Nasceu, aprendeu a andar antes de falar. Provável evidência de sua predileção pela liberdade de ir e vir, dentre todas as outras. Anos seguintes, freqüentou escola, muito independente, não se pode dar conta desse menino, dizia a professora. Desapegado, dizia a mãe a todo o tempo, certo tom de desgosto. Esse menino é um desapegado.
A certa altura, o independente e desapegado menino, já não menino, senhor de si, via-se pleno, indo e vindo. Deixava, a caráter inevitável, peças, partes e outras composições pelo caminho, suas e de outros. Há que se perder e deixar pela vida, dizia ele. Acreditava ser nada mais que natural.
Ah, agosto. O grande erro do já não menino foi subestimar um mês de agosto qualquer. Estancou. Sentiu seus pés, até então alados, imóveis, pesados, pregados ao chão.
Viu-se proferindo, protestando, a palavra desapego a outrem. Outrem, que nascera um bocado depois dele mesmo. Outrem havia nascido um bocado depois dele mesmo e aprendido a falar antes de andar. Outrem tinha asa nos pés e seguia a deixar partes pelo caminho.
O menino já não menino tentou. Esforçou-se até a exaustão. Nada de alívio no peso dos pés.
Não havendo o que mais, apoderou-se de uma sacola e pôs-se a recolher o que ainda podia enxergar pelo caminho atrás de si.
Crescer asas de volta, aí é que são elas.
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