“Rio de Janeiro, Inverno .
Sinto saudades que me parecem irremediáveis. Daquelas que parecem que nos fazem sentir cheiros familiares. Sentir o cheiro do ar naquele dia, naqueles dias. Quando foi? Tem sol que sai diferente. Disso, tenho certeza, ninguém me demove desta idéia. Impossível esse sol de hoje assemelhar-se ao sol daquele mês de janeiro, recorda-se? Será, agora, este desterro que experimento, culpa do sol, do céu, da estação, daquela canção? Se a gente for ver, a culpa é sempre um pouco daquela canção.
Sabe, acho que isso é remitência. Isso de remeter é coisa aloucada, transtornante. Difere da saudade, da chorosidade. Leva, carrega com tudo, àquilo, quando, daquilo. É um arrastão. É isso que é, essa coisa aloucada de remeter. É arrastão.
Sentada em cima daquele baú, acompanhando pela janela o movimento desértico daquela rua às duas horas da madrugada. Aqueles acordes me vieram à cabeça por descuido, ao escutar nesta manhã ao rádio. Achei que não me lembrava mais. Ledo engano, a gente sempre lembra. Não sei de você. Mas daqui, sempre se lembra.
Esta correspondência, quase bilhete, era e é deságüe. A gente tem de desaguar em algum lugar.
Como diriam os norte-americanos,
Meus melhores desejos.”
Não sei se tem muito a ver, mas este texto me fez lembrar de um poema que escrevi ano passado:
ResponderExcluirRastro de Sangue
A saudade me segue como um cão
que, mesmo escorraçado, nunca some.
Um passageiro sem rosto e sem nome
me espreitando no último vagão.
A saudade guarda na boca um não
que penetra em minha carne e a consome,
deixando em seu lugar estranha fome
para a qual jamais há satisfação.
Memória em sua face mais selvagem,
fantasma de insuportável convívio,
mestra em manipular velhas imagens.
Saudade: sombra que se faz paisagem,
um fardo invisível e sem alívio,
eterna companheira de viagem.