Avenida Presidente Vargas, sábado, 18.30h. O coletivo chacoalha seus passageiros para cá e acolá, ah, essas modernidades de ônibus, dizia S. Armando, preferia o bonde. Devia ter tomado o bonde, pensava.
O grupo de jovens, mais ao fundo, em algazarra, remete um pouco S. Armando às suas próprias algazarras de outrora, ah, mas eu aprontei, dizia S. Armando a si mesmo, revisitando sua imagem cantarolando enquanto o bonde subia a ladeira, mexendo com as moças do passeio, sorrindo com os amigos.
A mocinha, acomodada na diagonal do assento de S. Armando, desejava que o ônibus logo chegasse a seu destino, não prezava viagens de ônibus, ainda mais em final de semana, pensava ela. Pensou em Eduardo.
O que estaria Eduardo fazendo àquele momento. Ah, o Eduardo nunca a deixava à sorte, deslocando-se de ônibus por aí. O Eduardo, o antigo Eduardo, zelava por sua segurança e conforto. Desejou, com todas sua forças, que Eduardo voltasse à sua companhia, ao seu pobre coração.
Ao trocador do ônibus restava contemplar a desertidão da já aparente Avenida Rio Branco, à medida que o veículo virava a esquina. Tão quieto numa noite de sábado, quão diferente do burburinho dos dias de semana. Para onde estariam indo esses passageiros, cruzando a Avenida Rio Branco, em uma noite de sábado. Farrear, devem estar indo farrear, pensou o trocador.
S. Armando pensou ser o Apocalipse, a mocinha ensaia um gritinho, o grupo de jovens se alvoroça. O trocador, para não dizer que não se manifestou, esboça uma esticadinha de pescoço.
Bradando a coleção de nomes feios que possuía, o motorista do coletivo salta por sua porta da frente. É cego, me diga, qual o seu problema, meu amigo. Amigo é a mãe, bradava o dono do automóvel, enquanto sinaliza para o parachoque dependurado de o que havia sido uma frente da lataria.
Como todo ajuntamento que se preze, em pouco já recebia visita da rádio patrulha.
- Bateu em mim, seu guarda, se acha maior que todos, dirigindo esse monstrengo.
- Qual o quê, juventude sem juízo, quer cruzar a Avenida à toda velocidade, não há freio que resolva!
E o bate-boca se estende, para o delírio do grupo de jovens, que, juntamente dos demais passageiros, obedecem às ordens do guarda de que ninguém descia dali antes da apuração.
O leitor, a esta altura, já deve estar perguntando-se que é feito de S. Armando em meio à balbúrdea instalada. Recuperado do susto e resignado de que não, ainda não é hora do Apocalipse, não seria agora que ele pagaria por assustar a senhora sua mãe naquele dia, fingindo-se de morto, aos sete anos de idade, põe-se a bradar em direção ao guarda.
Pois desceria, sim, do ônibus, e ninguém haveria de detê-lo, afinal, sua descida era ali mesmo, à Rua do Ouvidor, a turma já devia estar esperando-o, ninguém manda em Armando, dizia S. Armando sobre si mesmo, em terceira pessoa.
Feito o não feito, tendo o dito pelo não dito, o guarda, por fim, convence o motorista do automóvel de que sim, ele podia confiar, receberia, no dia seguinte, uma ligação da companhia de transporte, resolveriam a pendenga, agora já chega, todos a seus destinos, um, dois.
Os jovens já de volta à algazarra, S. Armando ali, no outro lado da rua, fagueiro qual outrora, indo ao encontro dos amigos, o trocador com a pouca emoção que estava, ficou, de volta a contemplar a desertidão da Avenida.
A mocinha? Bom, a mocinha aproveitara a deixa de S. Armando e pôs-se coletivo a fora, como de rompante. Não era aquela sua parada, dirigia-se ao bairro de Copacabana, mas mudara de planos. Caminhara um pouco, chegara. Batera à porta da residência à Rua do Carmo. Que surpresa, como vai, bem, vou bem. Medo, foi de dar medo, achei que ia morrer de batida. Sem você não morro, Eduardo, sem você não vivo.
E foi assim que, naquela noite de sábado, Eduardo voltou à companhia e ao pobre coração da mocinha.