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“Rio de Janeiro, Inverno.
Eu disse que escreveria sempre, não disse, você sabe. Material para coleção, a esta altura, você já tem. Não que estas palavras escoadas constituam material digno de catalogação, você sabe.
Sabe, caro amigo, desejo voltar. Sim, não sei para onde, partindo de qual ponto. Tudo que sei, lhe explico neste momento, é daquela sensação do coletivo. Aquela, de quando se está sentado na quietude do coletivo que cruza o Aterro do Flamengo, a admirar o espelho d’água, e a súbita vontade que lhe sobe em iminente romper da garganta é a de levantar-se, dirigir-se ao motorista e requisitar que ele lhe leve de volta.
Para onde?, ele perguntaria. Eu responderia, caríssimo, que não sei, não sei para onde se volta a uma altura destas. Inclusive, não sei que a altura é esta. Qual a sua altura, caro?
Não o fiz, evidentemente, há de se conservar a lucidez, permaneci na estática do assento até meu destino, aquele no qual pensamos quando tomamos o coletivo e apertamos os olhos para enxergar o número que se aproxima, aquele, e não aquele, aquele que buscamos incessantemente.
Voltei. Não para o objeto deste escoamento, voltei à esta correspondência, depois de breve ausência para checar a água ao fogo. Evaporou um pouco. Sempre evapora, quando se sai de perto. Às vezes, é inevitável se sair de perto.
Percebo que escrevo num fôlego só, provável que se dê a notar. É o fôlego com o qual penso, meu amigo, seria o fôlego com o qual lhe falaria.
Há de se parar para respirar. O farei, se me permite, continuarei essa em outro momento.
Meus melhores desejos, caro amigo.”
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