segunda-feira, 2 de maio de 2011

não sei

Não sei, a esta altura já me encontro perdida: é clichê iniciar explanação utilizando-se de clichê? Invejo, de certa maneira, os primeiros utilizadores de expressões que outrora não eram consideradas clichês.
Imagino, também, aquele azarado: “-Desculpe, senhor, mas o senhor é o utilizador número mil e trezentos desta expressão, doravante, a mesma foi incluída na categoria de clichê, portanto, sua frase estará sendo rebaixada.” Pobre sujeito.

Pois bem, enquanto a patrulha do clichê não chega, aproveito e trago à mesa a expressão “Ignorância é felicidade.”

É? Não sei. Ouvi por aí, muitas vezes acompanhada daquela inclinação de cabeça para o lado, de ar bonachão, denotando a típica estética da sabedoria popular. O fato é que, nesta tarde, enquanto aguardava situação favorável para atravessar a rua, não pude evitar o eco desta expressão em meus pensamentos. 

Primeiramente, creio valer esclarecer a definição de ignorância que norteia minhas reflexões. Consiste em, puramente, não saber. Desconhecer, passar ao largo.

Não sabendo, desconhecendo, passando ao largo é como passamos boa parte de nossas vidas. Há, inclusive, quem passe toda ela. Há quem opte por passar toda a vida desconhecendo. E, seguindo a proposição, sendo feliz.  Reflito aqui, no entanto, sobre o primeiro grupo. Eu e você, leitor - imagino que haja algum, escondido por aí -, corremos o risco de estarmos sendo ignorantes neste exato momento. E de já termos sido. E de que ainda iremos ser. Afinal, optamos e lutamos arduamente pelo não saber que nos mantém na superfície, nos poupando assim da necessidade de conservarmos um constante bater de pernas para não afundar. 
Desse modo, ficamos ali, parados, no colchão de água observando as nuvens moverem-se de lado para outro - como se movem!  - sendo felizes. Até que algo provoca um tsunami na superfície de nossas águas calmas. Aí é que são elas.

É caminho sem volta, dizem. Uma vez que a água das ondas volumosas sacode nosso colchão d’água e nos molha o rosto, os cabelos e enxágua toda nossa certeza, aprendemos o significado de epifania, que, provavelmente, já nos fora esclarecido por diversas vezes, mas nunca nos demos ao trabalho de memorizar. Nada como a prática, enfim. Dado o acontecido, nosso primeiro ímpeto é de virar o colchão novamente para cima e voltar à posição inicial. Seria um ótimo plano, não fosse todo o vislumbre a que somos submetidos ao abrirmos os olhos debaixo d’água. Ficamos sabendo. Não sabemos do quê, exatamente. Nem para quê. Muito menos até quando. Sabemos, apenas, que sabemos. Somos, então, expostos a um dos paradoxos mais irresistíveis do ser: enquanto somos ignorantes, a certeza nos é absoluta. Nos trazido o saber, instaura-se o terreno movediço, de medida diretamente proporcional. Ficamos ali perguntando o que nos aconteceu, portando enormes lacunas a serem preenchidas. Deliciosa tarefa, cumpre dizer. A cada buraco, um fascinante processo de aterro.

Creio ser, de fato, uma questão de opção. Manter-se seguro na superfície habitando colchão d’água ou prender a respiração e descer. A autora que voz fala já fez a dela. 

2 comentários:

  1. O ruim é quando a gente sente saudades da superfície ou, quando há tanta coisa pra explorar debaixo d'água, que a gente mal sabe por onde começar (rs). De qualquer forma, parabéns pelo texto e pelo blog.

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  2. a gente nunca sabe nada. é a única certeza. rs.
    obrigada!

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