Em seu guarda-roupas, cores e mais cores. No entanto, não costumava vestir-se desajeitadamente. Era hábil ao combiná-las de modo que parecesse alegre visão.
Rito habitual ao deitar-se. Dentes, cremes, pés e mãos. Pijama. Cansaço sempre, quase sempre. Já ia se esquecendo: despertador ajustado.
Alvorada, no asfalto, que beleza. Sempre era, ainda mais neste mês de outono. Cores e mais cores no céu nascente, como gostava. Deleite.
Olhos abertos. Deveria estar sonhando ainda, pensou. Daqueles sonhos que a gente sente que está mexendo e não está, que a gente sente que está caindo e não está, ou coisa que o valha. Devia ser. Vamos, acorda. O despertador toca, incessante. Negro. Vamos, abra os olhos. Gozado, certeza de que estavam abertos. Estão. Negro, penumbra. Cor, nenhuma cor. Imagem, movimento, ausentes. Negro.
- Olha, você se acostuma. Os outros sentidos desenvolvem-se para compensar, proporcionando a você uma vida muito próxima do normal.
Vida normal. Aquilo que o médico chamava de vida normal, de lá em diante, seria viver do negro. E tato, audição e olfato. O resto era memória, vida vivida e dividida, nomes de cor. Só possuía um medo. De esquecer. Possuindo a lembrança, tinha quase tudo, pensava. Lembrar-se é das coisas mais importantes na vida. Na anterior e nesta.
Reuniu família, amigos e médico em conferência. Não era motivo para pena, declarava. Providências, tudo se resumia a isso. Tomar providências para sua adaptação. Vive-se como se pode.
Via-se agora entretida com a logística das novas descobertas. Novas sensações, novos procedimentos, maneiras antes nunca imaginadas à execução de hábitos corriqueiros do cotidiano. Envolvida que estava com essas tarefas, não dispunha de muito tempo para o pesar. Só um pouco.
Cores. Sabia o nome de todas. Poderia listar graduações do magenta ao verde musgo. Sentia saudades. Imaginava, às vezes, por toda uma tarde, uma a uma. Lembrava de suas peças de roupa, suas paredes, seus móbiles. Diziam-lhe ser coisa de criança, essa de enfeitar cantos do quarto com móbiles coloridos. Que fosse, gostava assim. E como se balançavam ao vento, num balé inebriante. Sentia saudades.
Sorriso. Conhecia, sem necessidade de permanecer olhar, cada um. Seu preferido era aquele em que os olhos sorriam junto. Era vivo. Costumava ser emitido quando de sua chegada. Ele, ao vê-la, sorria com os olhos. Sentia saudades. Ontem mesmo deteve-se horas nessa lembrança. Sua visita de outro dia inundava sua memória. Ele sentia saudades, também. Do olhar dela encontrando seu sorriso. O olhar dela não encontrava mais, só procurava. Detia-se na lembrança, ele também. Sentiam-se felizes por tê-la. A lembrança.
Alvoradas. Vez ou outra lhe narravam. Rosa púrpura rajado de laranja. Azul, muito azul, salpicos de nuvens brancas. Lembrava. Sentia-se feliz por lembrar. Havia, afinal, quem não tivesse essa lembrança. Isso, sim, devia de ser tristeza.
Aos amigos, cabia a tão importante combinação de roupas coloridas, de estampas florais com estampas de pequenos pássaros bicudos. Bons e íntimos amigos que eram, profundos conhecedores de suas preferências. Faziam questão de reproduzi-las fielmente. Lembrava das risadas ao fazerem graça com a aparência engraçada de um ou outro. Chapéu engraçado de um, estampa de gosto duvidoso de outro, provocavam risadas por todo um dia ou toda uma noite. Eram noites alegres, aquelas. Sentia saudades. Lembrava. Sentiu-se feliz por ainda dar risadas noite adentro com seus amigos de sempre, atribuindo uma imagem armazenada a cada voz que lhe chega aos aos ouvidos. Considerou-se moça de sorte. Há moças que não têm imagens armazenadas de seus amigos. Há moças que não têm amigos. Que sorte a dela.
Tempo passou-se, quando viu-se, então, naquela nova e plena vida. Aprendera que nada lhe faltava, que tudo apenas mudara. Quando visitada pela saudade, exercitava a memória e tudo ficava completo. Foi neste momento, então que ouviu um alarme de despertador. Que seria aquilo? Por reflexo, abre os olhos. Vislumbra o despertador apitando e piscando, seus móbiles sendo sacudidos pelo vento que adentra através da janela que emoldura o céu de alvorada de outono, rosa púrpura com feixes laranjas, refletindo em suas paredes do quarto pintadas de lilás. Tocou seu travesseiro e sentou-se na cama. Derramou uma lágrima.
Sonhara.
Escolheu suas roupas coloridas preferidas e partiu.
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