quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

moral da história

Era uma vez.

O menino pequeno, infante. 
Perguntaram-no sua cor preferida. 

"-Amarelo."

Tempos depois, o menino mudara de idéia. Já podia correr e conhecer mais cores.

"-Verde."

Mais tempo passado, o menino já não tão menino, aventurando-se por aí, afirma com toda a certeza:

"-Azul, é claro."

Já moço, vivido, o eterno menino, como que acordando de sono profundo, profere em alto som:

"-Branco! Branco!"

Mas já era tarde. Ninguém mais acreditava no menino grande, de tantas vezes que mudara sua cor preferida.
O menino grande então recolheu-se a seus segredos e nunca mais abriu a caixa de lápis-de-cor.

sábado, 25 de dezembro de 2010

entretanto

Agora o sol baixou um pouco, o calor continua. Em dias de sol e muito calor, o pensamento muda. Assim como nos dias cinzentos. Faz toda a diferença. Engraçado isso, porque sempre me disseram que a vida é uma só. Talvez não seja. Talvez seja zoom, seja prisma. Talvez seja da gente essa coisa de não ser um só. Talvez. Pensei tanto hoje, e tudo diferente. Com os primeiros raios, os primeiros porém e entretanto. As primeiras esperanças trazidas pelo não necessariamente e pelo quem sabe. Deve ser efeito da luz natural. Entorpece a gente, faz pensar nesse monte de possibilidades, parece que a gente enxerga um adiante mais longe, que vai surgindo sempre mais. Claro que, como todo entorpecimento, passa. Mas fica a sementinha. Será que não pode ser?

A noitinha agora aquieta, faz o pensamento menos eufórico. Até chegarem as estrelas, claro. Bagunça tudo novamente, afinal, nada mais entorpecente do que um céu estrelado. Nada faz a gente enxergar mais distante. Mas é diferente. A gente pensa mais sereno. Pensa mais devagar. Ficamos um pouco mais próximos da unidade, embora eu não acredite que um dia chegaremos a ela totalmente. Fico contente.

Li em algum lugar hoje – a memória me trai e não me permite recordar a fonte – que nós escrevemos o que irá acontecer. Assim literalmente, mesmo. O quão literal fizer sentido, evidentemente; nada nunca é inteiramente literal. Este dizer me remeteu à questão da multiplicidade de nós em nós mesmos, do quanto pode ser em uma coisa só.
Acho fascinante o fato de que nada é absoluto, a possibilidade de adotarmos um prisma, uma face da situação e assim seguirmos. E, é claro, mudá-la a qualquer momento, dependendo do sol ou chuva.

Ao final de tantos pensamentos, sóis, calores e estrelas brancas postadas no céu negro, chego à conclusão de ser inútil a tentativa de cercear o próprio pensamento a fim de encerrar-se em um só. Ao primeiro sinal de raio de luz, ele cresce e obriga a gente a escrever os próximos capítulos. 

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo


-Opa! Entre, meu querido.

-Feliz Ano Novo, Chicão!

-Para todos nós!

-Todo mundo aí?

-A galera já chegou. A Nanda está lá na varanda.

-Quem perguntou da Nanda?

-Ninguém. Pega um copo!

--

-Mas e aí Nandinha, qual a resolução para o Ano Novo?

-Ah, Dedê, sei lá. Planos não são comigo, você sabe.

-Eu vou voltar à academia. E voltar a ser morena. Beto falou que pareço mais inteligente.

-E o Beto vai fazer o que para parecer mais inteligente, nascer de novo?

-Poxa, Nanda, coitado. Ele se esforça.

-Desculpa Dedê, minha resolução então será gostar do Beto. Tá bom?

-Só quero ver!

--

-Amor, onde fica o banheiro?

-Vai por ali e vira à esquerda.

Esquerda, Beto! Esquerda!

--

-Oi.

-E aí, tudo bom?

-Tudo.  E com você?

- Tudo ótimo, indo.

-Ótimo ou indo?

-Sei lá Pedro, que mania.

-Mania de quê?

-Nada. E o trabalho?

-Está ótimo. Acho que vamos conseguir aquela verba.

-Fico contente.

E sua namorada, não vem?

-Não é minha namorada. Que mania.

-Mania de quê?

-Nada.

Viajou. Búzios.

Silêncio.

-Sabe, ela não tem seus olhos. Seus olhos pretos sempre tão certos, definitivos, entram na gente, ou a gente entra neles, não sei. Os olhos verdes dela às vezes me confundem.

-Confusão às vezes é bom.

-É. Pode ser.

Silêncio.

-E seu projeto, sai para o ano?

-Não sei. Mudei a direção.

-Você nunca pára, não é?

-Quando eu tentei, não obtive muito sucesso, você não acha?

Silêncio.

--

-Pedrão, a Vânia tá aí. Diz que é sua fã. Vou apresentar vocês.

-Agradeça à Vânia e fale para ela assinar o jornal. No mais, estou fora de confusão por hoje, meu caro.

- Ih, vi tudo, já falou com a Nanda. Conversa com o Beto, da Dedê, que distrai rapidinho. O cara é uma peça.

- A Dedê também, heim?!

--

- Posso encher o copo?

- Opa, obrigado.

-Você é o Beto né? Da Dedê?

- Sou o Beto da Gama. Da Dedê é outra história.

Risada alto.

Silêncio.

- Então, Beto da Gama, o que você faz da vida?

- Faço sucesso, amigo!

Silêncio

--

- Poxa, Dedê, te apresentei ao Felipe, gente bacana, independente, inteligente, e você me aparece com esse Beto.

- Ah, Pedro. O Beto tem mais vida, é mais alegre. Esse Felipe era meio parado. Vocês implicam muito com o coitado. Deveriam me apoiar.

- Tudo bem, Dedê. Desculpe. Vamos combinar assim: minha resolução de Ano Novo será tentar gostar do Beto.

- Mas vocês são almas siamesas mesmo, heim? Ultrapassam a categoria de gêmeas convencionais!

- Heim?

- Nada.

--

-Sabe Dedê, estou sentindo que serei mais leve esse ano.

- Vai fazer dieta?

- Vejo que o senso de humor do Beto está te contagiando.

Enfim, ser mais leve com a vida. Comigo. Com o que eu fizer dela, com quem passar por ela.

Sinto isso.

- Que bom, Nanda. Vai ser bom para você.

- Ih, quase meia-noite.

--

- 5, 4, 3, 2,... 1!

- Feliz Ano Novo!

Gritam todos.

--

- Adeus, Ano Velho, feliz...

Interrompido.

- Beto, amor, acho que você já bebeu muito. Vamos comer uma rabanada.

--

- Nanda, musa desta singela reunião, feliz Ano Novo!

- Obrigada, Chico! Para todos nós!

--

-Nanda.

-Feliz Ano Novo, Pedro.

- Obrigado. Para você também.

Pausa, respira fundo.

Olha, Nanda. Não acho que você deva parar, não. Suas asas são tão bonitas. E sei que você sempre sabe o caminho de volta. E traz um monte de coisa nova junto. Faz a gente se sentir um pouco novo também. E seus olhos pretos realmente fazem-me falta. São sua segurança para si própria e para quem ganha seu olhar de presente. Tenho derivado sem eles.

Silêncio.

- Pedro, você acha que a gente pode ser novo de novo na vida? Reinventar o inventado?

-Acho que sim. Um dia nunca é igual a outro, afinal.

-É.

Silêncio.

-Pedro?

Vê os fogos comigo? Meus olhos têm se sentido meio sozinhos, mesmo.

--

FIM. 

domingo, 19 de dezembro de 2010

voltamos já.

Em minha opinião, – dentre outras menos razoáveis ainda – todos deveriam ter o direito de tirar férias de si mesmos. Ser novo. Um pouquinho só, tirar a alma para lavar e colocar no varal para secar. E, enquanto isso, vestir um roupão atoalhado.


Em nossos roupões atoalhados, escreveríamos um bilhete dizendo que voltamos logo. Sem sair do lugar. Então sairíamos à mesma rua que saímos todo dia, sem ela nos reconhecer. Faríamos tudo o que fazemos todo dia, diferente. Falaríamos o novo, faríamos o novo, seríamos o novo. Conheceríamos o outro lado. Tiraríamos fotografias, é claro, para não esquecermos quem fomos nas férias de si mesmos. Quem sabe não trazemos algo novo à alma antiga, como um souvenir? Olharíamos a nós mesmos de fora. Enxergaríamos o que nunca tínhamos visto, embora não nos tenha faltado mirante e binóculos. Viveríamos as mesmas pessoas de maneira diferente. De roupão atoalhado, não teríamos o poder de refazer o já feito. Se assim o fosse, não estaríamos sendo novos, estaríamos sendo presos ao passado. De roupão atoalhado, teríamos o poder de não nos repetirmos. Repetir é viver pela metade, roubar vida de si mesmo. Seríamos contemplados com a sabedoria de que nós somos nossos maiores cerceadores. Aprenderíamos que não sonhamos, não sentimos, não permitimos, não conseguimos e não somos por nossas próprias amarras.  Em nossas férias de si mesmos, viveríamos não apenas habitando uma seqüência de dias, sentiríamos um a um, a atenção redobrada, não deixaríamos passar um tanto que deixamos, não estaríamos tão atados por nós e em nós.


Ao fim de nosso recesso extra-oficial marcado no calendário pela Direção, montaríamos nosso álbum de fotografias com pequenas narrativas. Vestiríamos a alma lavada com amaciante Comfort e voltaríamos. Mas voltaríamos com um pedacinho novo, um cantinho de olhar diferente. Teríamos sempre conosco os souvenirs da viagem, nos lembrando de quem fomos em roupões atoalhados. 


Então, sem nem perceber, já não seríamos mais os mesmos. Seríamos nós sem nós e um pouco mais. 

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

encantado.

Não se conhecer é coisa muito perigosa.
É risco que a gente corre sem saber.
Tem tudo. Tem quem nunca foi apresentado a si mesmo. Urge marcar um encontro. Às escuras. E os dois têm de aparecer.
Tem quem finge que não conhece, atravessa a rua ao ver-se na outra calçada. Quer se evitar. Esquece das esquinas redondas. Difícil fugir por muito tempo.
Tem quem tem saudades. Saudades de si. De si de muito tempo, de si de pouco tempo, do si que foi ainda ontem. Como Mario Quintana, que acha que a saudade que dói mais fundo – e irremediavelmente – é a saudade que temos de nós.
Tem também quem se conhece todo dia. Muito prazer. Vive na surpresa eterna de si. Requer cuidado. 
Tem gente que sabe. De si. 
Saber de si dá trabalho. 


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

infante

Não, não cansam de me causar espanto os raciocínios infantis. Não apenas os das crianças que vejo por aí, mas os meus, que recordo, de quando menina. A recordação que virá a seguir fez-se presente dia desses, ao ouvir versos de uma música no rádio. 


Em 1999, Caetano lança sua canção "Sozinho" -- composta por Peninha. Em 1999, eu estava em meus onze anos de idade. Nos anos seguintes, a canção se fez popular - expressão tirada de alguma música ou verso escondida em algum canto de minha mente - , acessível inclusive à crianças em seus doze, treze anos, como a que vos fala. 

A primeira vez em que esta criança de doze, treze anos ouviu "Sozinho", teve sua mente embaralhada em dúvidas. Ela nada entendeu ao contemplar o verso "por que você me deixa tão solto / por que você não cola em mim". Pensou, talvez, ter escutado errado. Ouviu novamente com atenção, e lá estavam confirmadas as famigeradas palavras. A criança que escreve estas palavras pôs-se a refletir. Ora, ele reclama por estar solto, livre. Reclama que a moça da música não cola nele. A criança vê-se confusa, pois tudo que havia escutado em sua breve e singela experiência pela vida é que o ser humano preza -- e zela, além de tudo, por sua liberdade. Não haveria de fazer o menor sentido essas palavras, afinal. Devo ter escutado errado novamente, pensava ela. Nada a fazia compreender aquilo. 

O tempo se passou, a vida se passou, e a criança desenvolveu o hábito de, além de divagar por meio de palavras em uma tela de computador, passar o tempo em filas e afins pensando e deliberando sobre letras de músicas, poemas, crônicas, bulas de remédio, pichações de muro. E, novamente, como fosse um fantasma, lhe veio o verso da canção "Sozinho". A criança de tempo passado, então, riu-se sozinha. Entendia, afinal e finalmente, o que o verso expressava, seu significado subjetivo e essas coisas todas de gente grande. Entendeu que o moço da música desejava estar preso à moça, por sua própria vontade. Vontade profunda, que o fazia reivindicar o laço. A criança de tempo passado,que podemos,também, chamar de adulta, enxergava todo o sentido no verso. Achava-o bonito, até. Despida de toda a dúvida de interpretação dos doze, treze anos. 

Pois bem, ao ouvir a canção no rádio noutro dia, a criança de tempo passado reviveu todos os pensamentos acerca de seus versos. Seus pensamentos de outrora e contemporâneos. Relembrou a progressão de sua interpretação com o passar dos anos. Comparou, ponderou. Chegou à inevitável conclusão, enfim, de que o viver seria um tanto mais simples e sereno fosse guiado pelo pensamento linear e puro - por puro, leia-se livre de pré-conceitos - de uma criança de doze, treze anos. 

A criança de tempo passado pensava com todo o sentido e não sabia.  

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

apesar de você

Estava lendo o roteiro do filme "Zuzu Angel", de Marcos Bernstein e Sergio Rezende.

Muito bonito. Engraçado que, na maior parte das vezes, imagens emocionam mais que palavras escritas.

Para tudo há uma exceção, afinal.



Palmas para o fragmento:



146 - EXT. RUA DO ACIDENTE – NOITE



Zuzu está morta dentro do Karmann Ghia, as


rodas girando.


Mota se aproxima. De repente, uma música começa.


Com o acidente, o toca-fitas começou a


tocar sozinho. A música é Apesar de Você.


CHICO (CANTANDO)


“Hoje você é quem manda/ Falou tá falado/ Não


tem discussão...”


Mota procura alguma coisa dentro do carro. Só


o que vê é a bolsa de Zuzu. Puxa-a para fora.


Abre, descobre o dossiê da Anistia. Satisfeito


com a descoberta, no entanto fica irritado com


a letra da canção de Chico. Volta a enfiar o braço


pela janela. Tenta desligar o som, mas o teto foi


amassado e é impossível chegar ao toca fitas.


CHICO (CANTANDO)


“Hoje você é quem manda/ Falou tá falado/ Não


tem discussão / A minha gente hoje anda falando


de lado e olhando pro chão viu / você que


inventou esse estado, que inventou de inventar


toda a escuridão /você que inventou o pecado


esqueceu-se de inventar o perdão.


190


Chico canta, alto e bom som, para a irritação


impotente do agente, que se levanta, chuta a


lataria do carro. Afasta-se levando o dossiê.


CHICO (CANTANDO)


“Apesar de você / Amanhã há de ser outro dia / Eu


pergunto a você onde vai se esconder da enorme


euforia / Como vai proibir quando o galo insistir


em cantar? Água nova brotando e a gente se


amando sem parar.


Outros carros de polícia chegam, a grua sobe e


aos poucos deixa a cena do acidente, revelando


por fim o céu que começa a clarear.


LETREIROS: “A morte de Zuzu Angel, em 1976, foi


declarada acidental. Chico Buarque distribuiu 60


cópias da declaração de Zuzu a personalidades e


imprensa. Nenhum jornal a publicou.
 
Este roteiro e outros podem ser encontrados no site www.aplauso.imprensaoficial.com.br

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

alma minha

Em uma de suas correspondências com Mário de Andrade, Fernando Sabino questiona se um escritor deveria utilizar-se de suas próprias experiências, buscar inspiração em seus sentimentos e transbordá-los no papel. Mário – pelo que pude depreender – responde ser impossível dissociar o íntimo da obra.

Se Fernando Sabino perguntasse a mim, logo após recobrar os sentidos de meu desmaio, hesitaria em responder. Tenho me deparado com esta dúvida. Por enquanto, a conclusão à qual pude chegar é a de que o motivo que poderia reter os sentimentos advindos de experiências pessoais de um escritor é o medo. O medo ou talvez o pudor de expor-se em suas mais sinceras considerações. Vivemos em uma sociedade na qual expor-se denota fraqueza.

Se eu fosse fraca, então, escreveria sobre o que tenho observado. Escreveria sobre a dificuldade que as pessoas têm de dividir sua alma. Djavan diz que se tivesse mais alma para dar, ele daria. Vale a intenção.

Se eu fosse fraca, dividiria com você, leitor, o pesar que sinto a cada vez que reconheço uma alma que não será dividida pelo seu dono. A vontade é fazer como se faz com uma criança que não divide seu brinquedo. Pegar pela mão, levar até o amiguinho próximo e mediar o empréstimo.

Se eu fosse fraca, arriscaria dizer que, do profundo raso de minha experiência na Terra, enxergo uma espécie de auto-amarra latente. Coisa compreensível. Guardar a alma para si só e permanecer na superfície é, sem sombra de dúvidas, mais seguro. Para quem consegue, é claro. Há quem não consiga manter-se amarrado em si mesmo. Há quem seja como aquelas velinhas de aniversário que lançam fagulhas para todos os lados.

Se eu fosse fraca, encerraria com Mario Quintana dizendo que amar é mudar a alma de casa. Se eu fosse fraca, certamente acharia esse dizer pra lá de bonito.

Ainda bem que não sou fraca.