quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

olho

O que é feito das frações de segundos, me pergunto.

Todos, ao menos uma vez, já viveram uma fração de segundo que marcou, carimbou e permaneceu naquelas reminiscências típicas de sofá de sábado à tarde.

Neste mais que curto espaço de tempo, as mais intensas emoções são postas à superfície por um misterioso empuxo, podendo superar até o coeficiente de emoções de um mês inteiro (com trinta e um dias!). Uma virada de pescoço e zum! um vislumbre modifica todo o status quo e nos deixa lá, nos perguntando o que aconteceu, por que a vida a partir desse segundo será diferente – pelo menos por hoje. O que acontece, afinal?

Acontece que há uma mística envolvendo esses lapsos temporais que faz com que consigamos pensar e sentir com uma borbulhância excepcional – nada borbulha durante a confecção de um relatório, por exemplo – que nos rouba o resto do dia. Tudo parece pequeno perante nosso grande minúsculo momento.

Pode ser de tudo. Poder ser pássaro pousado no telhado com céu azulão atrás, marola de calor no ar desfigurando o relógio digital da calçada, pessoa cantarolando sozinha pela rua, reflexo de sol no cocuruto alheio, garça bicando água de esgoto do rio Maracanã, olhar da pessoa amada surpreendido pelo seu.
Acho, inclusive, que a perecibilidade da fração de segundo é o que a faz transformadora. 

Fosse mais duradoura, a intensidade seria dividida pelos outros segundos e se dissolveria feito bolinha de homeopatia. 

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