Ao questionarem-me sobre a diferença
entra a criação da crônica dissertativa, em primeira pessoa, e a crônica
narrativa, em terceira pessoa, respondi que já não me garantia tanto.
Explique-se, solicitaram-me. Expliquei.
Ora, a gente tem de garantir-se para falar em primeira pessoa, sobre
isso ou sobre aquilo. A gente tem de ter uma baita certeza sobre isso ou sobre aquilo.
Ao menos, a gente tem de ter uma baita certeza de si.
Disse, então, que não tinha nem baita, nem diminuta certeza sobre coisa
alguma, por ora. Ou sempre, vá saber.
Encerrada a sabatina, chamei o garçom, paguei a conta devida e fui-me
embora. Caminhando, pedra portuguesa solta aqui e ali, caminho de volta a casa,
pus-me a pensar. Que diferença fazia, afinal, não ser a gente, não ser a gente
dizendo, não ser a gente vivendo, ser quem a gente inventa dizendo, ser quem a
gente inventa vivendo. A personagem tem certeza, e a gente não?
Pois haveria de ser aquele o momento. Preparava-me, pé ante pé, para
escrever o pronome eu, nu e só em seu significado. Não há patrulha do
dizer, a gente diz em nome de si o que bem entende. E assim fui, até apertando
o passo, para chegar mais depressa.
Abro porta, abro geladeira, copo d’água, papel, caneta. Eu. Pois eu
acho, meu caro. Eu.
Olho. Afasto o papel, questão de perspectiva, sabe como é. Aproximo novamente,
sobrancelha franzida. Risco. Troco por ele, Alberto. O nome da personagem seria
Alberto. Falhara? – questiono-me, não obtendo resposta nem ao menos do cão
recostado em minhas pernas. Falhara na baita certeza, disso tinha certeza. E
baita. Amanhã tento novamente, penso.
Abro geladeira, pó de café, chaleira apita. Fumaça, cheiro, gosto.
Encosto da cadeira afofado, papel, caneta. Eu. Eu acho. Deito a caneta,
afago o cão.
Vou até a janela. Volto ao encosto da cadeira. Eu. Eu, eu não sei de
coisa alguma – continuo a frase. Eu não sei de coisa alguma. Acontece que, tal
qual João Guimarães Rosa, eu desconfio
de muita coisa. Falemos de minhas desconfianças. E assim, varei a tarde,
desfiando tudo disso e daquilo que desconfiava. E assim, alforriei-me.
Alforriei-me da obrigatoriedade da certeza. A gente vai desconfiando que é, que
dá, que vai dar. Não sendo, não dando, a gente risca e muda de rumo.
E assim, recheado o papel, saí à
rua com o olhar escancarado de quem ia fazer uma visita.
HEHEHEHE Gostei, nada disse e disse tudo rssss
ResponderExcluirIncertezas? Uqem não as tem?
Eu.
rss