-Opa! Entre, meu querido.
-Feliz Ano Novo, Chicão!
-Para todos nós!
-Todo mundo aí?
-A galera já chegou. A Nanda está lá na varanda.
-Quem perguntou da Nanda?
-Ninguém. Pega um copo!
--
-Mas e aí Nandinha, qual a resolução para o Ano Novo?
-Ah, Dedê, sei lá. Planos não são comigo, você sabe.
-Eu vou voltar à academia. E voltar a ser morena. Beto falou que pareço mais inteligente.
-E o Beto vai fazer o que para parecer mais inteligente, nascer de novo?
-Poxa, Nanda, coitado. Ele se esforça.
-Desculpa Dedê, minha resolução então será gostar do Beto. Tá bom?
-Só quero ver!
--
-Amor, onde fica o banheiro?
-Vai por ali e vira à esquerda.
Esquerda, Beto! Esquerda!
--
-Oi.
-E aí, tudo bom?
-Tudo. E com você?
- Tudo ótimo, indo.
-Ótimo ou indo?
-Sei lá Pedro, que mania.
-Mania de quê?
-Nada. E o trabalho?
-Está ótimo. Acho que vamos conseguir aquela verba.
-Fico contente.
E sua namorada, não vem?
-Não é minha namorada. Que mania.
-Mania de quê?
-Nada.
Viajou. Búzios.
Silêncio.
-Sabe, ela não tem seus olhos. Seus olhos pretos sempre tão certos, definitivos, entram na gente, ou a gente entra neles, não sei. Os olhos verdes dela às vezes me confundem.
-Confusão às vezes é bom.
-É. Pode ser.
Silêncio.
-E seu projeto, sai para o ano?
-Não sei. Mudei a direção.
-Você nunca pára, não é?
-Quando eu tentei, não obtive muito sucesso, você não acha?
Silêncio.
--
-Pedrão, a Vânia tá aí. Diz que é sua fã. Vou apresentar vocês.
-Agradeça à Vânia e fale para ela assinar o jornal. No mais, estou fora de confusão por hoje, meu caro.
- Ih, vi tudo, já falou com a Nanda. Conversa com o Beto, da Dedê, que distrai rapidinho. O cara é uma peça.
- A Dedê também, heim?!
--
- Posso encher o copo?
- Opa, obrigado.
-Você é o Beto né? Da Dedê?
- Sou o Beto da Gama. Da Dedê é outra história.
Risada alto.
Silêncio.
- Então, Beto da Gama, o que você faz da vida?
- Faço sucesso, amigo!
Silêncio
--
- Poxa, Dedê, te apresentei ao Felipe, gente bacana, independente, inteligente, e você me aparece com esse Beto.
- Ah, Pedro. O Beto tem mais vida, é mais alegre. Esse Felipe era meio parado. Vocês implicam muito com o coitado. Deveriam me apoiar.
- Tudo bem, Dedê. Desculpe. Vamos combinar assim: minha resolução de Ano Novo será tentar gostar do Beto.
- Mas vocês são almas siamesas mesmo, heim? Ultrapassam a categoria de gêmeas convencionais!
- Heim?
- Nada.
--
-Sabe Dedê, estou sentindo que serei mais leve esse ano.
- Vai fazer dieta?
- Vejo que o senso de humor do Beto está te contagiando.
Enfim, ser mais leve com a vida. Comigo. Com o que eu fizer dela, com quem passar por ela.
Sinto isso.
- Que bom, Nanda. Vai ser bom para você.
- Ih, quase meia-noite.
--
- 5, 4, 3, 2,... 1!
- Feliz Ano Novo!
Gritam todos.
--
- Adeus, Ano Velho, feliz...
Interrompido.
- Beto, amor, acho que você já bebeu muito. Vamos comer uma rabanada.
--
- Nanda, musa desta singela reunião, feliz Ano Novo!
- Obrigada, Chico! Para todos nós!
--
-Nanda.
-Feliz Ano Novo, Pedro.
- Obrigado. Para você também.
Pausa, respira fundo.
Olha, Nanda. Não acho que você deva parar, não. Suas asas são tão bonitas. E sei que você sempre sabe o caminho de volta. E traz um monte de coisa nova junto. Faz a gente se sentir um pouco novo também. E seus olhos pretos realmente fazem-me falta. São sua segurança para si própria e para quem ganha seu olhar de presente. Tenho derivado sem eles.
Silêncio.
- Pedro, você acha que a gente pode ser novo de novo na vida? Reinventar o inventado?
-Acho que sim. Um dia nunca é igual a outro, afinal.
-É.
Silêncio.
-Pedro?
Vê os fogos comigo? Meus olhos têm se sentido meio sozinhos, mesmo.
--
FIM.
Nenhum comentário:
Postar um comentário