domingo, 10 de abril de 2011

refazendo

Ah, o efêmero. Acho irônico passar a gostar do efêmero. Mudar, e assim passar a gostar do que muda, do que possui validade limitada e incerta. Alcanço, aqui na minha estante, o míni-dicionário Houassi – não, não me rendi às edições virtuais. Curiosamente, quiçá assustadoramente, abro na página exata. Afinal, aprendo, novamente, o já aprendido. “Efêmero adj. Que dura pouco, oposto de duradouro (...)”.

Dia desses, um amigo reclamava não agüentar mais a transitoriedade de tudo que era e fazia a vida. Queria enfim um chão duro e seguro, de preferência daqueles de cimento raspado, aonde postar seus pés. Há não muito, poderiam ser estas minhas palavras, esta a minha angústia. Gozado, não eram. Ele falava, e aquilo parecia não mais pertinente às minhas próprias palavras e angústias.

Foi começando devagar, como se nem estivesse lá, qual não fosse chegar. Mas estava. Era certa minha apreciação incondicional pela obra de Marcelo Rubens Paiva. Cada frase, período e oração eram considerados sem sombra de crítica. Era algo acima dela, aquele gostar natural e sem razão como quando travamos aquela amizade no primeiro ano do primeiro grau colegial só porque olhamos para o outro e ali achamos que seríamos bem vindos. Foi então que, pouco a pouco, vi-me pensando e repensando cada frase, período e oração que Marcelo escrevia, e, para minha maior surpresa, concordando e discordando aqui e ali. E foi assim. Assim, tive minha primeira pista. O efêmero é, e não está.

Daí, descambou para os fatos menores e banais. Parecia um caminho sem volta. Não podia ser que até minhas madeixas participariam desta epifania. E participaram.
Se há algo que por grande parte de meu viver foi sólido e imutável, era minha incessante romaria em busca de xampus que consolassem meu estado capilar. Cabelos secos, tal qual tivessem sido assolados por um incêndio ou algo parecido.  Foi quando, sem aviso prévio, acordei, belo dia, sob o conhecimento de que minhas melenas eram, agora, tendentes à oleosidade. Mudaram, assim, sozinhas, porque bem quiseram. Nem formulário foi a mim enviado. Quanta insubordinação.

Nesse passo, já começava a deleitar-me com o que se delineava. Tomei como pistas esta pequena e singela lista de banalidades e miudezas. Encontrava-me, talvez de forma estreante, membro do time daqueles que faziam gosto do chão tremido, que mudava, acabava e renascia do outro lado, em outra cor – time por mim secretamente invejado em diversas ocasiões. Sempre me admirou a capacidade de adaptação deste pessoal às situações diversas. Tive vontade, então, de ser capaz de transmitir ao angustiado amigo o quão inútil era rebelar-se fronte ao efêmero. O efêmero é, e não está. De ser, e de não estar. O quanto antes se cumprimenta a realidade em aperto de mãos, o melhor.  

Em tempo: mantenho meu habitual apreço pela obra de Marcelo Rubens Paiva até o presente momento. 

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