sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

colóquio

parte IX

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- O que você espera, afinal?

- Eu não sei o que eu espero, Fernando. Eu só desconfio.

Eu desconfio que espero que um dia, assim sem mais, enquanto eu estiver no sofá da sala assistindo a algum filme sem nexo causal no Eurochanel, você vai bater à minha porta. Você vai bater à minha porta e dizer que confessa. Que confessa que eu fui seu grande amor, tal qual a canção. E que ainda gosta de petipoá, aquele misto de ervilha com milho em conserva.

- E depois?

- Depois eu não sei. Talvez eu feche a porta volte a assistir ao filme, talvez eu estanque na porta e desande a chorar, talvez a cena corte, insinuando o que vai acontecer em seguida, que não é exibível no horário da tarde. Talvez você nunca venha. Talvez você nunca bata à minha porta. Você nunca visitou minha casa nova, não deve saber o caminho.

- Eu sei o caminho, Julieta.

- Você bateria à minha porta, Fernando?

- Sabe, eu já cheguei perto e dei meia-volta. Você nunca desconfiou. 
  

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

para exprimir


Hoje é dia de homenagem. A homenagem vai para ela, a mãe de tudo o que figura nessa publicação eletrônica e em tudo o mais. A homenagem vai para ela, a Arte.

Não, que eu saiba, hoje não é Dia da Arte – que, se não existe, deveria. Acontece que o dia de hoje me permeou da necessidade de prestar essa justa homenagem.

Pois bem, como vocês, estimados leitores, já devem saber ou haver percebido – ou não, há sempre os desavisados na vida, que aqui, nesta publicação, jamais serão descriminados – que a voz que vos escreve está escrevendo um roteiro de filme. Desconheço o processo de criação dos demais roteiristas, mas grande parte do desenrolar de minha narrativa foi fertilizado em viagens de ônibus, adoráveis caminhadas na Av. Rio Branco à tarde, especialmente naquele pedacinho tão belo ladeado pelo Municipal, a Biblioteca e o Odeon, e pelas longas muradas da Av. Visconde de Albuquerque. Sempre dão pano para imaginação.

Como de hábito, em meu caminho no coletivo de volta a casa após a labuta, estava a pensar no desenrolar da famigerada narrativa. De súbito, pensei em matar o personagem principal, que faz um ex-par romântico com a outra personagem principal. Em seguida, pus-me a imaginar, cena a cena, as sensações da personagem, seus pensamentos, sua vida.

Neste momento, começa a chover e pingos d’água salpicam a janela do coletivo. Quando dei por mim, um arrepio tomou-me conta, de cabo a rabo, e meus olhos umedeceram. Quando dei por mim, vi-me emocionada por sensações tais quais como se assiste a um filme – já finalizado, devo ressaltar.

Instantânea foi minha admiração ao constatar que um simples esboço de arte querendo nascer já foi suficiente para provocar sensações levadas à flor da pele. Como podia, tal qual magia. 

Lembrei-me dos versos de Ferreira Gullar: “Uma parte de mim/é só vertigem:/outra parte,/linguagem.//Traduzir uma parte/na outra parte/que é uma questão/de vida ou morte /será arte?”  Sim, será.

Um brinde.

domingo, 11 de dezembro de 2011

correspondência

parte III


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“Rio de Janeiro, Verão

Se lhe escrevo num dia de domingo em que achei que o sol viria, e não veio, é porque protelei por toda a semana o desague. Isso de escrever correspondência é desague. Desague a gente protela até rebentar. Rebentou.

Sabe, caro, já ouvi dizer que parece corda torcida, que a gente força até romper, mas não rompe nunca. Só torce. 

Ouvi dizer, ali, que parece aperto, afogamento, pedra no peito. Prendi o ar até estancar e nada. Não se pareceu. Nada se parece.

Disseram-me ser silêncio. Calei-me horas, dias, passaram, passei. Nada. De longe, talvez. De perto, pouco fazia jus.

Ar sofrido, disse João Guimarães Rosa. Disse que era ar sofrido. De ar, só tenho esse, caro. Esse ar a gente não vê. Nisso, talvez se achegue perto, isso da gente não ver. Não se vê, não se tateia. Só se conta, se descreve, se canta, se proseia.

A essa hora, prezado, já posso prosear tantas outras proximidades que podiam fazer jus a explicação a contento. Parece que pensar é viver novamente. Espero haver ainda, em algum momento, sujeito que vá suceder na descrição, o que não fiz. Por ora, creio não o fazer.

Por ora, meu caro, creio não haver conseguido atingir o objetivo dessa correspondência e explicar, aos por menores que sejam fiéis, o que é, afinal, toda a saudade que se sente. Mais tarde, talvez.

Meus melhores desejos, caro amigo.”

domingo, 4 de dezembro de 2011

francamente

- O que você acha desse?

- Está ótimo, Márcia. Vamos andando, assim nos atrasamos.

- Não sei, Ricardo. Não quero sobressair à Vânia.
Talvez eu deva vestir o preto. É mais discreto.

- Já chega, vamos embora. É o terceiro vestido que você experimenta.

- Isso é assunto sério, Ricardo. Estou apostando nesse encontro às escuras da Vânia com o Felipe há tempos. Sempre achei que os dois combinavam. E a Vânia anda sozinha de dar dó.

- Está bem. Você não vai sobressair à Vânia, no duro. Agora vamos.

- No duro? O que você quis dizer com isso, Ricardo? Você acha a Vânia mais atraente do que eu? Você acha. Eu sabia. Eu sempre soube, Ricardo.

- Lá vamos nós.

- Desembucha, Ricardo. Há quanto tempo você está de caso com a Vânia?

- Eu não estou de caso com a Vânia, Márcia.

- Se não está, queria estar. Queria, não queria, Ricardo? Confesse.

- Márcia, a Vânia já deve estar nos esperando para buscá-la faz mais de hora. E o coitado do Felipe já deve estar no restaurante. Podemos ir?

- Não muda de assunto, Ricardo.

- Eu não mudei de assunto. Ainda estamos falando da Vânia. Está nos esperando.

- Ricardo, olhe lá. Não estou para piadas.

- Imagino que não. Podemos ir?

- Sabe, a Vânia nunca me enganou. Sirigaita.

- Mas o que é isso, Márcia. É sua amiga.

- Fosse amiga, não estaria de caso com você.

- Agora chega. Não vou mais a restaurante nenhum.

- Não vamos? Mas e a Vânia? Está nos esperando há mais de hora.
 
- A Vânia que tome um táxi. Por mim já chega. Boa noite, Márcia.

- Francamente, Ricardo. Criar confusão à hora de sair de casa, agora veja você. Homens se chateiam por cada coisa, viu...

sábado, 26 de novembro de 2011

colóquio

parte VIII 


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- Por quanto tempo? Para sempre?

- Não gosto de para sempre.

- Por que, Julieta?

- Porque para sempre não existe. Por isso jura-se tanto pelo para sempre. Porque a gente sabe que não existe.

- Então não será para sempre.

- Pode ser enquanto nos lembrarmos. Parece-me um bom motivo.

- Está bem. Enquanto nos lembrarmos, onde e com quem estivermos, nos encontraremos lá.

- Você promete, Fernando?

- Prometo.

--

- Que surpresa, Fernando. Não imaginava que você ainda vinha aqui.

- Você me fez gostar, acabei apegando-me ao hábito. Antigos hábitos nunca morrem, não é? 
Já dizia a canção.

- Qual canção?

- Não sei, Julieta. Acho que dos Stones.

- Ah.

Silêncio.

- Você foi, Fernando?

- Fui.

- Sabe, eu também fui. Olhei para você de longe, por um tempo. Você me parecia bem. Fiquei contente. Olhei por mais um tempo e fui embora, depois da terceira música. Não consegui, eu acho.

- Por que nós, Julieta?

- Eu acho que foi nosso tempo verbal, Fernando. Nós fomos o pretérito do futuro. Não há chance para o pretérito do futuro. Já nasce acabado.

- Eu vi que você foi. Acho que também não consegui. Somos covardes, eu acho.  

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

o tênue, o contínuo, o ali ao lado

A tartaruga fugiu. É isso, a tartaruga que morava na casa da Tânia fugiu. 

Esteve fugindo, creio ser a flexão verbal correta, visto que a fuga de um quelônio deve ser algo demorado, contínuo que só. Mas o que choca a gente é que a Tânia não notou o processo, o decorrer da fuga, os momentos de apreensão do ser em questão, nada. A tartaruga, assim como estava, foi de seu quintal para o quintal do vizinho. Talvez não gostasse da companhia de Tânia, talvez estivesse apenas entediada. Motivos à parte, a Tânia não notou o processo da fuga.

Ouvindo o narrar de Tânia, ofendida ela que estava por ter sido preterida por sua ex-companheira de lar, pensei no significado da mudança voluntária da tartaruga da Tânia. A verdade é que a gente não vê o que nos é discreto passar. Discreto, aqui, no sentido de tênue, contínuo, ali ao lado. A gente acaba não notando que o tênue, o contínuo, o ali ao lado também se movem.  

O relâmpago, o estampido, o que passa correndo em alarde se faz notar que dá gosto. Absorve o tempo, os dias, as palavras, a gente. Quando a gente vê, nem viu. Nem viu o tênue, o contínuo, o ali ao lado. Ter atenção no viver é enxergar o tênue, o contínuo, o ali ao lado. Não ter atenção no viver é desperdício, é imoral. É jogar as folhas e o talo dos legumes no lixo, com tanta da gente por aí precisando. É dar gargalhada de olhos abertos. 

domingo, 30 de outubro de 2011

sobre o MRU, inaugurações e outros aspectos teóricos do caos

Que meu estimado professor de Física à época colegial me perdoe, porém, infrutíferos seus esforços, nunca me entendi bem com a matéria. Estranho seria se fosse diferente, eu acho.

 No auge de minha limitação para com as exatidões da vida, contudo, fui capaz de compreender o conceito do MRU, o tal Movimento Retilíneo Uniforme. Pelo o que pude depreender, corrijam-me vocês se eu estiver errada, o resumo da ópera é que a velocidade do tal movimento mantém-se constante, segue o mesmo passo. Tivessem me explicado com estas palavras, talvez eu entendesse a tal da Física.

Aconteceu que me peguei pensando no tal movimento constante. É uma bela metáfora, esse conceito. Há quem seja MRU. Há quem goze da capacidade de manter-se em velocidade constante ad aeternum, até que algum fator externo altere sua aceleração. Há quem, por outro lado, viva de inaugurações. Há quem armazene fitas vermelhas no ser, tamanha a frequência de seu uso. Inaugurar-se a todo o tempo, descobrir ou espanar a poeira do que fora. De qualquer maneira, cortando a fita de laçarote vermelho com uma tesoura, sem precisar de qualquer fator externo para tal. Quem se inaugura o faz porque faz, porque nada mais é que natural. Nada é mais que natural que o não ser.

Quem se inaugura vive o caos. Vive o tentador caos da descoberta, que faz o inaugurante cruzar em diagonal a Praça da Cinelândia olhando para cima, para o céu, para o Teatro, para o Museu, para todas as coisas, perguntando-se o que será daquilo, daquela nova inauguração. Por alguma razão, quem se inaugura sempre acha que a resposta está no céu, está nas nuvens, está na fachada do Odeon. Volúveis, confusos, há quem diga. Mas há quem, sabiamente, diga que não. Quem vos fala, mesmo, pode atestar que já experimentou o conhecer de inaugurantes com uma baita convicção de si, do outro, de toda a sorte de coisas. Convicção feita dos retalhos de cada pedaço do novo, nunca deixados para trás, mas agregados. Esses inaugurantes, eu pude ver, fizeram-se fortes e cheios de cores e estampas, além dos dedos um tanto calejados de tanto costurar.

Sem, em momento algum, desprezar o engenhoso conceito do MRU, confesso achar cerceada a constância de uma velocidade que aguarda ser atingida por uma pedra ou dirigível quedado do céu para que mude, acelere ou diminua. Quanto aos calos nos dedos que costuram, dos males o menor. Basta comprar um dedal no armarinho, continuar costurando e ser constante quando for por bem o ser.  

domingo, 9 de outubro de 2011

desconfiança

Ao questionarem-me sobre a diferença entra a criação da crônica dissertativa, em primeira pessoa, e a crônica narrativa, em terceira pessoa, respondi que já não me garantia tanto. 

Explique-se, solicitaram-me. Expliquei. 

Ora, a gente tem de garantir-se para falar em primeira pessoa, sobre isso ou sobre aquilo. A gente tem de ter uma baita certeza sobre isso ou sobre aquilo. Ao menos, a gente tem de ter uma baita certeza de si.

Disse, então, que não tinha nem baita, nem diminuta certeza sobre coisa alguma, por ora. Ou sempre, vá saber.

Encerrada a sabatina, chamei o garçom, paguei a conta devida e fui-me embora. Caminhando, pedra portuguesa solta aqui e ali, caminho de volta a casa, pus-me a pensar. Que diferença fazia, afinal, não ser a gente, não ser a gente dizendo, não ser a gente vivendo, ser quem a gente inventa dizendo, ser quem a gente inventa vivendo. A personagem tem certeza, e a gente não?

Pois haveria de ser aquele o momento. Preparava-me, pé ante pé, para escrever o pronome eu, nu e só em seu significado. Não há  patrulha do dizer, a gente diz em nome de si o que bem entende. E assim fui, até apertando o passo, para chegar mais depressa.

Abro porta, abro geladeira, copo d’água, papel, caneta. Eu. Pois eu acho, meu caro. Eu.   

Olho. Afasto o papel, questão de perspectiva, sabe como é. Aproximo novamente, sobrancelha franzida. Risco. Troco por ele, Alberto. O nome da personagem seria Alberto. Falhara? – questiono-me, não obtendo resposta nem ao menos do cão recostado em minhas pernas. Falhara na baita certeza, disso tinha certeza. E baita. Amanhã tento novamente, penso.

Abro geladeira, pó de café, chaleira apita. Fumaça, cheiro, gosto.

Encosto da cadeira afofado, papel, caneta. Eu. Eu acho. Deito a caneta, afago o cão.

Vou até a janela. Volto ao encosto da cadeira. Eu. Eu, eu não sei de coisa alguma – continuo a frase. Eu não sei de coisa alguma. Acontece que, tal qual  João Guimarães Rosa, eu desconfio de muita coisa. Falemos de minhas desconfianças. E assim, varei a tarde, desfiando tudo disso e daquilo que desconfiava. E assim, alforriei-me. Alforriei-me da obrigatoriedade da certeza. A gente vai desconfiando que é, que dá, que vai dar. Não sendo, não dando, a gente risca e muda de rumo.

 E assim, recheado o papel, saí à rua com o olhar escancarado de quem ia fazer uma visita. 

cotidiano


- Eu devia saber melhor. Ninguém muda. Eu sempre soube que você ia querer mandar em mim, Antônia.

- Quanto choramingo por meia dúzia de roupas velhas. Deixe de ser ridículo, homem.

- Essa, não. Essa listrada é um clássico.

- É um clássico da breguice, Leandro. Anda, me passa a sacola de lixo.

- Pois não passo. Bem que minha mãe avisou. Avisou que você ia querer mandar em mim. Eu devia, Antônia, é ter casado com a Ruthinha. Bem que minha mãe avisou que era melhor eu casar com a Ruthinha.

- A Ruthinha é uma biscate, Leandro.

- Pois é muito amiga de minha irmã, viu.

- Sua irmã é outra biscate, não me leve a mal. Maçã do mesmo saco.

- Olha, Antônia, se você não sabe utilizar os ditados populares corretamente, mantenha-se calada. E olha o respeito com minha irmã.

- Está bem, Leandro, trata de passar essa sacola de lixo. Não me canse. Já me basta essa bermuda  de estampa floral.

- Essa bermuda não, vai, Toninha. Presente de minha mãe.

- Está explicado.
  E esse trapo amarelado aqui no fundo, o que é, heim?

- Não, Antônia, não ouse. Essa é do Vascão.

- E lá quero saber de Vascão, Leandro? Lixo é lixo.

- Pois se você tocar nessa camisa, você vai ver, Antônia. Ah, se vai.

- Ela está fora. Sem mais.

- A Ruthinha é vascaína. Vou telefonar para a Ruthinha, é isso o que vou fazer. Onde mesmo está a caderneta?

- Leandro, se você tocar nesse telefone, você vai ver. Ah, se vai.

- Você não manda mais em mim, Antônia. Declaro-me livre a partir de agora.

- Ah, é, Leandro? Vá, então, telefone para a Ruthinha.Eu vou para a casa da minha mãe. Fique você com este mafuá de gaveta.

- Por mim, ótimo.

- Ótimo.

Porta batendo.

Silêncio. Alguns minutos. Porta abrindo.

- Toninha. Só a do Vascão, vai. Deixa num cantinho, você não vai nem ver.

- Tudo bem. Me desculpa, Leandro. Num cantinho não há de fazer mal, não é? Deixa que eu dobro.

 - Eu ajudo.

- Leandro...

- Sim?

- Você casava mesmo com a Ruthinha?

- Não casava não, Toninha. Ela nem gostava tanto do Vascão assim.

- Tá bom, então.
  Agora, a gaveta de meias.



sábado, 1 de outubro de 2011

colóquio

parte VII


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- Assistindo o quê?         

- The West Side Story.

- De novo, Julieta?

- Sim. É um clássico. Se as pessoas assistissem apenas uma vez, não seria chamado de clássico.

- Uma de suas verdades?

- Uma das minhas poucas certezas, Fernando.

- Do que mais você tem certeza?

- Eu sei que você gosta daquela latinha de ervilha com milho em conserva. Qual é o nome, mesmo?

- Petit Poá.

- Isso. Uma das minhas certezas na vida, Fernando, é que você gosta de petipuá. 




quarta-feira, 21 de setembro de 2011


Do roteiro de O Amor Acaba:


"(...)

EXTERNA - PRAÇA DA CINELÂNDIA - MANHÃ

Feira de livros usados, ocupando toda a calçada defronte ao Cinema Odeon, Água de Beber, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, toca ao fundo, diminuindo gradativamente com o início do diálogo. 

LUIZA folheia livros, distraída, fone de ouvidos. 

PEDRO avista Luiza, a certa distância. Aproxima-se:

-Oi. 

LUIZA tira os fones dos ouvidos, como que de susto, e enxerga Pedro. 

-Pedro...Que surpresa. 

PEDRO responde, tirando os óculos escuros da face

- Sabia que te encontraria aqui. 

LUIZA, surpresa:

-Sabia?

PEDRO, olhando para o chão

- Não. Modo de dizer mesmo. Não sermos mais é não sabermos mais do outro. Não é?

LUIZA, tentando resistir à tristeza que ensaia chegar a seu rosto

- Pedro... Você achou melhor, eu achei, não sei, alguém achou. Alguém achou que seria melhor esse desterro de nós. 

PEDRO, perdendo o olhar de propósito

- E você não acha?

LUIZA, folheando sem rumo um livro, parando, ao fim, e olhando para Pedro:

- É desperdício. É o que eu acho.  É jogar a casca e o caule fora.
   É catar saber no que resta, em frase sua que leio aqui e ali, e me faço sabendo. -- de você. 

PEDRO fazendo que vai partir:

- Sou covarde, Luiza. Não aguento ver acidente, tapo os olhos com as mãos. Tapo o saber de você com as mãos. Sou covarde, Luiza.

Ainda sem recolocar os óculos escuros na face, devolve o livro que tinha às mãos e parte, no sentido Orla.

Luiza permanece com o livro nas mãos, olhando para a contra-capa. Puxa uma nota de dez reais do bolso lateral de sua tira-colo, entrega ao vendedor, agradece e parte, sentido Lapa, guardando o livro na tira-colo"

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

o ônibus


Avenida Presidente Vargas, sábado, 18.30h. O coletivo chacoalha seus passageiros para cá e acolá, ah, essas modernidades de ônibus, dizia S. Armando, preferia o bonde. Devia ter tomado o bonde, pensava. 

O grupo de jovens, mais ao fundo, em algazarra, remete um pouco S. Armando às suas próprias algazarras de outrora, ah, mas eu aprontei, dizia S. Armando a si mesmo, revisitando sua imagem cantarolando enquanto o bonde subia a ladeira, mexendo com as moças do passeio, sorrindo com os amigos.

A mocinha, acomodada na diagonal do assento de S. Armando, desejava que o ônibus logo chegasse a seu destino, não prezava viagens de ônibus, ainda mais em final de semana, pensava ela. Pensou em Eduardo.

O que estaria Eduardo fazendo àquele momento. Ah, o Eduardo nunca a deixava à sorte, deslocando-se de ônibus por aí. O Eduardo, o antigo Eduardo, zelava por sua segurança e conforto. Desejou, com todas sua forças, que Eduardo voltasse à sua companhia, ao seu pobre coração.

Ao trocador do ônibus restava contemplar a desertidão da já aparente Avenida Rio Branco, à medida que o veículo virava a esquina. Tão quieto numa noite de sábado, quão diferente do burburinho dos dias de semana. Para onde estariam indo esses passageiros, cruzando a Avenida Rio Branco, em uma noite de sábado. Farrear, devem estar indo farrear, pensou o trocador.

S. Armando pensou ser  o Apocalipse, a mocinha ensaia um gritinho, o grupo de jovens se alvoroça. O trocador, para não dizer que não se manifestou, esboça uma esticadinha de pescoço.

Bradando a coleção de nomes feios que possuía, o motorista do coletivo salta por sua porta da frente. É cego, me diga, qual o seu problema, meu amigo. Amigo é a mãe, bradava o dono do automóvel, enquanto sinaliza para o parachoque dependurado de o que havia sido uma frente da lataria.

Como todo ajuntamento que se preze, em pouco já recebia visita da rádio patrulha.

- Bateu em mim, seu guarda, se acha maior que todos, dirigindo esse monstrengo.

- Qual o quê, juventude sem juízo, quer cruzar a Avenida à toda velocidade, não há freio que resolva!

E o bate-boca se estende, para o delírio do grupo de jovens, que, juntamente dos demais passageiros, obedecem às ordens do guarda de que ninguém descia dali antes da apuração.

O leitor, a esta altura, já deve estar perguntando-se que é feito de S. Armando em meio à balbúrdea instalada. Recuperado do susto e resignado de que não, ainda não é hora do Apocalipse, não seria agora que ele pagaria por assustar a senhora sua mãe naquele dia, fingindo-se de morto, aos sete anos de idade, põe-se a bradar em direção ao guarda.

Pois desceria, sim, do ônibus, e ninguém haveria de detê-lo, afinal, sua descida era ali mesmo, à Rua do Ouvidor, a turma já devia estar esperando-o, ninguém manda em Armando, dizia S. Armando sobre si mesmo, em terceira pessoa.

Feito o não feito, tendo o dito pelo não dito, o guarda, por fim, convence o motorista do automóvel de que sim, ele podia confiar, receberia, no dia seguinte, uma ligação da companhia de transporte, resolveriam a pendenga, agora já chega, todos a seus destinos, um, dois.

Os jovens já de volta à algazarra, S. Armando ali, no outro lado da rua, fagueiro qual outrora, indo ao encontro dos amigos, o trocador com a pouca emoção que estava, ficou, de volta a contemplar a desertidão da Avenida.

A mocinha? Bom, a mocinha aproveitara a deixa de S. Armando e pôs-se coletivo a fora, como de rompante. Não era aquela sua parada, dirigia-se ao bairro de Copacabana, mas mudara de planos. Caminhara um pouco, chegara. Batera à porta da residência à Rua do Carmo. Que surpresa, como vai, bem, vou bem. Medo, foi de dar medo, achei que ia morrer de batida. Sem você não morro, Eduardo, sem você não vivo.

E foi assim que, naquela noite de sábado, Eduardo voltou à companhia e ao pobre coração da mocinha. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

o menino

Nasceu, aprendeu a andar antes de falar. Provável evidência de sua predileção pela liberdade de ir e vir, dentre todas as outras. Anos seguintes, freqüentou escola, muito independente, não se pode dar conta desse menino, dizia a professora. Desapegado, dizia a mãe a todo o tempo, certo tom de desgosto. Esse menino é um desapegado.

 A certa altura, o independente e desapegado menino, já não menino, senhor de si, via-se pleno, indo e vindo. Deixava, a caráter inevitável, peças, partes e outras composições pelo caminho, suas e de outros. Há que se perder e deixar pela vida, dizia ele. Acreditava ser nada mais que natural.
  
Ah, agosto. O grande erro do já não menino foi subestimar um mês de agosto qualquer. Estancou. Sentiu seus pés, até então alados, imóveis, pesados, pregados ao chão.
  
Viu-se proferindo, protestando, a palavra desapego a outrem. Outrem, que nascera um bocado depois dele mesmo. Outrem havia nascido um bocado depois dele mesmo e aprendido a falar antes de andar. Outrem tinha asa nos pés e seguia a deixar partes pelo caminho.

O menino já não menino tentou. Esforçou-se até a exaustão. Nada de alívio no peso dos pés.

Não havendo o que mais, apoderou-se de uma sacola e pôs-se a recolher o que ainda podia enxergar pelo caminho atrás de si.

Crescer asas de volta, aí é que são elas.

domingo, 21 de agosto de 2011

esclarecimento - colóquio

Queridos leitores, 


em resposta a alguns questionamentos, venho esclarecer que as partes do Colóquio aqui reproduzidas não seguem ordem cronológica, são flashes de variados momentos da história.


Meus melhores sentimentos,
a Gerência. 

colóquio

parte VI

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- Adoro assistir a chuva cair.

- Acho meio deprimente.

- Você acha tudo meio deprimente, Julieta. Das duas uma: ou você é tão feliz que não suporta o mais tênue contraste ou você é deprimida, mesmo.

- Já pensou em ser analista, Fernando? Talvez você seja um grande talento e não sabe.

- Não precisa de ironia.

- É do que mais temos precisado, Fernando. Vou calçar um par de meias. 

domingo, 14 de agosto de 2011

colóquio

parte V

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- É. Ele me disse que cruzou com você. Novo corte de cabelo?

- Pois é. Você sabe, necessito mudar, às vezes.

- Eu sei, Julieta.

- Olha, me desculpe telefonar assim. Não esperava sentir saudades. Faz meses, afinal. 

- Vejo que você segue conservando sua sinceridade.

- Não me refiro a saudades de você, Fernando. Isso, eu já sentia antes de partir. Eu já sentia quando éramos sozinhos em dois.

- Então, do quê?

- Sinto saudades de sentir saudades. É melhor que caminhar sozinha, concordo com Gonzaguinha. Foi isso, eu acho. Quando se acostuma com a saudade, se caminha um pouco sozinho, mesmo.

- Você sempre foi boa nisso, não se preocupe.

- Isso te incomodava, Fernando? Minha capacidade de ser sozinha?

- Eu tinha medo, Julieta. Medo porque você não precisava ser dois, você queria. Querer é tão efêmero. O efêmero sempre desperta medo, eu acho.

- Você, se pudesse, faria de tudo na sua vida uma previdência. Colocava nosso amor no INSS. Para quando ele se aposentasse. Se pudesse, Fernando, você dava ao nosso amor um cargo público. Você quer garantir o que não se pode carimbar. A gente precisa tatear o escuro, às vezes.

- E quem paga as contas quando é demitido?

terça-feira, 2 de agosto de 2011

correspondência

parte II

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“Rio de Janeiro, Inverno.

Eu disse que escreveria sempre, não disse, você sabe. Material para coleção, a esta altura, você já tem. Não que estas palavras escoadas constituam material digno de catalogação, você sabe.

Sabe, caro amigo, desejo voltar. Sim, não sei para onde, partindo de qual ponto. Tudo que sei, lhe explico neste momento, é daquela sensação do coletivo. Aquela, de quando se está sentado na quietude do coletivo que cruza o Aterro do Flamengo, a admirar o espelho d’água, e a súbita vontade que lhe sobe em iminente romper da garganta é a de levantar-se, dirigir-se ao motorista e requisitar que ele lhe leve de volta.

Para onde?, ele perguntaria. Eu responderia, caríssimo, que não sei, não sei para onde se volta a uma altura destas. Inclusive, não sei que a altura é esta. Qual a sua altura, caro?

Não o fiz, evidentemente, há de se conservar a lucidez, permaneci na estática do assento até meu destino, aquele no qual pensamos quando tomamos o coletivo e apertamos os olhos para enxergar o número que se aproxima, aquele, e não aquele, aquele que buscamos incessantemente.

Voltei. Não para o objeto deste escoamento, voltei à esta correspondência, depois de breve ausência para checar a água ao fogo.  Evaporou um pouco. Sempre evapora, quando se sai de perto. Às vezes, é inevitável se sair de perto.

Percebo que escrevo num fôlego só, provável que se dê a notar. É o fôlego com o qual penso, meu amigo, seria o fôlego com o qual lhe falaria.

Há de se parar para respirar. O farei, se me permite, continuarei essa em outro momento.

Meus melhores desejos, caro amigo.”

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

descartes

Cotonete, palito de dente, lenço de papel, fio dental, copinho de café, palito de pirulito, durex sem cola, serpentina de carnaval lançada

                                              bombril, fralda de neném

lâmina de barbear, filtro de café, papel de seda da caixa de sapato, sapato furado, raspadinha raspada, chiclete sem açúcar, mapa rasgado


                                               DESCART
                                                               áveis.



                                                                e você?

sábado, 23 de julho de 2011

colóquio

parte IV

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- Bem colorida, sua casa. Não podia ser diferente.

- Eu sempre disse que seria, não é? Engraçado isso. Engraçado você visitar minha casa. Quantos anos? Dois, três?

- Quatro. Matemática nunca foi seu forte, não é, Julieta?

- É. Eu sempre fui um pouco como um pincel de tinta. E você sempre chegou com a máquina calculadora.

- Você quem decorou? Pergunta besta. É a sua cara, mesmo.

- Bom te ver, Fernando. No duro. Sabe, é o tipo de coisa que a gente não imagina, nem nos mais vãos desvarios. Você, de pé, ante minhas almofadas coloridas. Não depois daquele dia, no Odeon.

- Você não tirou os óculos escuros.

- Que diferença fazia, você ver meus olhos. Não éramos nós.

- Eles me fariam ficar, Julieta.

- Não se salta de um trem em movimento, Fernando. 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

correspondência

“Rio de Janeiro, Inverno .

Sinto saudades que me parecem irremediáveis. Daquelas que parecem que nos fazem sentir cheiros familiares. Sentir o cheiro do ar naquele dia, naqueles dias. Quando foi? Tem sol que sai diferente. Disso, tenho certeza, ninguém me demove desta idéia. Impossível esse sol de hoje assemelhar-se ao sol daquele mês de janeiro, recorda-se? Será, agora, este desterro que experimento, culpa do sol, do céu, da estação, daquela canção? Se a gente for ver, a culpa é sempre um pouco daquela canção.

Sabe, acho que isso é remitência. Isso de remeter é coisa aloucada, transtornante. Difere da saudade, da chorosidade. Leva, carrega com tudo, àquilo, quando, daquilo. É um arrastão. É isso que é, essa coisa aloucada de remeter. É arrastão.

Sentada em cima daquele baú, acompanhando pela janela o movimento desértico daquela rua às duas horas da madrugada. Aqueles acordes me vieram à cabeça por descuido, ao escutar nesta manhã ao rádio. Achei que não me lembrava mais. Ledo engano, a gente sempre lembra. Não sei de você.  Mas daqui, sempre se lembra.

Esta correspondência, quase bilhete, era e é deságüe. A gente tem de desaguar em algum lugar.

Como diriam os norte-americanos,


Meus melhores desejos.”

domingo, 10 de julho de 2011

de para Maria

Como de costume nas manhãs de domingo, procedia com minha leitura de jornal na cama. Sempre bom. Lia uma matéria no caderno Ilustríssima, da Folha de São Paulo, sobre a pretensa iminente morte da Literatura. Não sei se talvez insuflada pelos manifestos dos professores pela educação tão falados nessa semana última, vi-me pensando em minha professora de Língua Portuguesa da antiga sétima série – não sei como se chama hoje em dia a sétima série do ensino fundamental, acho que envelheci. O nome dela é Maria. Sim, é verdade, não minto para criar um clima singelo a este texto. Ela se chama Maria.

Aos meus, então, treze anos, já sofria desta incurável relação amorosa com as palavras. Recordo-me da Gramática. Usávamos um livro de Gramática azul, literalmente azul-céu, pois sua capa representava um céu, com nuvens brancas pintadas, e, se bem me recordo, um muro de cerca cor bege, aonde vinha escrito “Gramática da Língua Portuguesa”. Esse livro foi um fiel e indescritível companheiro de aulas de matemática e ciências afora, quando os únicos remédios pareciam ser admirar, pela janela, os carros passando pela Rua São Francisco Xavier, no bairro da Tijuca, e degustar os textos, trechos e poesias que figuravam em minha Gramática da Língua Portuguesa, devidamente camuflada entre meu colo e a carteira. Deliciosas tardes, devo dizer. Naquelas tardes, eu era apresentada à forma mais singela em que a arte pode ser encontrada, palavras impressas em um livro escolar, munidas de um fascinante poder de remissão. Capazes de, mesmo que por um brevíssimo espaço de tempo, transportar o então jovem leitor para qualquer lugar que não aquele – não desmerecendo as prezadas aulas de matemáticas e ciências biológicas, é claro.

Eu admirava a professora Maria. Sua fala era pausada e ritmada, como que com a propositada intenção de nos fazer ouvir, e não apenas escutar, palavra por palavra, afinal, elas eram as estrelas daqueles períodos de quarenta e cinco minutos. Admirava o modo como ela, de alguma maneira, sempre sabia o que aqueles textos e poemas diziam, ou queriam, ou podiam dizer – afinal, a esta altura, já aprendi que isso a gente nunca pode saber mesmo. Além dos testes e provas, escrevíamos também redações. Dispensável dizer que era minha atividade escolar preferida. O ápice, bem lembro, era quando a professora Maria nos devolvia as redações corrigidas. Ansiava por seus comentários, por saber o que ela havia achado de meus textos. Isto, àquela época, já me era mais que importante. Um dia, a professora Maria me disse que eu escrevia bem. Será que ainda o faço bem, professora Maria?

Agora, ao passo destas lembranças que povoam o dia de hoje, me vem ao pensamento um trecho de Caio Fernando Abreu, quem diria que viver ia dar nisso. Como imaginaria eu, numa daquelas tardes assistindo aos carros passarem na janela, que tão nostalgicamente me recordaria da Professora Maria e de minha Gramática da Língua Portuguesa. Ante todo este exposto, o que me cumpre é declarar aqui meu sincero agradecimento à Professora Maria e a todos os outros professores, que, de alguma maneira, fizeram o viver dar nisso. Desejo que os apelos dos manifestantes sejam ouvidos, e a classe do magistério receba o tratamento de gratidão que merece. 

colóquio

Parte III

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- Estou cansada, sabe.

- Claro que você está cansada, Julieta. Já falei, você faz coisa demais. Quer abraçar o mundo à base de sanduíche. Depois, fica doente.

- Não, Fernando. Estou cansada.

- De mim?

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- Tem de haver um motivo. Ou algo, sempre há um algo.

- É a periferia, Fernando. Isso é o que sobrou, é a periferia de nós mesmos. É o que ficou ao redor do que se desenrolou, é a sobra que transborda para os lados. É natural.

- Natural? Natural, Julieta, é o sol nascer e se pôr todos os dias. É como você sempre dorme de cabelos molhados e acorda resfriada. Não traga para nós sua fortaleza de falso desprendimento.

- É fortaleza feita de areia. Cai quando a maré chega.

terça-feira, 28 de junho de 2011

jukebox

Pergunto-me se os colegas escritores padecem da mesma síndrome de quem vos escreve. É provável. É provável que volta e meia os colegas deixem escapar, durante um colóquio, que escrevem e pimba! – são requisitados a escreverem um texto especialmente para o sujeito. Tal qual uma jukebox. Exceto pelo fato de que, frequentemente, não somos recompensados com moedinhas.

Pois bem, ranhetas que somos, reclamamos, dizemos que escrevemos por inspiração natural do momento, mas, corações-moles que somos, por fim nos sentamos e colocamos as letras para trabalhar.

Dia desses, como sempre, solicitaram-me um escrito. Levei um tanto para sentar-me por ele, tanto esse o suficiente para espreitar aqui e ali dias afora e perceber um outro tanto. Neste intervalo entre o pedido e o presente momento, experimentei um dia especialmente estafante – depois descobri que viriam outros, como não poderia ser diferente nesta vida. Nesse dia, em sua reta final, ouvi à canção Onde Tenho que Ir, composta por Jorge Du Peixe e interpretada pelo grupo Nação Zumbi. Um verso de sua letra, por uma vida menos ordinária pintamos o chão, ecoou em meus pensamentos insistentemente dia após dia. Como se quisesse me dizer algo. E disse.

Semanticamente? Sempre.  or.di.ná.rio adj (lat ordinariu) 1 Que está na ordem das coisas habituais; comum, habitual, useiro, vulgar. 2 Costumado, normal, periódico, regular. 3 Freqüente; igual ao maior número.  

Bom, as definições do dicionário vão até o número sete, mas creio que essas já farão o basta. Coisas habituais. Hábitos, temos todos. Alguns mais, outro menos. O que varia, a meu ver, é a rotina. Há, posso garantir, quem não se baste na rotina. Há quem viva em zigue-e-zague. De tédio, certamente, não morrem.

Useiro, vulgar. Há quem seja useiro em insistir no vulgar. Insistir na manutenção da superfície seguramente isolada, dia após dia. Isolada em bando, é claro. Os useiros do vulgar jamais ousariam moverem-se sozinhos. O que é freqüente, já diz o dicionário acima, é igual ao maior número. Atrás da cortina da coletividade, bóia na tensão superficial da linha d’água – sem afundar, como nos garantem as leis da física. 

É neste momento, quando da apreciação do vulgar a boiar na linha do horizonte, que escuto aos versos por uma vida menos ordinária pintamos o chão.  Ali, enquanto cruzo um sinal do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Enquanto observo a ordem das coisas habituais. A vontade – quase irresistível – é de apoderar-me de um pincel afundado em tinta e lançar-me em traçados às pedras portuguesas. Pintar o chão. Quem sabe os pincéis não assinariam a carta de alforria do maior número. 

E você chega ao final de um dia querendo ler algo inspirador, que possa, de alguma maneira, produzir um nexo causal entre - bom, tudo. E você não encontra. Encontra o papel em branco. E coloca, você mesmo, uma moedinha na jukebox.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

colóquio

 Parte II

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- Você fica bonita chorando.

- Você me disse que eu ficava bonita sorrindo, como naquele retrato na calçada. Lembra, Fernando?

- Lembro. E ficava. Fica.

- Ninguém morreu, não é? Só nós dois. Acho que morremos um pouco. Foi uma efervescência, eu acho.

- Como Redoxon?

- Não. Como o nascimento de uma estrela. É uma explosão, você sabia?

- Nunca parei para pensar. Talvez devesse, não sei.

- Será que foi esse o nosso desamor?

- O quê, Julieta? Minha ignorância quanto ao nascimento das estrelas?

- Nossa ignorância quanto às nossas ignorâncias. 

domingo, 12 de junho de 2011

um brinde

Modernos, para frente, despojados. Somos presos, cerceados, falsificados. Felicidade que esbanja tristeza ao outro, que vai esbanjar a sua em outro quintal. Jovens, sempre jovens. Pesos prendem nossos pés ao chão. Pela liberdade da solidão. Bolas de feno. Não há tempo, muito que fazer. Vamos somar o desperdício no final. Complexos, fascinantes, misteriosos. Somos um plano oco. Usamos, usamos, temos. Um pouco repartido.

Duas estrelas não ocupam o mesmo lugar no céu. Por aqui, somos todos poeira.

Às falácias nossas de cada dia. 

domingo, 29 de maio de 2011

colóquio

Parte I

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- Não sei. Quero dizer, sei, eu acho. Eu gosto de caqui. A fruta, sabe. Mas não quando está molengo.

- É isso? É isso que você tem a dizer?

- Você me perguntou o que me faria feliz, eu respondi. Caqui. Sinto prazer em saborear um bom caqui.

- Sabe, não dá. Aliás, Julieta, nunca deu. Você não sabe conversar. Sabe o que eu acho? Que você se considera muito melhor do que todos a seu redor. Inclusive eu. Deus te livre de participar de debates banais. Inclusive esse. Então dá nisso. Não leva a sério o que a gente fala.

- O que você quer que eu diga? O que você sempre quis que eu dissesse, então? Que você me faz, ou deveria ter-me feito feliz? Você quer que eu te culpe, Fernando? Às vezes eu acho que é isso.  

- Seria melhor do que essa sua indiferença cortante.

- Você sabe que não vejo sentido na agonia. Na agonia dos que amaram e agonizam em nome disso. Não vejo sentido na agonia dos que amam e agonizam em nome disso. Não vejo sentido, Fernando. Não sou para agonizar.

- Olha, Julieta, eu não sei para o quê você é.

- Nem eu. 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

a moça que via negro

Em seu guarda-roupas, cores e mais cores. No entanto, não costumava vestir-se desajeitadamente. Era hábil ao combiná-las de modo que parecesse alegre visão. 
Rito habitual ao deitar-se. Dentes, cremes, pés e mãos. Pijama. Cansaço sempre, quase sempre. Já ia se esquecendo: despertador ajustado. 

Alvorada, no asfalto, que beleza. Sempre era, ainda mais neste mês de outono. Cores e mais cores no céu nascente, como gostava. Deleite. 

Olhos abertos. Deveria estar sonhando ainda, pensou. Daqueles sonhos que a gente sente que está mexendo e não está, que a gente sente que está caindo e não está, ou coisa que o valha. Devia ser. Vamos, acorda. O despertador toca, incessante. Negro. Vamos, abra os olhos. Gozado, certeza de que estavam abertos. Estão. Negro, penumbra. Cor, nenhuma cor. Imagem, movimento, ausentes. Negro. 

- Olha, você se acostuma. Os outros sentidos desenvolvem-se para compensar, proporcionando a você uma vida muito próxima do normal.

Vida normal. Aquilo que o médico chamava de vida normal, de lá em diante, seria viver do negro. E tato, audição e olfato. O resto era memória, vida vivida e dividida, nomes de cor. Só possuía um medo. De esquecer. Possuindo a lembrança, tinha quase tudo, pensava. Lembrar-se é das coisas mais importantes na vida. Na anterior e nesta. 

Reuniu família, amigos e médico em conferência. Não era motivo para pena, declarava. Providências, tudo se resumia a isso. Tomar providências para sua adaptação. Vive-se como se pode. 

Via-se agora entretida com a logística das novas descobertas. Novas sensações, novos procedimentos, maneiras antes nunca imaginadas à execução de hábitos corriqueiros do cotidiano. Envolvida que estava com essas tarefas, não dispunha de muito tempo para o pesar. Só um pouco. 

Cores. Sabia o nome de todas. Poderia listar graduações do magenta ao verde musgo. Sentia saudades. Imaginava, às vezes, por toda uma tarde, uma a uma. Lembrava de suas peças de roupa, suas paredes, seus móbiles. Diziam-lhe ser coisa de criança, essa de enfeitar cantos do quarto com móbiles coloridos. Que fosse, gostava assim. E como se balançavam ao vento, num balé inebriante. Sentia saudades. 

Sorriso. Conhecia, sem necessidade de permanecer olhar, cada um. Seu preferido era aquele em que os olhos sorriam junto. Era vivo. Costumava ser emitido quando de sua chegada. Ele, ao vê-la, sorria com os olhos. Sentia saudades. Ontem mesmo deteve-se horas nessa lembrança. Sua visita de outro dia inundava sua memória. Ele sentia saudades, também. Do olhar dela encontrando seu sorriso. O olhar dela não encontrava mais, só procurava. Detia-se na lembrança, ele também. Sentiam-se felizes por tê-la. A lembrança. 

Alvoradas. Vez ou outra lhe narravam. Rosa púrpura rajado de laranja. Azul, muito azul, salpicos de nuvens brancas. Lembrava. Sentia-se feliz por lembrar. Havia, afinal, quem não tivesse essa lembrança. Isso, sim, devia de ser tristeza. 

Aos amigos, cabia a tão importante combinação de roupas coloridas, de estampas florais com estampas de pequenos pássaros bicudos. Bons e íntimos amigos que eram, profundos conhecedores de suas preferências. Faziam questão de reproduzi-las fielmente. Lembrava das risadas ao fazerem graça com a aparência engraçada de um ou outro. Chapéu engraçado de um, estampa de gosto duvidoso de outro, provocavam risadas por todo um dia ou toda uma noite. Eram noites alegres, aquelas. Sentia saudades. Lembrava. Sentiu-se feliz por ainda dar risadas  noite adentro com seus amigos de sempre, atribuindo uma imagem armazenada a cada voz que lhe chega aos aos ouvidos. Considerou-se moça de sorte. Há moças que não têm imagens armazenadas de seus amigos. Há moças que não têm amigos. Que sorte a dela. 

Tempo passou-se, quando viu-se, então, naquela nova e plena vida. Aprendera que nada lhe faltava, que tudo apenas mudara.  Quando visitada pela saudade, exercitava a memória e tudo ficava completo. Foi neste momento, então que ouviu um alarme de despertador. Que seria aquilo? Por reflexo, abre os olhos. Vislumbra o despertador apitando e piscando, seus móbiles sendo sacudidos pelo vento que adentra através da janela que emoldura o céu de alvorada de outono, rosa púrpura com feixes laranjas, refletindo em suas paredes do quarto pintadas de lilás. Tocou seu travesseiro e sentou-se na cama. Derramou uma lágrima. 

Sonhara.

Escolheu suas roupas coloridas preferidas e partiu.