sábado, 23 de julho de 2011

colóquio

parte IV

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- Bem colorida, sua casa. Não podia ser diferente.

- Eu sempre disse que seria, não é? Engraçado isso. Engraçado você visitar minha casa. Quantos anos? Dois, três?

- Quatro. Matemática nunca foi seu forte, não é, Julieta?

- É. Eu sempre fui um pouco como um pincel de tinta. E você sempre chegou com a máquina calculadora.

- Você quem decorou? Pergunta besta. É a sua cara, mesmo.

- Bom te ver, Fernando. No duro. Sabe, é o tipo de coisa que a gente não imagina, nem nos mais vãos desvarios. Você, de pé, ante minhas almofadas coloridas. Não depois daquele dia, no Odeon.

- Você não tirou os óculos escuros.

- Que diferença fazia, você ver meus olhos. Não éramos nós.

- Eles me fariam ficar, Julieta.

- Não se salta de um trem em movimento, Fernando. 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

correspondência

“Rio de Janeiro, Inverno .

Sinto saudades que me parecem irremediáveis. Daquelas que parecem que nos fazem sentir cheiros familiares. Sentir o cheiro do ar naquele dia, naqueles dias. Quando foi? Tem sol que sai diferente. Disso, tenho certeza, ninguém me demove desta idéia. Impossível esse sol de hoje assemelhar-se ao sol daquele mês de janeiro, recorda-se? Será, agora, este desterro que experimento, culpa do sol, do céu, da estação, daquela canção? Se a gente for ver, a culpa é sempre um pouco daquela canção.

Sabe, acho que isso é remitência. Isso de remeter é coisa aloucada, transtornante. Difere da saudade, da chorosidade. Leva, carrega com tudo, àquilo, quando, daquilo. É um arrastão. É isso que é, essa coisa aloucada de remeter. É arrastão.

Sentada em cima daquele baú, acompanhando pela janela o movimento desértico daquela rua às duas horas da madrugada. Aqueles acordes me vieram à cabeça por descuido, ao escutar nesta manhã ao rádio. Achei que não me lembrava mais. Ledo engano, a gente sempre lembra. Não sei de você.  Mas daqui, sempre se lembra.

Esta correspondência, quase bilhete, era e é deságüe. A gente tem de desaguar em algum lugar.

Como diriam os norte-americanos,


Meus melhores desejos.”

domingo, 10 de julho de 2011

de para Maria

Como de costume nas manhãs de domingo, procedia com minha leitura de jornal na cama. Sempre bom. Lia uma matéria no caderno Ilustríssima, da Folha de São Paulo, sobre a pretensa iminente morte da Literatura. Não sei se talvez insuflada pelos manifestos dos professores pela educação tão falados nessa semana última, vi-me pensando em minha professora de Língua Portuguesa da antiga sétima série – não sei como se chama hoje em dia a sétima série do ensino fundamental, acho que envelheci. O nome dela é Maria. Sim, é verdade, não minto para criar um clima singelo a este texto. Ela se chama Maria.

Aos meus, então, treze anos, já sofria desta incurável relação amorosa com as palavras. Recordo-me da Gramática. Usávamos um livro de Gramática azul, literalmente azul-céu, pois sua capa representava um céu, com nuvens brancas pintadas, e, se bem me recordo, um muro de cerca cor bege, aonde vinha escrito “Gramática da Língua Portuguesa”. Esse livro foi um fiel e indescritível companheiro de aulas de matemática e ciências afora, quando os únicos remédios pareciam ser admirar, pela janela, os carros passando pela Rua São Francisco Xavier, no bairro da Tijuca, e degustar os textos, trechos e poesias que figuravam em minha Gramática da Língua Portuguesa, devidamente camuflada entre meu colo e a carteira. Deliciosas tardes, devo dizer. Naquelas tardes, eu era apresentada à forma mais singela em que a arte pode ser encontrada, palavras impressas em um livro escolar, munidas de um fascinante poder de remissão. Capazes de, mesmo que por um brevíssimo espaço de tempo, transportar o então jovem leitor para qualquer lugar que não aquele – não desmerecendo as prezadas aulas de matemáticas e ciências biológicas, é claro.

Eu admirava a professora Maria. Sua fala era pausada e ritmada, como que com a propositada intenção de nos fazer ouvir, e não apenas escutar, palavra por palavra, afinal, elas eram as estrelas daqueles períodos de quarenta e cinco minutos. Admirava o modo como ela, de alguma maneira, sempre sabia o que aqueles textos e poemas diziam, ou queriam, ou podiam dizer – afinal, a esta altura, já aprendi que isso a gente nunca pode saber mesmo. Além dos testes e provas, escrevíamos também redações. Dispensável dizer que era minha atividade escolar preferida. O ápice, bem lembro, era quando a professora Maria nos devolvia as redações corrigidas. Ansiava por seus comentários, por saber o que ela havia achado de meus textos. Isto, àquela época, já me era mais que importante. Um dia, a professora Maria me disse que eu escrevia bem. Será que ainda o faço bem, professora Maria?

Agora, ao passo destas lembranças que povoam o dia de hoje, me vem ao pensamento um trecho de Caio Fernando Abreu, quem diria que viver ia dar nisso. Como imaginaria eu, numa daquelas tardes assistindo aos carros passarem na janela, que tão nostalgicamente me recordaria da Professora Maria e de minha Gramática da Língua Portuguesa. Ante todo este exposto, o que me cumpre é declarar aqui meu sincero agradecimento à Professora Maria e a todos os outros professores, que, de alguma maneira, fizeram o viver dar nisso. Desejo que os apelos dos manifestantes sejam ouvidos, e a classe do magistério receba o tratamento de gratidão que merece. 

colóquio

Parte III

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- Estou cansada, sabe.

- Claro que você está cansada, Julieta. Já falei, você faz coisa demais. Quer abraçar o mundo à base de sanduíche. Depois, fica doente.

- Não, Fernando. Estou cansada.

- De mim?

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- Tem de haver um motivo. Ou algo, sempre há um algo.

- É a periferia, Fernando. Isso é o que sobrou, é a periferia de nós mesmos. É o que ficou ao redor do que se desenrolou, é a sobra que transborda para os lados. É natural.

- Natural? Natural, Julieta, é o sol nascer e se pôr todos os dias. É como você sempre dorme de cabelos molhados e acorda resfriada. Não traga para nós sua fortaleza de falso desprendimento.

- É fortaleza feita de areia. Cai quando a maré chega.