quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

que nunca


Já passara pelo mais difícil, pensou. Pior do que aquilo, também, não haveria de ficar. Seria dali para melhor. Escovou os dentes, banhou-se, vestiu o vestido depositado com cuidado para não amassar em cima da cama e partiu.

A cada momento, um, uma. Pessoas, dezenas delas, entravam e desciam do coletivo. Percebeu que não lhe interessava as que desciam, mas as que entravam. Algo na imagem humana vindo ao seu encontro lhe hipnotizava, não lhe permitindo virar os olhos enquanto não mapeasse o rosto de quem caminhava em sua direção. Parecia querer certificar-se de algo. Ou seria apenas impressão.

Já de pés livres pelas calçadas cimentadas, a cada passante a seu lado algo lhe descia seco pela garganta. Visto o rosto, voltava ao normal. E assim foi ao longo do dia, ao longo dos dias.

Começava a causar-lhe espécie aquela recente mania. O sobressalto provocado pelo vislumbre de pessoa vindo em sua direção, o recém e feio hábito adquirido de encarar quem lhe cruzasse, como se tentasse ver algo mais.

Foi quando numa tarde, como de súbito, atentou para o motivo. De tudo, só não se acostumara à ausência da chegada. Havia sempre o momento da chegada. Vai agora adestrar os olhos novamente, aí é que são elas.

2 comentários: