quarta-feira, 21 de setembro de 2011


Do roteiro de O Amor Acaba:


"(...)

EXTERNA - PRAÇA DA CINELÂNDIA - MANHÃ

Feira de livros usados, ocupando toda a calçada defronte ao Cinema Odeon, Água de Beber, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, toca ao fundo, diminuindo gradativamente com o início do diálogo. 

LUIZA folheia livros, distraída, fone de ouvidos. 

PEDRO avista Luiza, a certa distância. Aproxima-se:

-Oi. 

LUIZA tira os fones dos ouvidos, como que de susto, e enxerga Pedro. 

-Pedro...Que surpresa. 

PEDRO responde, tirando os óculos escuros da face

- Sabia que te encontraria aqui. 

LUIZA, surpresa:

-Sabia?

PEDRO, olhando para o chão

- Não. Modo de dizer mesmo. Não sermos mais é não sabermos mais do outro. Não é?

LUIZA, tentando resistir à tristeza que ensaia chegar a seu rosto

- Pedro... Você achou melhor, eu achei, não sei, alguém achou. Alguém achou que seria melhor esse desterro de nós. 

PEDRO, perdendo o olhar de propósito

- E você não acha?

LUIZA, folheando sem rumo um livro, parando, ao fim, e olhando para Pedro:

- É desperdício. É o que eu acho.  É jogar a casca e o caule fora.
   É catar saber no que resta, em frase sua que leio aqui e ali, e me faço sabendo. -- de você. 

PEDRO fazendo que vai partir:

- Sou covarde, Luiza. Não aguento ver acidente, tapo os olhos com as mãos. Tapo o saber de você com as mãos. Sou covarde, Luiza.

Ainda sem recolocar os óculos escuros na face, devolve o livro que tinha às mãos e parte, no sentido Orla.

Luiza permanece com o livro nas mãos, olhando para a contra-capa. Puxa uma nota de dez reais do bolso lateral de sua tira-colo, entrega ao vendedor, agradece e parte, sentido Lapa, guardando o livro na tira-colo"

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

o ônibus


Avenida Presidente Vargas, sábado, 18.30h. O coletivo chacoalha seus passageiros para cá e acolá, ah, essas modernidades de ônibus, dizia S. Armando, preferia o bonde. Devia ter tomado o bonde, pensava. 

O grupo de jovens, mais ao fundo, em algazarra, remete um pouco S. Armando às suas próprias algazarras de outrora, ah, mas eu aprontei, dizia S. Armando a si mesmo, revisitando sua imagem cantarolando enquanto o bonde subia a ladeira, mexendo com as moças do passeio, sorrindo com os amigos.

A mocinha, acomodada na diagonal do assento de S. Armando, desejava que o ônibus logo chegasse a seu destino, não prezava viagens de ônibus, ainda mais em final de semana, pensava ela. Pensou em Eduardo.

O que estaria Eduardo fazendo àquele momento. Ah, o Eduardo nunca a deixava à sorte, deslocando-se de ônibus por aí. O Eduardo, o antigo Eduardo, zelava por sua segurança e conforto. Desejou, com todas sua forças, que Eduardo voltasse à sua companhia, ao seu pobre coração.

Ao trocador do ônibus restava contemplar a desertidão da já aparente Avenida Rio Branco, à medida que o veículo virava a esquina. Tão quieto numa noite de sábado, quão diferente do burburinho dos dias de semana. Para onde estariam indo esses passageiros, cruzando a Avenida Rio Branco, em uma noite de sábado. Farrear, devem estar indo farrear, pensou o trocador.

S. Armando pensou ser  o Apocalipse, a mocinha ensaia um gritinho, o grupo de jovens se alvoroça. O trocador, para não dizer que não se manifestou, esboça uma esticadinha de pescoço.

Bradando a coleção de nomes feios que possuía, o motorista do coletivo salta por sua porta da frente. É cego, me diga, qual o seu problema, meu amigo. Amigo é a mãe, bradava o dono do automóvel, enquanto sinaliza para o parachoque dependurado de o que havia sido uma frente da lataria.

Como todo ajuntamento que se preze, em pouco já recebia visita da rádio patrulha.

- Bateu em mim, seu guarda, se acha maior que todos, dirigindo esse monstrengo.

- Qual o quê, juventude sem juízo, quer cruzar a Avenida à toda velocidade, não há freio que resolva!

E o bate-boca se estende, para o delírio do grupo de jovens, que, juntamente dos demais passageiros, obedecem às ordens do guarda de que ninguém descia dali antes da apuração.

O leitor, a esta altura, já deve estar perguntando-se que é feito de S. Armando em meio à balbúrdea instalada. Recuperado do susto e resignado de que não, ainda não é hora do Apocalipse, não seria agora que ele pagaria por assustar a senhora sua mãe naquele dia, fingindo-se de morto, aos sete anos de idade, põe-se a bradar em direção ao guarda.

Pois desceria, sim, do ônibus, e ninguém haveria de detê-lo, afinal, sua descida era ali mesmo, à Rua do Ouvidor, a turma já devia estar esperando-o, ninguém manda em Armando, dizia S. Armando sobre si mesmo, em terceira pessoa.

Feito o não feito, tendo o dito pelo não dito, o guarda, por fim, convence o motorista do automóvel de que sim, ele podia confiar, receberia, no dia seguinte, uma ligação da companhia de transporte, resolveriam a pendenga, agora já chega, todos a seus destinos, um, dois.

Os jovens já de volta à algazarra, S. Armando ali, no outro lado da rua, fagueiro qual outrora, indo ao encontro dos amigos, o trocador com a pouca emoção que estava, ficou, de volta a contemplar a desertidão da Avenida.

A mocinha? Bom, a mocinha aproveitara a deixa de S. Armando e pôs-se coletivo a fora, como de rompante. Não era aquela sua parada, dirigia-se ao bairro de Copacabana, mas mudara de planos. Caminhara um pouco, chegara. Batera à porta da residência à Rua do Carmo. Que surpresa, como vai, bem, vou bem. Medo, foi de dar medo, achei que ia morrer de batida. Sem você não morro, Eduardo, sem você não vivo.

E foi assim que, naquela noite de sábado, Eduardo voltou à companhia e ao pobre coração da mocinha. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

o menino

Nasceu, aprendeu a andar antes de falar. Provável evidência de sua predileção pela liberdade de ir e vir, dentre todas as outras. Anos seguintes, freqüentou escola, muito independente, não se pode dar conta desse menino, dizia a professora. Desapegado, dizia a mãe a todo o tempo, certo tom de desgosto. Esse menino é um desapegado.

 A certa altura, o independente e desapegado menino, já não menino, senhor de si, via-se pleno, indo e vindo. Deixava, a caráter inevitável, peças, partes e outras composições pelo caminho, suas e de outros. Há que se perder e deixar pela vida, dizia ele. Acreditava ser nada mais que natural.
  
Ah, agosto. O grande erro do já não menino foi subestimar um mês de agosto qualquer. Estancou. Sentiu seus pés, até então alados, imóveis, pesados, pregados ao chão.
  
Viu-se proferindo, protestando, a palavra desapego a outrem. Outrem, que nascera um bocado depois dele mesmo. Outrem havia nascido um bocado depois dele mesmo e aprendido a falar antes de andar. Outrem tinha asa nos pés e seguia a deixar partes pelo caminho.

O menino já não menino tentou. Esforçou-se até a exaustão. Nada de alívio no peso dos pés.

Não havendo o que mais, apoderou-se de uma sacola e pôs-se a recolher o que ainda podia enxergar pelo caminho atrás de si.

Crescer asas de volta, aí é que são elas.