quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

é bom e eu gosto

Não entendia também, de início. A mim, poeira sempre causou nada mais que alergia e a desconfortável sensação de eminente desprendimento do meu nariz de minha face. Como fosse acontecer a qualquer momento, a cada espirro. Ao que me evidencia o espelho, contudo, ele continua lá. 

Deparei-me, então, com outro tipo de poeira. A poeira que a vida levanta vez em quando. 

Há que se mudar, transitar, transcorrer, enfim, viver. Nesse deslocamento tal qual placas de gelo no Ártico, a vida levanta uma poeira danada. 
Tirar tudo do lugar e mover para outro provoca uma verdadeira nuvem. O que deixamos passar, nesses tempos de arrumação de nossa sala interna, é o respeito a nós mesmos que a poeira nos ensina. Por mais de vez, já tentamos, a todo custo, varrer, espanar, passar pano e aspirador de pó nestas partículas em suspensão, achando sábio livrarmo-nos delas. Há que se deixar. Há que se respeitar o arrastar dos móveis, cobrir com pano branco as peças mais delicadas e, quem sabe, cercar a sala de tapumes e faixas de interdição. Só então se termina a arrumação em paz e quietude. Tentar, infrutiferamente, limpar enquanto é feita a arrumação é tolice.  Se não há inspiração, a cor desbotou e o pássaro não cantou, eu respeito. Trato de cuidar do novo arranjo, sem apressá-lo um ponto. Trato de respeitar. Ao fim de dia ou mês, a sala está pronta para ser habitada novamente. 

Tiro então os panos, e, com a sensação de dever cumprido, sento-me no sofá e ponho os pés para cima. 

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