quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

que dá


Ele sempre achou que chegaria, só não sabia quando. Havia chegado, afinal. Aquele  não ansiado momento. O medo enfim estava lá. Sempre fora conhecido por sua ausência. Os amigos diziam admirar o sujeito destemido, impetuoso que era. Ele, por sua vez, sabia não ser verdade. Eram todos aliviados por estarem livres do perigo e do desequilíbrio que é ser desprovido do freio do medo. Ele sabia, no fundo, ser esse o sentimento.

Era taxado por vezes de desajuizado por familiares inadvertidos de sua deficiência em produzir o sentimento que segura a todos. Já se acostumara, que haveria de fazer.

Como tudo, pois, um dia chega, seu dia havia chegado também. De início, não pôde identificar com propriedade do que se tratava. Sintoma por sintoma, viu-se face ao que há tempos não experimentava. O coração batia acelerado, ao enrolar de um estômago que parecia querer saltar para fora, de alguma maneira, concomitante com as pernas que se faziam bambas e as mãos que não mais lhe obedeciam a ordem de manterem-se paradas. Seus pensamentos tomaram velocidade de fagulha de luz, não lhe dando descanso. Algo o amarrava, prendia seus pés ao chão, não o deixava continuar tampouco partir. Sentia. Sentia medo.

Lembrou da última vez em que experimentara tal sensação. Carregava o pacote com o zelo que, naqueles tempos, carregava sua coleção de figurinhas a trocar do álbum da Seleção Brasileira. Tinha de entregá-lo à sua mãe, conforme o combinado. Coisa de valor, algo enviado por uma tia utilizando-o como intermédio, seu ônibus passaria por lá, de qualquer maneira. Qual não foi sua surpresa ao saltar do coletivo com as mãos livres, apenas carregando sua mochila nas costas. Esquecera o pacote. Experimentou todas as sensações que agora revive. Uma a uma. Que faria sua mãe. Não conseguia avançar, permanecia em pé no mesmo quinhão de calçada. Ao que escuta, ao longe um passante chamá-lo “-rapaz!”, alcançando-o a passos apertados. Testemunha do embrulho deixado para trás, saltaria no mesmo ponto, afinal, aqui está.

Ao relembrar o apreensivo momento, reconheceu então o que sentia. Não compreendeu, fazia tanto tempo.

Recordava-se-se agora da ocasião em que estava a bordo de uma balsa que chacoalhava em alto mar em dia de chuva e trovão. Os outros passageiros apreensivos, alguns já sacando os coletes salva-vidas que balançavam amarrados ao teto, não inspirando a segurança desejada. Ele, como em momento de súbita paz, postado à proa sentia o vento desalinhar-lhe os cabelos, quão gostoso era o cheiro da chuva combinado com o cheiro de mar. Não sentia medo. Sentia-se livre.

Aquilo por vez o atormentava, a capacidade de atirar-se em tudo que lhe fosse posto à frente, em tudo que quisesse colocar-se à frente, em tudo que quisesse sentir, sem a hesitação dos que ponderam, refletem e acham por bem não avançar, reconhecendo o risco. Não via sentido em, como todos, traçar linhas limítrofes imaginárias. Já bastam as que existem contra nossa vontade, pensava.

Agora, ali parado sem conseguir esboçar reação ou sentença que fizesse sentido, não se reconhecia. Por fim, articulou palavras que custosamente formaram uma seqüência. Pediu que ela não o deixasse. Mudaria, sabia que conseguiria. Consertaria o partido, correria o atraso. Ela serenamente passa a mão por seus cabelos, lhe dá um beijo na testa e parte.

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