segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

primaveras

Aniversariar em data próxima ao Ano Novo é coisa cruel. Duas datas que ensejam reflexões, retrospectivas e listinhas de resoluções. Será que é permitido aproveitar a lista do 31 de dezembro? Nem mês de diferença. Quem controla? Será o Ministério das Resoluções de Ano Novo e Aniversários? E com a mudança de governo, mudou algo? Talvez não, mesmo partido... Enfim.

Pelo sim, pelo não, achei por bem elaborar nova lista. Não sobrava muito que listar, afinal. Tive de pensar em algo que houvesse ficado de fora da passagem de ano. Pensamento vai, pensamento vem, me ocorreu o que venho fazendo das relações que me cercam. Há tanto a ser ainda compreendido. Não compreendo um bando de coisas. Serei eu, burra? Não entendo das ciências exatas, não entendo a razão de ser dessa moda de roupas de cor fluorescente – dói os olhos sair à rua – e, freqüentemente, falho em compreender o ser humano. Tão misteriosas são as relações que tecemos ao longo de nossas vidas.

Noutro dia, estava cantarolando uma música que tocava no rádio de meu telefone celular a caminho de casa, no coletivo. Um rapaz de pé ao lado de meu assento cantarolava a mesma música. Ao nos darmos conta, rimos, cada um em si, mas rimos. Não esqueci até hoje. Guardei.

Possuo um amigo há aproximadamente dez anos. Deixamos-nos levar pela vida que nos fez diferentes. Hoje, às vezes não nos reconhecemos. Acho que nos esquecemos de rir das mesmas coisas.

Espanto-me, em alguns momentos, com a falta de cuidado que temos com o próximo, que nos entrega um pedacinho seu para tomarmos conta. Esquecemos o embrulho no primeiro balcão de padaria em que paramos, deixando a preciosa entrega lá, ao acaso, ao passante que desfaça o embrulho por curiosidade.  

Ainda deixarei, dia desses, um amor reminiscente para a vida cuidar de reciclar, transformar em passado que não é, ou em futuro que será. Transformar em raiva ou em rima, como acreditou Leminski. De garrafa pet, a vida transforma em poltrona ou chinelo de dedo. E volta para a gente.

Passeio pela infinitude que é a bondade, o bonito que foi assistir ao morador de rua tratar da ferida na pata do cão que o acompanha diariamente pelas ruas da Lapa.

De mistério em mistério, fascino-me mais pelo o que fazemos de nós mesmos – e de outros. Assim elaborei então minha lista comemorativa. Com as delícias, tristezas e inevitabilidades do ser humano. 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

transborde

Se me perguntassem por que escrevo, sugeriria outra pergunta. Talvez fosse mais acertado perguntar por que não consigo suprimir o ato.

Perguntar-me-ia então a pessoa: "-Afinal, por que você não deixa de escrever?"

Ah, eu responderia. Responderia porque a pergunta me faria mais sentido. Faz-me mais sentido, com meus botões e engrenagens, escrever que não fazê-lo. Me parece mais natural essa mão da rodovia.

Para esta resposta, eu teria infinitas palavras - que não listarei aqui, pois a tela é finita. Não deixo de escrever porque não consigo conter meus transbordos fazendo barragem com as mãos. Escrever é transbordar no papel. Fosse o ato de transbordar, em seu sentido abrangente, evitável, ele não existiria. Ninguém gosta de limpar a bagunça. Mas, como não temos controle sobre ele, usamos um rodo.

Diria, ainda, que parece pretensioso de nossa parte perguntarmos uns aos outros por que escrevemos. Ora, não é um favor que prestamos à palavra passá-la para o papel. É o inverso. Elas nos prestam a grande caridade de nos servirem de tradução para a vida. Peculiar seria não fazê-lo.

dois minutos

A saudade ontem passou por sua porta. Em dois minutos, passou pelos canteiros da calçada, parou no sinal vermelho. Observou pedestres, temeu pelas nuvens negras anunciando chuva. Abriu as janelas para sentir o vento lhe bater, acompanhou a tarde descer, o dia acabar. A saudade parou na curva da esquina, sem querer continuar. Pensou, cantou, dançou por dentro. Girou nos cruzamentos, rodopiou no meio fio. Ouviu risadas ao fundo, e, ao longe, lembrou que estava lá. A saudade não sabia o que procurar, a saudade não queria achar. Um portão, um telhado, qual andar. Viu crianças de mãos dadas, em fila indiana, lembrou de ser saudade. Não quis parar para visita, hesitou em adentrar. Um pingo enfim desce das nuvens negro pixe, seguido de outros. A saudade brinca de fugir e deixar-se pegar. Abandona-se ao caminho, quer ver. Por fim, a saudade passou pela sua porta. Passa e faz seu caminho de volta. Ao fim de dois minutos.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

a construção da destruição


Era exibida hoje, num daqueles programas matinais de variedades, que transmitem de receitas para o almoço a desfiles de moda-praia, uma matéria sobre a pesca esportiva em Fernando de Noronha. Aquele pedaço de paraíso incrustado em águas nacionais. Aquele santuário de fauna e flora. Aquele belo lugar.

Pensei, ao ouvir a chamada da reportagem, em ao menos três assuntos diferentes que poderiam ser explorados sobre Noronha. Espécies de vida, preservação ambiental – assunto tão em voga na mídia, atividades de turismo sustentável como mergulhos e trilhas, a rotina dos locais do arquipélago. Enfim, poderiam ser abordados diferentes prismas acerca do assunto. Entretanto, o editor da pauta deliberou por exibir uma matéria sobre desconstrução ao invés de construção. Podendo ser reportada a preservação, que atrai tanta audiência hoje em dia, foi reportada a – por que não – destruição.

Algum tempo depois, já em meio a meu deslocamento diário, atentei para um fato. O ser humano cada vez mais pratica a desconstrução. Parece-me que a construção tornou-se demodé. A reportagem do programa da manhã fez-me refletir sobre outros aspectos. Remeteu-me à tendência que possuímos de acharmos mais simples destruirmos do pouco que construirmos do nada. Repetimos este comportamento em diversas áreas de nossas vidas.

Achamos mais fácil implodir possíveis relacionamentos pessoais que cultivá-los a partir do nada além de possibilidades e perspectivas. Por que nos arriscar a construir uma ponte nos ligando ao outro se existe o risco de ela não resistir? Não, não nos damos a este trabalho. Optamos por destruir o projeto de engenharia antes que desperdicemos o cimento. É mais fácil. Construir pode ser tão arriscado e trabalhoso, afinal.

Não vemos razão em nos deslocarmos da zona de conforto em que nos encontramos visando alçar novos vôos. Achamos mais seguro destruir aquele projeto de empreendimento que temos no papel desde recém-saídos da universidade. Construí-lo levantaria a poeira da mudança, além do sempre existente risco de não “dar certo”. Trituramos então nosso projeto na maquininha do escritório, pois se o deixamos lá, ele fica eternamente bailando na frente de nossos narizes nos lembrando do que deixamos de fazer. E disso, claro, não gostamos.

A gentileza, estampada em camisas, canecas e toda sorte de souvenirs, é destruída e desconstruída, além de desprestigiada, a todo instante. Há quem tenha vergonha de ser gentil. Há quem ache cafona. Há quem não ache nada, pois há tempos não pratica o esporte de achar, tão desinteressante é construir um pensamento. E a coitada fica lá, lembrada apenas em cores e desenhos pela cidade e pelas lojas que comercializam sua imagem – como na camisa que possuo pendurada no armário, é uma bela estampa.

Me parece que a implosão tomou o lugar das espátulas de cimento.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

os últimos...

...serão os últimos. Nada da falácia de que serão os primeiros. Serão o que são. E assim se faz. A questão é que ser o último não necessariamente consiste em algo ruim. É um algo. Assim como tantos algos pela vida.

Os últimos, por conceito formal, são os que vêm depois de todos, da maioria. Talvez por virem mais devagar, talvez por fazerem mais escalas pelo caminho. Talvez eles parem para bater mais fotografias pela vida. Ver mais antes de chegar lá. O conceito implica, ainda, em chegarem. Seja lá de qual maneira for.

Os últimos talvez sejam desajeitados para viver, como se dizia o Mauro de Fernando Sabino. Talvez não tenham o traquejo da rapidez de vida, subindo os degraus, ao invés de seguirem os atalhos das rampas. Talvez eles não se importem, pois, até onde eles têm conhecimento, nunca deixaram de pousar em seu destino, quase sempre sozinhos, pois a maioria já havia chegado há mais. Chegando lá, eles se divertem ao olhar em volta e vislumbrar o panorama.

Os últimos muitas vezes têm pouca credibilidade perante todos. Sempre se indaga se  chegarão, de fato, ou mudarão sua rota na metade do caminho. Últimos são famosos por mudarem de idéia com freqüência. Diz-se ser esse o motivo de tanta demora. Eles, por vezes, discordam. Mas sabem ser em vão.

Por fim – para não dizer ‘por último’ – , os últimos são agraciados com a fertilidade de mais experiências. Carregam suas demoradas andanças nas costas em suas sacolas de retalhos. Podem até confeccionar uma colcha.

Despeço-me, agora, pois o pessoal ali à frente chegou faz tempo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ônibus. 


Entra Nanda e olha ao redor em busca de assento. 
Para o olhar por um instante. Aqueles instantes impossíveis de não serem retidos. 
Pedro. Nanda não sabe quem é Pedro. 


Desolha e se acomoda na fila da direita. 


Laranjeiras. Pedro salta. 


Instante impossível de não ser retido. 


-- 


Mês e mês depois.


Festa. Apartamento em Copacabana. 


"-Nanda, esse é o Pedro. É amigo do Beto, do trabalho."


Instante impossível de não ser retido. 


"-Oi, Pedro."

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Continua. 

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Acompanhamos na semana passada o drama vivido por um alpinista brasileiro e sua companheira de escalada. Ao final, ele acabou repousando aonde sempre quis estar. Estranho desígnio. 

Além do óbvio sentimento de tristeza - somada à admiração - ao acompanhar as notícias, meu olhar derivou por alguns minutos, experimentando outro sentimento. O medo. 

Tive medo do que vivo - ou não. 

Me fascina o impulso de vida destas pessoas. Que literalmente vivem para o que fazem-lhe felizes, apesar de tantas pequenezas na vida, que muitas vezes transformamos em elefantes parrudos. Tive medo, então, de estar perdendo esse fascinante impulso. Medo de não reconhecê-lo, de não saber o que é. Medo de flanar pela vida impulsionada por nada além da cronologia do calendário. Medo, principalmente, de ter medo de acreditar. Nada mais triste que a descrença que freia, poda e faz acabar antes do fim.

Pretendo deixar o fim chegar até mim. Sem pistas de frio ou quente, sem ir ao seu encontro. Fim que é fim acha a gente, e não o contrário. 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

olho

O que é feito das frações de segundos, me pergunto.

Todos, ao menos uma vez, já viveram uma fração de segundo que marcou, carimbou e permaneceu naquelas reminiscências típicas de sofá de sábado à tarde.

Neste mais que curto espaço de tempo, as mais intensas emoções são postas à superfície por um misterioso empuxo, podendo superar até o coeficiente de emoções de um mês inteiro (com trinta e um dias!). Uma virada de pescoço e zum! um vislumbre modifica todo o status quo e nos deixa lá, nos perguntando o que aconteceu, por que a vida a partir desse segundo será diferente – pelo menos por hoje. O que acontece, afinal?

Acontece que há uma mística envolvendo esses lapsos temporais que faz com que consigamos pensar e sentir com uma borbulhância excepcional – nada borbulha durante a confecção de um relatório, por exemplo – que nos rouba o resto do dia. Tudo parece pequeno perante nosso grande minúsculo momento.

Pode ser de tudo. Poder ser pássaro pousado no telhado com céu azulão atrás, marola de calor no ar desfigurando o relógio digital da calçada, pessoa cantarolando sozinha pela rua, reflexo de sol no cocuruto alheio, garça bicando água de esgoto do rio Maracanã, olhar da pessoa amada surpreendido pelo seu.
Acho, inclusive, que a perecibilidade da fração de segundo é o que a faz transformadora. 

Fosse mais duradoura, a intensidade seria dividida pelos outros segundos e se dissolveria feito bolinha de homeopatia. 

domingo, 2 de janeiro de 2011

novo de novo

Não sou afeita a clichês, mas há de se convir que, excetuando o senhor exibido na matéria do telejornal habitante do interior do sertão que não sabe em que ano nos encontramos – ainda não consegui definir se acho ou não o fato triste -, não se pode colocar-se a parte de determinados ritos sociais. Não poderia, então, deixar de manifestar-me quanto à passagem de Ano. Alguns pensam ser apenas mais um dia após o outro, mais um nascer e pôr-de-sol. A massa, porém, é uníssona quanto à importância da data.

Eu, por minha vez, aprecio ciclos e suas representatividades. Rendo-me à delícia que é planejar, desejar e, por fim, esperar – no sentido de exercer a esperança. Que mal há, penso.

Pois bem. Aos desejos – não me aterei ao mecanismo dos planos, são exatos demais para esta divagação. Desejos enquadram-se na categoria do tudo-pode-ser. A gente deseja o que quiser, por nossa própria conta e risco. Lá fui eu. É evidente que, quando damos início à elaboração de um desejo, não começamos com pouco. Começa-se desejando o grandioso. Menciono, ainda, a freqüente ausência de nexo com nosso real contexto. Neste exato momento do nascimento do desejo, lembro-me de um aforismo de Nietszche sobre felicidade – sua obra Humano, Demasiado Humano, em minha opinião, é uma grande auto-ajuda. Em outras palavras, o pensador acreditava ser a felicidade não um resultado de grande arroubo desencadeador, mas de pequenos e recorrentes momentos positivos que, ao agregarem-se à seqüência de experiências que carinhosamente apelidamos de vida, mantém-nos felizes. Isto constituiria a verdadeira felicidade.

Calcada no pensamento dividido conosco por Nietszche, atentei para meu desejo, afinal.  Decidi por deixar de lado a agraciação com o Pulitzer e o acontecimento de uma cena a la  Casablanca. Ou arroubos equivalentes ao gênero. Ao invés disso, desejei a maior quantidade permitida de recorrentes momentos positivos que pudessem ser coletados e depositados na cestinha da bicicleta. Assim, a gente carrega junto nas andanças. Grandes arroubos não caberiam e ficariam pelo caminho.

Um Bom Ano.