sábado, 23 de abril de 2011

com hífen

Acho que seria dispensável confessar aqui e agora minha paixão pela palavra. Fosse o contrário, eu poderia considerar-me uma exímia masoquista. Acontece que elas exercem um poder quase que déspota sobre minha pessoa. São-me irresistíveis.

Num destes domingos de outono, encerrávamos o dia no bar, ao som de bom choro. Talvez pela trilha sonora, talvez pela falta do que pensar, pusemo-nos a enumerar canções de Noel Rosa. Cada um contribuía com uma. Alguém então lança à mesa “e aí então/dar-te eu irei /um beijo puro na catedral do amor...”, os famosos versos da canção “Jura”. Essas palavras fizeram recair sobre mim o tal poder despótico. Dar-te eu irei, repeti em voz alta. Perguntei-me – e aos presentes na ocasião, então, para onde teria se mudado, de trouxinhas nas costas, toda essa poesia e doçura tão em voga à época daquela composição.  Remeti-me àqueles tempos, àqueles sobrados do centro da cidade do Rio de Janeiro pelos quais transito todos os dias - e, todos os dias, meu coração se parte à visão de seus estados de conservação - e visualizei o rapaz prometendo à moça dar a ela o tal beijo puro. Dar-te eu irei, ele disse. Teria ela aceitado ou seria roubado?
Ah, se ela soubesse o privilégio de ouvir tais palavras, não negaria o tal beijo na catedral do amor.

Foi quando, ao desaviso, vi a luz no fim do túnel. Ouvia um disco novo, do músico Marcelo Jeneci, quando me deparei com uma canção de título “Dar-te-ei”. Ao cantarolar os versos “dar-te-ei finalmente os beijos meus...”, pude desfrutar da poesia e bela doçura comuns aos versos de Noel, àqueles tempos, àqueles sobrados. Não estaria tudo perdido, afinal. O privilégio de ouvir belas palavras não seria restrito às mocinhas de outrora. Em algum canto, quando menos se espera, pode-se encontrá-las acampando com suas trouxinhas. Um alívio para as mocinhas de hoje.

E os tais beijos, será que foram dados? Afinal, eles mereceram. 

domingo, 10 de abril de 2011

refazendo

Ah, o efêmero. Acho irônico passar a gostar do efêmero. Mudar, e assim passar a gostar do que muda, do que possui validade limitada e incerta. Alcanço, aqui na minha estante, o míni-dicionário Houassi – não, não me rendi às edições virtuais. Curiosamente, quiçá assustadoramente, abro na página exata. Afinal, aprendo, novamente, o já aprendido. “Efêmero adj. Que dura pouco, oposto de duradouro (...)”.

Dia desses, um amigo reclamava não agüentar mais a transitoriedade de tudo que era e fazia a vida. Queria enfim um chão duro e seguro, de preferência daqueles de cimento raspado, aonde postar seus pés. Há não muito, poderiam ser estas minhas palavras, esta a minha angústia. Gozado, não eram. Ele falava, e aquilo parecia não mais pertinente às minhas próprias palavras e angústias.

Foi começando devagar, como se nem estivesse lá, qual não fosse chegar. Mas estava. Era certa minha apreciação incondicional pela obra de Marcelo Rubens Paiva. Cada frase, período e oração eram considerados sem sombra de crítica. Era algo acima dela, aquele gostar natural e sem razão como quando travamos aquela amizade no primeiro ano do primeiro grau colegial só porque olhamos para o outro e ali achamos que seríamos bem vindos. Foi então que, pouco a pouco, vi-me pensando e repensando cada frase, período e oração que Marcelo escrevia, e, para minha maior surpresa, concordando e discordando aqui e ali. E foi assim. Assim, tive minha primeira pista. O efêmero é, e não está.

Daí, descambou para os fatos menores e banais. Parecia um caminho sem volta. Não podia ser que até minhas madeixas participariam desta epifania. E participaram.
Se há algo que por grande parte de meu viver foi sólido e imutável, era minha incessante romaria em busca de xampus que consolassem meu estado capilar. Cabelos secos, tal qual tivessem sido assolados por um incêndio ou algo parecido.  Foi quando, sem aviso prévio, acordei, belo dia, sob o conhecimento de que minhas melenas eram, agora, tendentes à oleosidade. Mudaram, assim, sozinhas, porque bem quiseram. Nem formulário foi a mim enviado. Quanta insubordinação.

Nesse passo, já começava a deleitar-me com o que se delineava. Tomei como pistas esta pequena e singela lista de banalidades e miudezas. Encontrava-me, talvez de forma estreante, membro do time daqueles que faziam gosto do chão tremido, que mudava, acabava e renascia do outro lado, em outra cor – time por mim secretamente invejado em diversas ocasiões. Sempre me admirou a capacidade de adaptação deste pessoal às situações diversas. Tive vontade, então, de ser capaz de transmitir ao angustiado amigo o quão inútil era rebelar-se fronte ao efêmero. O efêmero é, e não está. De ser, e de não estar. O quanto antes se cumprimenta a realidade em aperto de mãos, o melhor.  

Em tempo: mantenho meu habitual apreço pela obra de Marcelo Rubens Paiva até o presente momento. 

terça-feira, 5 de abril de 2011

educação

Nunca tive filhos. Desconheço a sensação, o estado de espírito, encargos e alegrias. Já brinquei de nomes em coloridos momentos. Se eu tiver uma menina, se eu tiver um menino. E só. Pretendo ter, tê-los, lançar mais uma alma nesse mundo. Uma adorável alma. Creio não me encontrar, dessa maneira, na posição de avaliar qualquer indivíduo enquanto responsável por outro indivíduo. Na maioria das vezes. Como com quase tudo na vida, há esse adendo.
Devo denotar, ainda, que salas de espera são terrenos naturalmente férteis se você estiver em busca de uma boa dose de observação. Há algo de especial, principalmente, nas esperas de dentistas. Quase uma mística.

Estava cheia. A narradora que vos fala equilibrava sua bolsa no colo enquanto tentava manter aberto o livro que lia. Adentra uma mãe e seu filho. Havia exatamente dois lugares vazios, do outro lado da sala. A mãe acomoda-se e recomenda que o menino sente-se na cadeira a seu lado. A criança, por sua vez, diz preferir sentar-se no chão. E o faz. Simpatizante da causa que sou, sussurro a ele em conluio: “-Também prefiro o chão. É mais geladinho.” Ganho um sorriso. Sempre revitalizante.

Em seu uniforme de colégio, pede à mãe que lhe entregue a lição de casa que estava em sua mochila, pois a faria ali mesmo. Chamou minha atenção, uma criança que pede pelo dever de casa! Ao ter seu pedido atendido, lê, para, pensa e, por fim, pede à mãe que lhe explique o que deveria ser feito, não havia entendido. Ao que a mãe, a provedora dos primeiros conhecimentos de sua vida, retruca: “- Menino, não vou ler nada agora, não me perturbe.” Entrega-lhe, então, seu aparelho celular e completa: “-Jogue seu joguinho e sossegue.”

Seria difícil, em palavras, exprimir meu estarrecimento. Como disse, não tenho filhos. Não tive, ainda, a oportunidade de lançar uma bela alma ao mundo. Não sou munida da propriedade deste conhecimento. Mas creio poder afirmar que há algo de muito errado na cena por mim presenciada. Fala-se, quase que exaustivamente, e com toda a razão, no caótico estado do sistema educacional no país. Fala-se que o jovem deste século passa mais tempo defronte a vídeo-games do que a livros abertos. Fala-se, ainda, que o pensamento é uma batalha perdida e criaremos em nossos lares indivíduos com capacidade de expressarem-se em, no máximo, 137 caracteres.

Agora, quando ouço estas afirmações, remeto-me à sala de espera do dentista. Indago-me, criamos ou somos criados – por quem ou pelo o quê?, ainda há tempo?

O indivíduo é criado por toda sua vida. Estímulos são necessários numa constância, tal qual a um bebê. Se não, pode acontecer de nos encerrarmos em paredes de concreto. Delas, não se vê muito além.