terça-feira, 18 de janeiro de 2011

a construção da destruição


Era exibida hoje, num daqueles programas matinais de variedades, que transmitem de receitas para o almoço a desfiles de moda-praia, uma matéria sobre a pesca esportiva em Fernando de Noronha. Aquele pedaço de paraíso incrustado em águas nacionais. Aquele santuário de fauna e flora. Aquele belo lugar.

Pensei, ao ouvir a chamada da reportagem, em ao menos três assuntos diferentes que poderiam ser explorados sobre Noronha. Espécies de vida, preservação ambiental – assunto tão em voga na mídia, atividades de turismo sustentável como mergulhos e trilhas, a rotina dos locais do arquipélago. Enfim, poderiam ser abordados diferentes prismas acerca do assunto. Entretanto, o editor da pauta deliberou por exibir uma matéria sobre desconstrução ao invés de construção. Podendo ser reportada a preservação, que atrai tanta audiência hoje em dia, foi reportada a – por que não – destruição.

Algum tempo depois, já em meio a meu deslocamento diário, atentei para um fato. O ser humano cada vez mais pratica a desconstrução. Parece-me que a construção tornou-se demodé. A reportagem do programa da manhã fez-me refletir sobre outros aspectos. Remeteu-me à tendência que possuímos de acharmos mais simples destruirmos do pouco que construirmos do nada. Repetimos este comportamento em diversas áreas de nossas vidas.

Achamos mais fácil implodir possíveis relacionamentos pessoais que cultivá-los a partir do nada além de possibilidades e perspectivas. Por que nos arriscar a construir uma ponte nos ligando ao outro se existe o risco de ela não resistir? Não, não nos damos a este trabalho. Optamos por destruir o projeto de engenharia antes que desperdicemos o cimento. É mais fácil. Construir pode ser tão arriscado e trabalhoso, afinal.

Não vemos razão em nos deslocarmos da zona de conforto em que nos encontramos visando alçar novos vôos. Achamos mais seguro destruir aquele projeto de empreendimento que temos no papel desde recém-saídos da universidade. Construí-lo levantaria a poeira da mudança, além do sempre existente risco de não “dar certo”. Trituramos então nosso projeto na maquininha do escritório, pois se o deixamos lá, ele fica eternamente bailando na frente de nossos narizes nos lembrando do que deixamos de fazer. E disso, claro, não gostamos.

A gentileza, estampada em camisas, canecas e toda sorte de souvenirs, é destruída e desconstruída, além de desprestigiada, a todo instante. Há quem tenha vergonha de ser gentil. Há quem ache cafona. Há quem não ache nada, pois há tempos não pratica o esporte de achar, tão desinteressante é construir um pensamento. E a coitada fica lá, lembrada apenas em cores e desenhos pela cidade e pelas lojas que comercializam sua imagem – como na camisa que possuo pendurada no armário, é uma bela estampa.

Me parece que a implosão tomou o lugar das espátulas de cimento.


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