segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

em todo lugar

Por vezes, chego a surpreender-me com meus próprios brainstorms. Acontece que, cá e quando, eles perduram por dias. Um pensamento aqui, outro ali, que ecoam pelo vasto espaço vazio que carrego no interior de minha caixa craniana e, quando dou por mim, já trataram de apresentarem-se uns aos outros e deram as mãos em ciranda de roda.

Aconteceu ao longo da semana passada. Início de jornada diária, toca no rádio uma canção do grupo Tribalistas, que diz “não tenho paciência pra televisão, eu não sou audiência para solidão”. Letras essas já exauridas pelo tempo, por sinal. Velhas conhecidas de todos. Pois bem, sempre gostei desse dizer. Guardei. Dia e dia depois, encontro-me numa fila demorada acompanhada de um amigo, que passa, repassa, responde e anota e-mails através de seu smartphone incansavelmente, além de outras interações internáuticas. Guardei. Ao chegar à casa do trabalho, dia depois, reparo que uma das minhas primeiras ações rotineiras ao adentrar é ligar o computador. Guardo. Folheando uma revista na manhã seguinte, leio um artigo sobre a dependência do homem atual em relação às diversas “comunidades virtuais” que brotam como mato em fresta de paralelepípedo a cada clique. Guardei.

Ao final desses dias, estes pensamentos giravam e cantarolavam em minha mente, até fundirem-se na constatação de que estamos perdendo a capacidade de ficarmos sozinhos. Sós. Desacompanhados, escutando apenas nossas próprias vozes, pensando apenas nossos próprios pensamentos. Acho que desenvolvemos uma fobia da solidão voluntária. Quiçá de nós mesmos.

Basta olhar à volta. Conectados, interligados, tal qual um caixa eletrônico trinta horas. Criar laços com nós mesmos é coisa fora de moda. Gente estranha, essa, que anda sozinha pela rua, lê sozinha no banco da praça, vai ao cinema sozinha, assobia por aí sozinha. Precisamos estar em grupos. Quando não, precisamos estar virtualmente conectados ao próximo. Haja o que houver, que tudo nos livre do silêncio da solitude.

É aí que começo a cantarolar “não tenho paciência pra televisão, eu não sou audiência para solidão...”. E assim interrompo meu silêncio. 

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