domingo, 29 de maio de 2011

colóquio

Parte I

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- Não sei. Quero dizer, sei, eu acho. Eu gosto de caqui. A fruta, sabe. Mas não quando está molengo.

- É isso? É isso que você tem a dizer?

- Você me perguntou o que me faria feliz, eu respondi. Caqui. Sinto prazer em saborear um bom caqui.

- Sabe, não dá. Aliás, Julieta, nunca deu. Você não sabe conversar. Sabe o que eu acho? Que você se considera muito melhor do que todos a seu redor. Inclusive eu. Deus te livre de participar de debates banais. Inclusive esse. Então dá nisso. Não leva a sério o que a gente fala.

- O que você quer que eu diga? O que você sempre quis que eu dissesse, então? Que você me faz, ou deveria ter-me feito feliz? Você quer que eu te culpe, Fernando? Às vezes eu acho que é isso.  

- Seria melhor do que essa sua indiferença cortante.

- Você sabe que não vejo sentido na agonia. Na agonia dos que amaram e agonizam em nome disso. Não vejo sentido na agonia dos que amam e agonizam em nome disso. Não vejo sentido, Fernando. Não sou para agonizar.

- Olha, Julieta, eu não sei para o quê você é.

- Nem eu. 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

a moça que via negro

Em seu guarda-roupas, cores e mais cores. No entanto, não costumava vestir-se desajeitadamente. Era hábil ao combiná-las de modo que parecesse alegre visão. 
Rito habitual ao deitar-se. Dentes, cremes, pés e mãos. Pijama. Cansaço sempre, quase sempre. Já ia se esquecendo: despertador ajustado. 

Alvorada, no asfalto, que beleza. Sempre era, ainda mais neste mês de outono. Cores e mais cores no céu nascente, como gostava. Deleite. 

Olhos abertos. Deveria estar sonhando ainda, pensou. Daqueles sonhos que a gente sente que está mexendo e não está, que a gente sente que está caindo e não está, ou coisa que o valha. Devia ser. Vamos, acorda. O despertador toca, incessante. Negro. Vamos, abra os olhos. Gozado, certeza de que estavam abertos. Estão. Negro, penumbra. Cor, nenhuma cor. Imagem, movimento, ausentes. Negro. 

- Olha, você se acostuma. Os outros sentidos desenvolvem-se para compensar, proporcionando a você uma vida muito próxima do normal.

Vida normal. Aquilo que o médico chamava de vida normal, de lá em diante, seria viver do negro. E tato, audição e olfato. O resto era memória, vida vivida e dividida, nomes de cor. Só possuía um medo. De esquecer. Possuindo a lembrança, tinha quase tudo, pensava. Lembrar-se é das coisas mais importantes na vida. Na anterior e nesta. 

Reuniu família, amigos e médico em conferência. Não era motivo para pena, declarava. Providências, tudo se resumia a isso. Tomar providências para sua adaptação. Vive-se como se pode. 

Via-se agora entretida com a logística das novas descobertas. Novas sensações, novos procedimentos, maneiras antes nunca imaginadas à execução de hábitos corriqueiros do cotidiano. Envolvida que estava com essas tarefas, não dispunha de muito tempo para o pesar. Só um pouco. 

Cores. Sabia o nome de todas. Poderia listar graduações do magenta ao verde musgo. Sentia saudades. Imaginava, às vezes, por toda uma tarde, uma a uma. Lembrava de suas peças de roupa, suas paredes, seus móbiles. Diziam-lhe ser coisa de criança, essa de enfeitar cantos do quarto com móbiles coloridos. Que fosse, gostava assim. E como se balançavam ao vento, num balé inebriante. Sentia saudades. 

Sorriso. Conhecia, sem necessidade de permanecer olhar, cada um. Seu preferido era aquele em que os olhos sorriam junto. Era vivo. Costumava ser emitido quando de sua chegada. Ele, ao vê-la, sorria com os olhos. Sentia saudades. Ontem mesmo deteve-se horas nessa lembrança. Sua visita de outro dia inundava sua memória. Ele sentia saudades, também. Do olhar dela encontrando seu sorriso. O olhar dela não encontrava mais, só procurava. Detia-se na lembrança, ele também. Sentiam-se felizes por tê-la. A lembrança. 

Alvoradas. Vez ou outra lhe narravam. Rosa púrpura rajado de laranja. Azul, muito azul, salpicos de nuvens brancas. Lembrava. Sentia-se feliz por lembrar. Havia, afinal, quem não tivesse essa lembrança. Isso, sim, devia de ser tristeza. 

Aos amigos, cabia a tão importante combinação de roupas coloridas, de estampas florais com estampas de pequenos pássaros bicudos. Bons e íntimos amigos que eram, profundos conhecedores de suas preferências. Faziam questão de reproduzi-las fielmente. Lembrava das risadas ao fazerem graça com a aparência engraçada de um ou outro. Chapéu engraçado de um, estampa de gosto duvidoso de outro, provocavam risadas por todo um dia ou toda uma noite. Eram noites alegres, aquelas. Sentia saudades. Lembrava. Sentiu-se feliz por ainda dar risadas  noite adentro com seus amigos de sempre, atribuindo uma imagem armazenada a cada voz que lhe chega aos aos ouvidos. Considerou-se moça de sorte. Há moças que não têm imagens armazenadas de seus amigos. Há moças que não têm amigos. Que sorte a dela. 

Tempo passou-se, quando viu-se, então, naquela nova e plena vida. Aprendera que nada lhe faltava, que tudo apenas mudara.  Quando visitada pela saudade, exercitava a memória e tudo ficava completo. Foi neste momento, então que ouviu um alarme de despertador. Que seria aquilo? Por reflexo, abre os olhos. Vislumbra o despertador apitando e piscando, seus móbiles sendo sacudidos pelo vento que adentra através da janela que emoldura o céu de alvorada de outono, rosa púrpura com feixes laranjas, refletindo em suas paredes do quarto pintadas de lilás. Tocou seu travesseiro e sentou-se na cama. Derramou uma lágrima. 

Sonhara.

Escolheu suas roupas coloridas preferidas e partiu. 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

interessar possa

Aquele branco latejava, aquela folha tentadora. Devia, queria, quase precisava escrever. Mas eram tantas, as palavras em ciranda de roda, zombando da necessidade, de lado para outro. Queria lhe dizer, mas naquele pé, sairia quiçá nem bilhete. 

Respirou, meditou, fez café.  Sentou, pé- sobre- coxa- sob- pé. Começou:

“Essa é a últim...” Parou.

Não, sabia que não seria. Sabia que aquela não seria a última, que aquelas não seriam as últimas palavras. Estava para nascer o dia, concluía, que não teria mais palavras para lhe dar.

“Queria que essa fosse a última...” Prosseguiu. Querer denota intenção, vontade. Já era algo.

“Queria que essa fosse a última carta, talvez dizer...” Não. Não à fraqueza, não a esta altura do campeonato. Queria é para quem não pode, deixou de querer. Não tinha, pensou, a menor intenção de deixar nada na vida, muito menos de querer. O que quer que fosse.

Apagou tudo, recomeçou.  

“Quero e digo, não pela última vez. A maior parte das últimas vezes são desperdício das outras. Você sabe, a gente vive. Então, não pela última vez, te digo. Quero fazer ser esse dizer o primeiro. Ser sempre o primeiro quando eu disser. Sempre nascendo.”

Descansou os dedos. Às vezes tinha de exercitar a avaliação do sentido. Com freqüência tomava-se não fazendo sentido algum, aparvalhando seu interlocutor. Refletiu. Concluiu que o destinatário haveria de compreender. Por alguma razão que desconhecia, tinha a permanente sensação de que aquele destinatário sempre compreendia seus pensamentos. Freqüentemente, com olhos. Sua forma predileta de compreensão.

Seguindo, “Tem como nascer ao contrário? É o que eu acho. Eu acho que a gente nasce ao contrário, eu e você. Um para o outro. A cada tempo, nós somos mais novos, eu e você. Eu e você. Porque eu, enquanto eu, a cada tempo envelheço. Porque você, enquanto você, a cada tempo envelhece. Já eu e você, a cada tempo, somos mais novos um para o outro. Entende?”

Que confusão. Quem compreenderia essa balbúrdia sem o menor nexo causal?- ponderou.
Seu interlocutor. Seu interlocutor entenderia. Tinha certeza. Lembrou de certas coisas, como aquela tarde – quanto tempo fazia – em que falaram de tudo, ali, naquela fila de banco, como lhe agradava o prosaico. Pensava que, tendo o cotidiano, têm-se tudo. Daria seqüencia, pois, ao escrito:

“Acho que não me faço entender a outros, se não a você. Você entende o que é a gente nascer sempre, o tempo todo. Eu te vejo nascer o tempo todo, nos seus olhos -de- primeira-vez. Você se inaugura a toda hora, você se admira. Eu, você e crianças temos a capacidade de nos admirar com o vislumbre do prosaico, ali ao nosso lado. Alguém mais tem? Devem ter. Espero que tenham, não sabem o que estariam perdendo.”


Não era esse o rumo desejado – se é que já houve um – para sua carta. Desejou ser daqueles que não precisam dizer, que vivem em suas cascas de nozes, agindo conforme o mestre manda. Nunca fora de agir conforme mestres, conforme quem quer fosse. Tarefa que requeria trabalho de mouro, essa de não seguir quem quer fosse. Desejou não precisar dizer, mas precisava.

Café. Pé- sobre- coxa- sob- pé. Seguiu adiante com os grupamentos de letras.

“Quero e digo, não pela última vez. A maior parte das últimas vezes são desperdício das outras. Você sabe, a gente vive. Então, não pela última vez, te digo. Quero fazer ser esse dizer o primeiro. Ser sempre o primeiro quando eu disser. Sempre nascendo. Tem como nascer ao contrário? É o que eu acho. Eu acho que a gente nasce ao contrário, eu e você. Um para o outro. Entende? A cada tempo, nós somos mais novos, eu e você. Eu e você. Porque eu, enquanto eu, a cada tempo envelheço. Porque você, enquanto você, a cada tempo envelhece. Já eu e você, a cada tempo, somos mais novos um para o outro. Acho que não me faço entender a outros, se não a você. Você entende o que é a gente nascer sempre, o tempo todo. Eu te vejo nascer o tempo todo, nos seus olhos -de- primeira-vez. Você se inaugura a toda hora, você se admira. Eu, você e crianças temos a capacidade de nos admirar com o vislumbre do prosaico, ali ao nosso lado. Alguém mais tem? Devem ter. Espero que tenham, não sabem o que estariam perdendo. Olha, você sabe, eu acho que é isso. Eu acho que, nesse meio todo, tem eu e você. Que sorte a nossa. Não são as últimas, essas. Há mais palavras, não precisamos gastar todas agora. Fique com essas, são minhas para você.

O meu carinho de sempre.”

Leu. Releu. Lembrou, voltou. Não mudaria, não seria verdadeiro. Deixaria assim, palavras com o tempo se perdem, mesmo.

Dobrou, colocou no envelope.


Endereçou. Com o carinho de sempre. 

segunda-feira, 2 de maio de 2011

não sei

Não sei, a esta altura já me encontro perdida: é clichê iniciar explanação utilizando-se de clichê? Invejo, de certa maneira, os primeiros utilizadores de expressões que outrora não eram consideradas clichês.
Imagino, também, aquele azarado: “-Desculpe, senhor, mas o senhor é o utilizador número mil e trezentos desta expressão, doravante, a mesma foi incluída na categoria de clichê, portanto, sua frase estará sendo rebaixada.” Pobre sujeito.

Pois bem, enquanto a patrulha do clichê não chega, aproveito e trago à mesa a expressão “Ignorância é felicidade.”

É? Não sei. Ouvi por aí, muitas vezes acompanhada daquela inclinação de cabeça para o lado, de ar bonachão, denotando a típica estética da sabedoria popular. O fato é que, nesta tarde, enquanto aguardava situação favorável para atravessar a rua, não pude evitar o eco desta expressão em meus pensamentos. 

Primeiramente, creio valer esclarecer a definição de ignorância que norteia minhas reflexões. Consiste em, puramente, não saber. Desconhecer, passar ao largo.

Não sabendo, desconhecendo, passando ao largo é como passamos boa parte de nossas vidas. Há, inclusive, quem passe toda ela. Há quem opte por passar toda a vida desconhecendo. E, seguindo a proposição, sendo feliz.  Reflito aqui, no entanto, sobre o primeiro grupo. Eu e você, leitor - imagino que haja algum, escondido por aí -, corremos o risco de estarmos sendo ignorantes neste exato momento. E de já termos sido. E de que ainda iremos ser. Afinal, optamos e lutamos arduamente pelo não saber que nos mantém na superfície, nos poupando assim da necessidade de conservarmos um constante bater de pernas para não afundar. 
Desse modo, ficamos ali, parados, no colchão de água observando as nuvens moverem-se de lado para outro - como se movem!  - sendo felizes. Até que algo provoca um tsunami na superfície de nossas águas calmas. Aí é que são elas.

É caminho sem volta, dizem. Uma vez que a água das ondas volumosas sacode nosso colchão d’água e nos molha o rosto, os cabelos e enxágua toda nossa certeza, aprendemos o significado de epifania, que, provavelmente, já nos fora esclarecido por diversas vezes, mas nunca nos demos ao trabalho de memorizar. Nada como a prática, enfim. Dado o acontecido, nosso primeiro ímpeto é de virar o colchão novamente para cima e voltar à posição inicial. Seria um ótimo plano, não fosse todo o vislumbre a que somos submetidos ao abrirmos os olhos debaixo d’água. Ficamos sabendo. Não sabemos do quê, exatamente. Nem para quê. Muito menos até quando. Sabemos, apenas, que sabemos. Somos, então, expostos a um dos paradoxos mais irresistíveis do ser: enquanto somos ignorantes, a certeza nos é absoluta. Nos trazido o saber, instaura-se o terreno movediço, de medida diretamente proporcional. Ficamos ali perguntando o que nos aconteceu, portando enormes lacunas a serem preenchidas. Deliciosa tarefa, cumpre dizer. A cada buraco, um fascinante processo de aterro.

Creio ser, de fato, uma questão de opção. Manter-se seguro na superfície habitando colchão d’água ou prender a respiração e descer. A autora que voz fala já fez a dela.