Em minha opinião, – dentre outras menos razoáveis ainda – todos deveriam ter o direito de tirar férias de si mesmos. Ser novo. Um pouquinho só, tirar a alma para lavar e colocar no varal para secar. E, enquanto isso, vestir um roupão atoalhado.
Em nossos roupões atoalhados, escreveríamos um bilhete dizendo que voltamos logo. Sem sair do lugar. Então sairíamos à mesma rua que saímos todo dia, sem ela nos reconhecer. Faríamos tudo o que fazemos todo dia, diferente. Falaríamos o novo, faríamos o novo, seríamos o novo. Conheceríamos o outro lado. Tiraríamos fotografias, é claro, para não esquecermos quem fomos nas férias de si mesmos. Quem sabe não trazemos algo novo à alma antiga, como um souvenir? Olharíamos a nós mesmos de fora. Enxergaríamos o que nunca tínhamos visto, embora não nos tenha faltado mirante e binóculos. Viveríamos as mesmas pessoas de maneira diferente. De roupão atoalhado, não teríamos o poder de refazer o já feito. Se assim o fosse, não estaríamos sendo novos, estaríamos sendo presos ao passado. De roupão atoalhado, teríamos o poder de não nos repetirmos. Repetir é viver pela metade, roubar vida de si mesmo. Seríamos contemplados com a sabedoria de que nós somos nossos maiores cerceadores. Aprenderíamos que não sonhamos, não sentimos, não permitimos, não conseguimos e não somos por nossas próprias amarras. Em nossas férias de si mesmos, viveríamos não apenas habitando uma seqüência de dias, sentiríamos um a um, a atenção redobrada, não deixaríamos passar um tanto que deixamos, não estaríamos tão atados por nós e em nós.
Ao fim de nosso recesso extra-oficial marcado no calendário pela Direção, montaríamos nosso álbum de fotografias com pequenas narrativas. Vestiríamos a alma lavada com amaciante Comfort e voltaríamos. Mas voltaríamos com um pedacinho novo, um cantinho de olhar diferente. Teríamos sempre conosco os souvenirs da viagem, nos lembrando de quem fomos em roupões atoalhados.
Então, sem nem perceber, já não seríamos mais os mesmos. Seríamos nós sem nós e um pouco mais.
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