segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

infante

Não, não cansam de me causar espanto os raciocínios infantis. Não apenas os das crianças que vejo por aí, mas os meus, que recordo, de quando menina. A recordação que virá a seguir fez-se presente dia desses, ao ouvir versos de uma música no rádio. 


Em 1999, Caetano lança sua canção "Sozinho" -- composta por Peninha. Em 1999, eu estava em meus onze anos de idade. Nos anos seguintes, a canção se fez popular - expressão tirada de alguma música ou verso escondida em algum canto de minha mente - , acessível inclusive à crianças em seus doze, treze anos, como a que vos fala. 

A primeira vez em que esta criança de doze, treze anos ouviu "Sozinho", teve sua mente embaralhada em dúvidas. Ela nada entendeu ao contemplar o verso "por que você me deixa tão solto / por que você não cola em mim". Pensou, talvez, ter escutado errado. Ouviu novamente com atenção, e lá estavam confirmadas as famigeradas palavras. A criança que escreve estas palavras pôs-se a refletir. Ora, ele reclama por estar solto, livre. Reclama que a moça da música não cola nele. A criança vê-se confusa, pois tudo que havia escutado em sua breve e singela experiência pela vida é que o ser humano preza -- e zela, além de tudo, por sua liberdade. Não haveria de fazer o menor sentido essas palavras, afinal. Devo ter escutado errado novamente, pensava ela. Nada a fazia compreender aquilo. 

O tempo se passou, a vida se passou, e a criança desenvolveu o hábito de, além de divagar por meio de palavras em uma tela de computador, passar o tempo em filas e afins pensando e deliberando sobre letras de músicas, poemas, crônicas, bulas de remédio, pichações de muro. E, novamente, como fosse um fantasma, lhe veio o verso da canção "Sozinho". A criança de tempo passado, então, riu-se sozinha. Entendia, afinal e finalmente, o que o verso expressava, seu significado subjetivo e essas coisas todas de gente grande. Entendeu que o moço da música desejava estar preso à moça, por sua própria vontade. Vontade profunda, que o fazia reivindicar o laço. A criança de tempo passado,que podemos,também, chamar de adulta, enxergava todo o sentido no verso. Achava-o bonito, até. Despida de toda a dúvida de interpretação dos doze, treze anos. 

Pois bem, ao ouvir a canção no rádio noutro dia, a criança de tempo passado reviveu todos os pensamentos acerca de seus versos. Seus pensamentos de outrora e contemporâneos. Relembrou a progressão de sua interpretação com o passar dos anos. Comparou, ponderou. Chegou à inevitável conclusão, enfim, de que o viver seria um tanto mais simples e sereno fosse guiado pelo pensamento linear e puro - por puro, leia-se livre de pré-conceitos - de uma criança de doze, treze anos. 

A criança de tempo passado pensava com todo o sentido e não sabia.  

4 comentários:

  1. Você é mto boa! =D

    Será q vem com a idade essa ânsia pela liberdade de se prender?!

    Eu, pelo menos, demorei bastante pra ansiar a prisão por livre e espontânea vontade. E, mesmo depois dessa experiência, ainda acho q isso não faz lá muito sentido...

    Isso me lembrou aquele texto do Caio, "Não sou pedaço. Mas não me basto."

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  2. minha colaboradora é melhor ainda ;D

    boa lembrança do Caio, não tinha pensado nisso.

    eu acho que o que vem com a idade é o fato de que nada é plano como teoricamente é. por aí, eu acho...

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