Estava, dia desses que antevieram as folias de Carnaval, em uma festa de aniversário que acontecia no salão térreo de um condomínio na orla da praia da Barra da Tijuca. O salão era cercado por paredes e portas de vidro, que se encontravam abertas. Em um determinado momento, aproxima-se ao longo do calçadão um desfile de um bloco de carnaval. Ou, ao menos, a tentativa. Bairro curioso esse, o da Barra da Tijuca. Pois bem, o tal bloco desfilava auxiliado por um veículo de som, que potencializava os decibéis das canções.
Enquanto os aspirantes a foliões pulavam ao som de Jorge Ben, do lado de dentro, todos se sentiam incomodados por não conseguirem ouvir as próprias canções da festa e trataram de fechar as portas de vidro – esse, munido de isolamento acústico, como o leitor descobrirá adiante. Cessou o Jorge Ben, cessou o veículo de som do desfile.
Ocupada que estava em me empanturrar, ainda não havia olhado para fora desde que a música externa cessara. Qual não foi minha surpresa ao levantar a cabeça e vislumbrar a cena. A massa, a massa extasiada, pulava e sacudia os braços. Em silêncio. Rendi-me àquela beleza. Homens, seres humanos, naquele momento, sob meu olhar, pulavam e dançavam, genuinamente, em silêncio. Lembrei-me imediatamente do dizer de Friedrich Nietzsche, “e aqueles que dançavam foram julgados loucos por aqueles que não ouviam a música” e muito se fez mais claro dentro de minha mente.
Quão tola consigo ser. Quão tolos queremos ser. Por muitas vezes nos deixamos levar, alegrar ou chorar por verdades tão absolutas quanto, na realidade, meu dedão do pé. Para nossa mente acomodada e segura de si mesma, um prisma, apenas um, de uma situação é mais que suficiente. Não precisamos dar a volta para chegar a outro, a outros. Ficamos onde estamos, achando o que achamos, afinal, o que parece ser, há de ser, não haveria de ser diferente. O que dança ao som do silêncio constitui um louco e nada mais. Não averiguamos se, do outro lado, estão sendo emitidas estridentes ondas sonoras.
Rendo-me ao clichê que profere que nem tudo que parece é, nem o que não parece não é. Isso, sim, poderia ser mais absoluto que meu dedão do pé. O que nos move adiante é a desconfiança do que pode haver. Faz-nos averiguar, pôr um pé a frente do outro, em seqüencia, caminhando até o outro lado. É uma grata surpresa chegar lá e ouvir belas músicas.