Acho que seria dispensável confessar aqui e agora minha paixão pela palavra. Fosse o contrário, eu poderia considerar-me uma exímia masoquista. Acontece que elas exercem um poder quase que déspota sobre minha pessoa. São-me irresistíveis.
Num destes domingos de outono, encerrávamos o dia no bar, ao som de bom choro. Talvez pela trilha sonora, talvez pela falta do que pensar, pusemo-nos a enumerar canções de Noel Rosa. Cada um contribuía com uma. Alguém então lança à mesa “e aí então/dar-te eu irei /um beijo puro na catedral do amor...”, os famosos versos da canção “Jura”. Essas palavras fizeram recair sobre mim o tal poder despótico. Dar-te eu irei, repeti em voz alta. Perguntei-me – e aos presentes na ocasião, então, para onde teria se mudado, de trouxinhas nas costas, toda essa poesia e doçura tão em voga à época daquela composição. Remeti-me àqueles tempos, àqueles sobrados do centro da cidade do Rio de Janeiro pelos quais transito todos os dias - e, todos os dias, meu coração se parte à visão de seus estados de conservação - e visualizei o rapaz prometendo à moça dar a ela o tal beijo puro. Dar-te eu irei, ele disse. Teria ela aceitado ou seria roubado?
Ah, se ela soubesse o privilégio de ouvir tais palavras, não negaria o tal beijo na catedral do amor.
Foi quando, ao desaviso, vi a luz no fim do túnel. Ouvia um disco novo, do músico Marcelo Jeneci, quando me deparei com uma canção de título “Dar-te-ei”. Ao cantarolar os versos “dar-te-ei finalmente os beijos meus...”, pude desfrutar da poesia e bela doçura comuns aos versos de Noel, àqueles tempos, àqueles sobrados. Não estaria tudo perdido, afinal. O privilégio de ouvir belas palavras não seria restrito às mocinhas de outrora. Em algum canto, quando menos se espera, pode-se encontrá-las acampando com suas trouxinhas. Um alívio para as mocinhas de hoje.
E os tais beijos, será que foram dados? Afinal, eles mereceram.
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