terça-feira, 5 de abril de 2011

educação

Nunca tive filhos. Desconheço a sensação, o estado de espírito, encargos e alegrias. Já brinquei de nomes em coloridos momentos. Se eu tiver uma menina, se eu tiver um menino. E só. Pretendo ter, tê-los, lançar mais uma alma nesse mundo. Uma adorável alma. Creio não me encontrar, dessa maneira, na posição de avaliar qualquer indivíduo enquanto responsável por outro indivíduo. Na maioria das vezes. Como com quase tudo na vida, há esse adendo.
Devo denotar, ainda, que salas de espera são terrenos naturalmente férteis se você estiver em busca de uma boa dose de observação. Há algo de especial, principalmente, nas esperas de dentistas. Quase uma mística.

Estava cheia. A narradora que vos fala equilibrava sua bolsa no colo enquanto tentava manter aberto o livro que lia. Adentra uma mãe e seu filho. Havia exatamente dois lugares vazios, do outro lado da sala. A mãe acomoda-se e recomenda que o menino sente-se na cadeira a seu lado. A criança, por sua vez, diz preferir sentar-se no chão. E o faz. Simpatizante da causa que sou, sussurro a ele em conluio: “-Também prefiro o chão. É mais geladinho.” Ganho um sorriso. Sempre revitalizante.

Em seu uniforme de colégio, pede à mãe que lhe entregue a lição de casa que estava em sua mochila, pois a faria ali mesmo. Chamou minha atenção, uma criança que pede pelo dever de casa! Ao ter seu pedido atendido, lê, para, pensa e, por fim, pede à mãe que lhe explique o que deveria ser feito, não havia entendido. Ao que a mãe, a provedora dos primeiros conhecimentos de sua vida, retruca: “- Menino, não vou ler nada agora, não me perturbe.” Entrega-lhe, então, seu aparelho celular e completa: “-Jogue seu joguinho e sossegue.”

Seria difícil, em palavras, exprimir meu estarrecimento. Como disse, não tenho filhos. Não tive, ainda, a oportunidade de lançar uma bela alma ao mundo. Não sou munida da propriedade deste conhecimento. Mas creio poder afirmar que há algo de muito errado na cena por mim presenciada. Fala-se, quase que exaustivamente, e com toda a razão, no caótico estado do sistema educacional no país. Fala-se que o jovem deste século passa mais tempo defronte a vídeo-games do que a livros abertos. Fala-se, ainda, que o pensamento é uma batalha perdida e criaremos em nossos lares indivíduos com capacidade de expressarem-se em, no máximo, 137 caracteres.

Agora, quando ouço estas afirmações, remeto-me à sala de espera do dentista. Indago-me, criamos ou somos criados – por quem ou pelo o quê?, ainda há tempo?

O indivíduo é criado por toda sua vida. Estímulos são necessários numa constância, tal qual a um bebê. Se não, pode acontecer de nos encerrarmos em paredes de concreto. Delas, não se vê muito além.  

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