. Risco. Troco por ele, Alberto. O nome da personagem seria Alberto. Falhara? – questiono-me, não obtendo resposta nem ao menos do cão recostado em minhas pernas. Falhara na baita certeza, disso tinha certeza. E baita. Amanhã tento novamente, penso.

Abro geladeira, pó de café, chaleira apita. Fumaça, cheiro, gosto.

Encosto da cadeira afofado, papel, caneta. Eu. Eu acho. Deito a caneta, afago o cão.

Vou até a janela. Volto ao encosto da cadeira. Eu. Eu, eu não sei de coisa alguma – continuo a frase. Eu não sei de coisa alguma. Acontece que, tal qual  João Guimarães Rosa, eu desconfio de muita coisa. Falemos de minhas desconfianças. E assim, varei a tarde, desfiando tudo disso e daquilo que desconfiava. E assim, alforriei-me. Alforriei-me da obrigatoriedade da certeza. A gente vai desconfiando que é, que dá, que vai dar. Não sendo, não dando, a gente risca e muda de rumo.

 E assim, recheado o papel, saí à rua com o olhar escancarado de quem ia fazer uma visita. 

Um comentário:

  1. HEHEHEHE Gostei, nada disse e disse tudo rssss
    Incertezas? Uqem não as tem?
    Eu.
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