No auge de minha limitação para com as
exatidões da vida, contudo, fui capaz de compreender o conceito do MRU, o tal
Movimento Retilíneo Uniforme. Pelo o que pude depreender, corrijam-me vocês se
eu estiver errada, o resumo da ópera é que a velocidade do tal movimento
mantém-se constante, segue o mesmo passo. Tivessem me explicado com estas
palavras, talvez eu entendesse a tal da Física.
Aconteceu que me peguei pensando
no tal movimento constante. É uma bela metáfora, esse conceito. Há quem seja
MRU. Há quem goze da capacidade de manter-se em velocidade constante ad
aeternum, até que algum fator externo altere sua aceleração. Há quem, por outro
lado, viva de inaugurações. Há quem armazene fitas vermelhas no ser, tamanha a frequência
de seu uso. Inaugurar-se a todo o tempo, descobrir ou espanar a poeira do que
fora. De qualquer maneira, cortando a fita de laçarote vermelho com uma
tesoura, sem precisar de qualquer fator externo para tal. Quem se inaugura o
faz porque faz, porque nada mais é que natural. Nada é mais que natural que o
não ser.
Quem se inaugura vive o caos.
Vive o tentador caos da descoberta, que faz o inaugurante cruzar em diagonal a Praça
da Cinelândia olhando para cima, para o céu, para o Teatro, para o Museu, para
todas as coisas, perguntando-se o que será daquilo, daquela nova inauguração.
Por alguma razão, quem se inaugura sempre acha que a resposta está no céu, está
nas nuvens, está na fachada do Odeon. Volúveis, confusos, há quem diga. Mas há
quem, sabiamente, diga que não. Quem vos fala, mesmo, pode atestar que já
experimentou o conhecer de inaugurantes com uma baita convicção de si, do
outro, de toda a sorte de coisas. Convicção feita dos retalhos de cada pedaço
do novo, nunca deixados para trás, mas agregados. Esses inaugurantes, eu pude
ver, fizeram-se fortes e cheios de cores e estampas, além dos dedos um tanto
calejados de tanto costurar.
Sem, em momento algum, desprezar
o engenhoso conceito do MRU, confesso achar cerceada a constância de uma
velocidade que aguarda ser atingida por uma pedra ou dirigível quedado do céu
para que mude, acelere ou diminua. Quanto aos calos nos dedos que costuram, dos
males o menor. Basta comprar um dedal no armarinho, continuar costurando e ser
constante quando for por bem o ser.