Aquele branco latejava, aquela folha tentadora. Devia, queria, quase precisava escrever. Mas eram tantas, as palavras em ciranda de roda, zombando da necessidade, de lado para outro. Queria lhe dizer, mas naquele pé, sairia quiçá nem bilhete.
Respirou, meditou, fez café. Sentou, pé- sobre- coxa- sob- pé. Começou:
“Essa é a últim...” Parou.
Não, sabia que não seria. Sabia que aquela não seria a última, que aquelas não seriam as últimas palavras. Estava para nascer o dia, concluía, que não teria mais palavras para lhe dar.
“Queria que essa fosse a última...” Prosseguiu. Querer denota intenção, vontade. Já era algo.
“Queria que essa fosse a última carta, talvez dizer...” Não. Não à fraqueza, não a esta altura do campeonato. Queria é para quem não pode, deixou de querer. Não tinha, pensou, a menor intenção de deixar nada na vida, muito menos de querer. O que quer que fosse.
Apagou tudo, recomeçou.
“Quero e digo, não pela última vez. A maior parte das últimas vezes são desperdício das outras. Você sabe, a gente vive. Então, não pela última vez, te digo. Quero fazer ser esse dizer o primeiro. Ser sempre o primeiro quando eu disser. Sempre nascendo.”
Descansou os dedos. Às vezes tinha de exercitar a avaliação do sentido. Com freqüência tomava-se não fazendo sentido algum, aparvalhando seu interlocutor. Refletiu. Concluiu que o destinatário haveria de compreender. Por alguma razão que desconhecia, tinha a permanente sensação de que aquele destinatário sempre compreendia seus pensamentos. Freqüentemente, com olhos. Sua forma predileta de compreensão.
Seguindo, “Tem como nascer ao contrário? É o que eu acho. Eu acho que a gente nasce ao contrário, eu e você. Um para o outro. A cada tempo, nós somos mais novos, eu e você. Eu e você. Porque eu, enquanto eu, a cada tempo envelheço. Porque você, enquanto você, a cada tempo envelhece. Já eu e você, a cada tempo, somos mais novos um para o outro. Entende?”
Que confusão. Quem compreenderia essa balbúrdia sem o menor nexo causal?- ponderou.
Seu interlocutor. Seu interlocutor entenderia. Tinha certeza. Lembrou de certas coisas, como aquela tarde – quanto tempo fazia – em que falaram de tudo, ali, naquela fila de banco, como lhe agradava o prosaico. Pensava que, tendo o cotidiano, têm-se tudo. Daria seqüencia, pois, ao escrito:
“Acho que não me faço entender a outros, se não a você. Você entende o que é a gente nascer sempre, o tempo todo. Eu te vejo nascer o tempo todo, nos seus olhos -de- primeira-vez. Você se inaugura a toda hora, você se admira. Eu, você e crianças temos a capacidade de nos admirar com o vislumbre do prosaico, ali ao nosso lado. Alguém mais tem? Devem ter. Espero que tenham, não sabem o que estariam perdendo.”
Não era esse o rumo desejado – se é que já houve um – para sua carta. Desejou ser daqueles que não precisam dizer, que vivem em suas cascas de nozes, agindo conforme o mestre manda. Nunca fora de agir conforme mestres, conforme quem quer fosse. Tarefa que requeria trabalho de mouro, essa de não seguir quem quer fosse. Desejou não precisar dizer, mas precisava.
Café. Pé- sobre- coxa- sob- pé. Seguiu adiante com os grupamentos de letras.
“Quero e digo, não pela última vez. A maior parte das últimas vezes são desperdício das outras. Você sabe, a gente vive. Então, não pela última vez, te digo. Quero fazer ser esse dizer o primeiro. Ser sempre o primeiro quando eu disser. Sempre nascendo. Tem como nascer ao contrário? É o que eu acho. Eu acho que a gente nasce ao contrário, eu e você. Um para o outro. Entende? A cada tempo, nós somos mais novos, eu e você. Eu e você. Porque eu, enquanto eu, a cada tempo envelheço. Porque você, enquanto você, a cada tempo envelhece. Já eu e você, a cada tempo, somos mais novos um para o outro. Acho que não me faço entender a outros, se não a você. Você entende o que é a gente nascer sempre, o tempo todo. Eu te vejo nascer o tempo todo, nos seus olhos -de- primeira-vez. Você se inaugura a toda hora, você se admira. Eu, você e crianças temos a capacidade de nos admirar com o vislumbre do prosaico, ali ao nosso lado. Alguém mais tem? Devem ter. Espero que tenham, não sabem o que estariam perdendo. Olha, você sabe, eu acho que é isso. Eu acho que, nesse meio todo, tem eu e você. Que sorte a nossa. Não são as últimas, essas. Há mais palavras, não precisamos gastar todas agora. Fique com essas, são minhas para você.
O meu carinho de sempre.”
Leu. Releu. Lembrou, voltou. Não mudaria, não seria verdadeiro. Deixaria assim, palavras com o tempo se perdem, mesmo.
Dobrou, colocou no envelope.
Endereçou. Com o carinho de sempre.
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