terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo


-Opa! Entre, meu querido.

-Feliz Ano Novo, Chicão!

-Para todos nós!

-Todo mundo aí?

-A galera já chegou. A Nanda está lá na varanda.

-Quem perguntou da Nanda?

-Ninguém. Pega um copo!

--

-Mas e aí Nandinha, qual a resolução para o Ano Novo?

-Ah, Dedê, sei lá. Planos não são comigo, você sabe.

-Eu vou voltar à academia. E voltar a ser morena. Beto falou que pareço mais inteligente.

-E o Beto vai fazer o que para parecer mais inteligente, nascer de novo?

-Poxa, Nanda, coitado. Ele se esforça.

-Desculpa Dedê, minha resolução então será gostar do Beto. Tá bom?

-Só quero ver!

--

-Amor, onde fica o banheiro?

-Vai por ali e vira à esquerda.

Esquerda, Beto! Esquerda!

--

-Oi.

-E aí, tudo bom?

-Tudo.  E com você?

- Tudo ótimo, indo.

-Ótimo ou indo?

-Sei lá Pedro, que mania.

-Mania de quê?

-Nada. E o trabalho?

-Está ótimo. Acho que vamos conseguir aquela verba.

-Fico contente.

E sua namorada, não vem?

-Não é minha namorada. Que mania.

-Mania de quê?

-Nada.

Viajou. Búzios.

Silêncio.

-Sabe, ela não tem seus olhos. Seus olhos pretos sempre tão certos, definitivos, entram na gente, ou a gente entra neles, não sei. Os olhos verdes dela às vezes me confundem.

-Confusão às vezes é bom.

-É. Pode ser.

Silêncio.

-E seu projeto, sai para o ano?

-Não sei. Mudei a direção.

-Você nunca pára, não é?

-Quando eu tentei, não obtive muito sucesso, você não acha?

Silêncio.

--

-Pedrão, a Vânia tá aí. Diz que é sua fã. Vou apresentar vocês.

-Agradeça à Vânia e fale para ela assinar o jornal. No mais, estou fora de confusão por hoje, meu caro.

- Ih, vi tudo, já falou com a Nanda. Conversa com o Beto, da Dedê, que distrai rapidinho. O cara é uma peça.

- A Dedê também, heim?!

--

- Posso encher o copo?

- Opa, obrigado.

-Você é o Beto né? Da Dedê?

- Sou o Beto da Gama. Da Dedê é outra história.

Risada alto.

Silêncio.

- Então, Beto da Gama, o que você faz da vida?

- Faço sucesso, amigo!

Silêncio

--

- Poxa, Dedê, te apresentei ao Felipe, gente bacana, independente, inteligente, e você me aparece com esse Beto.

- Ah, Pedro. O Beto tem mais vida, é mais alegre. Esse Felipe era meio parado. Vocês implicam muito com o coitado. Deveriam me apoiar.

- Tudo bem, Dedê. Desculpe. Vamos combinar assim: minha resolução de Ano Novo será tentar gostar do Beto.

- Mas vocês são almas siamesas mesmo, heim? Ultrapassam a categoria de gêmeas convencionais!

- Heim?

- Nada.

--

-Sabe Dedê, estou sentindo que serei mais leve esse ano.

- Vai fazer dieta?

- Vejo que o senso de humor do Beto está te contagiando.

Enfim, ser mais leve com a vida. Comigo. Com o que eu fizer dela, com quem passar por ela.

Sinto isso.

- Que bom, Nanda. Vai ser bom para você.

- Ih, quase meia-noite.

--

- 5, 4, 3, 2,... 1!

- Feliz Ano Novo!

Gritam todos.

--

- Adeus, Ano Velho, feliz...

Interrompido.

- Beto, amor, acho que você já bebeu muito. Vamos comer uma rabanada.

--

- Nanda, musa desta singela reunião, feliz Ano Novo!

- Obrigada, Chico! Para todos nós!

--

-Nanda.

-Feliz Ano Novo, Pedro.

- Obrigado. Para você também.

Pausa, respira fundo.

Olha, Nanda. Não acho que você deva parar, não. Suas asas são tão bonitas. E sei que você sempre sabe o caminho de volta. E traz um monte de coisa nova junto. Faz a gente se sentir um pouco novo também. E seus olhos pretos realmente fazem-me falta. São sua segurança para si própria e para quem ganha seu olhar de presente. Tenho derivado sem eles.

Silêncio.

- Pedro, você acha que a gente pode ser novo de novo na vida? Reinventar o inventado?

-Acho que sim. Um dia nunca é igual a outro, afinal.

-É.

Silêncio.

-Pedro?

Vê os fogos comigo? Meus olhos têm se sentido meio sozinhos, mesmo.

--

FIM. 

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