Em uma de suas correspondências com Mário de Andrade, Fernando Sabino questiona se um escritor deveria utilizar-se de suas próprias experiências, buscar inspiração em seus sentimentos e transbordá-los no papel. Mário – pelo que pude depreender – responde ser impossível dissociar o íntimo da obra.
Se Fernando Sabino perguntasse a mim, logo após recobrar os sentidos de meu desmaio, hesitaria em responder. Tenho me deparado com esta dúvida. Por enquanto, a conclusão à qual pude chegar é a de que o motivo que poderia reter os sentimentos advindos de experiências pessoais de um escritor é o medo. O medo ou talvez o pudor de expor-se em suas mais sinceras considerações. Vivemos em uma sociedade na qual expor-se denota fraqueza.
Se eu fosse fraca, então, escreveria sobre o que tenho observado. Escreveria sobre a dificuldade que as pessoas têm de dividir sua alma. Djavan diz que se tivesse mais alma para dar, ele daria. Vale a intenção.
Se eu fosse fraca, dividiria com você, leitor, o pesar que sinto a cada vez que reconheço uma alma que não será dividida pelo seu dono. A vontade é fazer como se faz com uma criança que não divide seu brinquedo. Pegar pela mão, levar até o amiguinho próximo e mediar o empréstimo.
Se eu fosse fraca, arriscaria dizer que, do profundo raso de minha experiência na Terra, enxergo uma espécie de auto-amarra latente. Coisa compreensível. Guardar a alma para si só e permanecer na superfície é, sem sombra de dúvidas, mais seguro. Para quem consegue, é claro. Há quem não consiga manter-se amarrado em si mesmo. Há quem seja como aquelas velinhas de aniversário que lançam fagulhas para todos os lados.
Se eu fosse fraca, encerraria com Mario Quintana dizendo que amar é mudar a alma de casa. Se eu fosse fraca, certamente acharia esse dizer pra lá de bonito.
Ainda bem que não sou fraca.
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