Pergunto-me se os colegas escritores padecem da mesma síndrome de quem vos escreve. É provável. É provável que volta e meia os colegas deixem escapar, durante um colóquio, que escrevem e pimba! – são requisitados a escreverem um texto especialmente para o sujeito. Tal qual uma jukebox. Exceto pelo fato de que, frequentemente, não somos recompensados com moedinhas.
Pois bem, ranhetas que somos, reclamamos, dizemos que escrevemos por inspiração natural do momento, mas, corações-moles que somos, por fim nos sentamos e colocamos as letras para trabalhar.
Dia desses, como sempre, solicitaram-me um escrito. Levei um tanto para sentar-me por ele, tanto esse o suficiente para espreitar aqui e ali dias afora e perceber um outro tanto. Neste intervalo entre o pedido e o presente momento, experimentei um dia especialmente estafante – depois descobri que viriam outros, como não poderia ser diferente nesta vida. Nesse dia, em sua reta final, ouvi à canção Onde Tenho que Ir, composta por Jorge Du Peixe e interpretada pelo grupo Nação Zumbi. Um verso de sua letra, por uma vida menos ordinária pintamos o chão, ecoou em meus pensamentos insistentemente dia após dia. Como se quisesse me dizer algo. E disse.
Semanticamente? Sempre. or.di.ná.rio adj (lat ordinariu) 1 Que está na ordem das coisas habituais; comum, habitual, useiro, vulgar. 2 Costumado, normal, periódico, regular. 3 Freqüente; igual ao maior número.
Bom, as definições do dicionário vão até o número sete, mas creio que essas já farão o basta. Coisas habituais. Hábitos, temos todos. Alguns mais, outro menos. O que varia, a meu ver, é a rotina. Há, posso garantir, quem não se baste na rotina. Há quem viva em zigue-e-zague. De tédio, certamente, não morrem.
Useiro, vulgar. Há quem seja useiro em insistir no vulgar. Insistir na manutenção da superfície seguramente isolada, dia após dia. Isolada em bando, é claro. Os useiros do vulgar jamais ousariam moverem-se sozinhos. O que é freqüente, já diz o dicionário acima, é igual ao maior número. Atrás da cortina da coletividade, bóia na tensão superficial da linha d’água – sem afundar, como nos garantem as leis da física.
É neste momento, quando da apreciação do vulgar a boiar na linha do horizonte, que escuto aos versos por uma vida menos ordinária pintamos o chão. Ali, enquanto cruzo um sinal do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Enquanto observo a ordem das coisas habituais. A vontade – quase irresistível – é de apoderar-me de um pincel afundado em tinta e lançar-me em traçados às pedras portuguesas. Pintar o chão. Quem sabe os pincéis não assinariam a carta de alforria do maior número.
Bom, as definições do dicionário vão até o número sete, mas creio que essas já farão o basta. Coisas habituais. Hábitos, temos todos. Alguns mais, outro menos. O que varia, a meu ver, é a rotina. Há, posso garantir, quem não se baste na rotina. Há quem viva em zigue-e-zague. De tédio, certamente, não morrem.
Useiro, vulgar. Há quem seja useiro em insistir no vulgar. Insistir na manutenção da superfície seguramente isolada, dia após dia. Isolada em bando, é claro. Os useiros do vulgar jamais ousariam moverem-se sozinhos. O que é freqüente, já diz o dicionário acima, é igual ao maior número. Atrás da cortina da coletividade, bóia na tensão superficial da linha d’água – sem afundar, como nos garantem as leis da física.
É neste momento, quando da apreciação do vulgar a boiar na linha do horizonte, que escuto aos versos por uma vida menos ordinária pintamos o chão. Ali, enquanto cruzo um sinal do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Enquanto observo a ordem das coisas habituais. A vontade – quase irresistível – é de apoderar-me de um pincel afundado em tinta e lançar-me em traçados às pedras portuguesas. Pintar o chão. Quem sabe os pincéis não assinariam a carta de alforria do maior número.
E você chega ao final de um dia querendo ler algo inspirador, que possa, de alguma maneira, produzir um nexo causal entre - bom, tudo. E você não encontra. Encontra o papel em branco. E coloca, você mesmo, uma moedinha na jukebox.