Em 1999, Caetano lança sua canção "Sozinho" -- composta por Peninha. Em 1999, eu estava em meus onze anos de idade. Nos anos seguintes, a canção se fez popular - expressão tirada de alguma música ou verso escondida em algum canto de minha mente - , acessível inclusive à crianças em seus doze, treze anos, como a que vos fala.
A primeira vez em que esta criança de doze, treze anos ouviu "Sozinho", teve sua mente embaralhada em dúvidas. Ela nada entendeu ao contemplar o verso "por que você me deixa tão solto / por que você não cola em mim". Pensou, talvez, ter escutado errado. Ouviu novamente com atenção, e lá estavam confirmadas as famigeradas palavras. A criança que escreve estas palavras pôs-se a refletir. Ora, ele reclama por estar solto, livre. Reclama que a moça da música não cola nele. A criança vê-se confusa, pois tudo que havia escutado em sua breve e singela experiência pela vida é que o ser humano preza -- e zela, além de tudo, por sua liberdade. Não haveria de fazer o menor sentido essas palavras, afinal. Devo ter escutado errado novamente, pensava ela. Nada a fazia compreender aquilo.
O tempo se passou, a vida se passou, e a criança desenvolveu o hábito de, além de divagar por meio de palavras em uma tela de computador, passar o tempo em filas e afins pensando e deliberando sobre letras de músicas, poemas, crônicas, bulas de remédio, pichações de muro. E, novamente, como fosse um fantasma, lhe veio o verso da canção "Sozinho". A criança de tempo passado, então, riu-se sozinha. Entendia, afinal e finalmente, o que o verso expressava, seu significado subjetivo e essas coisas todas de gente grande. Entendeu que o moço da música desejava estar preso à moça, por sua própria vontade. Vontade profunda, que o fazia reivindicar o laço. A criança de tempo passado,que podemos,também, chamar de adulta, enxergava todo o sentido no verso. Achava-o bonito, até. Despida de toda a dúvida de interpretação dos doze, treze anos.
Pois bem, ao ouvir a canção no rádio noutro dia, a criança de tempo passado reviveu todos os pensamentos acerca de seus versos. Seus pensamentos de outrora e contemporâneos. Relembrou a progressão de sua interpretação com o passar dos anos. Comparou, ponderou. Chegou à inevitável conclusão, enfim, de que o viver seria um tanto mais simples e sereno fosse guiado pelo pensamento linear e puro - por puro, leia-se livre de pré-conceitos - de uma criança de doze, treze anos.
A criança de tempo passado pensava com todo o sentido e não sabia.
Sensacional!
ResponderExcluirobrigadíssima ;-)
ResponderExcluirVocê é mto boa! =D
ResponderExcluirSerá q vem com a idade essa ânsia pela liberdade de se prender?!
Eu, pelo menos, demorei bastante pra ansiar a prisão por livre e espontânea vontade. E, mesmo depois dessa experiência, ainda acho q isso não faz lá muito sentido...
Isso me lembrou aquele texto do Caio, "Não sou pedaço. Mas não me basto."
minha colaboradora é melhor ainda ;D
ResponderExcluirboa lembrança do Caio, não tinha pensado nisso.
eu acho que o que vem com a idade é o fato de que nada é plano como teoricamente é. por aí, eu acho...