Procuro deixar minhas crenças e ideologias de fora dos escritos deste blogue. Desta vez, terei de agir excepcionalmente. Acho que vale a pena dividir os acontecidos por mim presenciados no dia de hoje.
A fim de contextualizar a história, explico que pratico ativismo em defesa dos animais e meio ambiente. Estive, nesta manhã, participando de um protesto contra a caça de tubarões no Brasil. Havia mil barbatanas de tubarões - confeccionadas em cartolinas presas a um palito de madeira - espetadas na areia da praia do Leblon. Representava a quantidade desses animais que são mortos em cinco minutos por seus algozes, os pescadores e suas redes.
Foi quando dois diálogos marcaram meu dia e fizeram-me refletir.
Uma criança - calculo eu em seus quatro ou cinco anos - pára ao meu lado, mãos dadas com sua mãe, e pergunta:
- O que é isso?
Ao que eu respondo, dando início a um dos diálogos mais gratificantes que já travei.
- São nadadeiras de tubarão.
- Pra quê?
Perguntei-me como explicaria a uma criança tão pequena um assunto tão delicado.
- Os tubarões são pescados, que nem os peixinhos. Aí cortam a nadadeira deles. Nós não achamos isso certo.
- Pra comer?
- É.
- Eles morrem só pra gente comer a nadadeira deles?
(faz essa pergunta com uma das expressões mais espantadas e tristes que já vi)
- Sim.
- Mas é errado, não é?
Nesse momento, já me vejo conquistada pela cena que estava vivendo.
- É. A gente não deve matar os bichinhos.
No que a mãe, já impaciente, ensaia uma tentativa de continuar sua caminhada:
- Vamos filho, ela já explicou, agora você já sabe. Vamos.
Felizmente, crianças dificilmente desistem:
- Que nem o boi né? A gente mata ele pra comer. Tadinho.
- É. A gente não deve matar o boi também.
- Viu, mãe.
Ainda com o coração entorpecido pelo diálogo que acabara de ter com a criança, atendo à curiosidade de um transeunte.
- É um protesto. Pelo fim da caça aos tubarões. Estão em extinção já.
- Mas o que os tubarões fazem de bom pra mim?
Pergunta-me o homem, com cara de ameba sorridente - utilizando a expressão de Marcelo Migliaccio.
- Ao senhor, nada. Os animais não são seus empregados. Eles dividem o planeta com você.
Não pude ignorar a discrepância entre os dois episódios. Pus-me a refletir.
O menino, pouco viveu. Quatro ou cinco anos, no máximo.
O cidadão, estimo trinta e alguns anos. Trinta e alguns anos de experiências vividas, sentidos utilizados.
O menino, em seu pensamento plano, singelo, desprovido de sabedoria acadêmica, sabedoria de vivência ou qualquer outra, elabora, por si mesmo, uma linha de pensamento munida de opinião própria, consciência e reflexão.
O cidadão, em seu pensamento individualista e mesquinho, profere a primeira infâmia que passa por sua mente, sem nenhuma reflexão ou sombra de pensamento linear.
Pergunto-me que fazemos pela vida se nada estamos aprendendo, agregando, refletindo. Transitamos a esmo por nossos anos completados como se seguíssemos instintos primários? Seguimos rebanhos errantes em busca do próximo prazer instantâneo que se utilize do mínimo de sentidos necessários? Dessa maneira, nos tornamos "adultos vividos"?
Espero que não. Espero que tenhamos todos a clareza de pensamento de uma criança de quatro ou cinco anos.
Eu estava neste dia na praia e vi bem tantas incongruências neste dia.
ResponderExcluirSão somente seres especiais e dotadas de amor pela natureza, como a Duda, que conseguiremos um dia conseguir espalhar a palavra do equilíbrio no nosso planeta.
Estou sempre aqui lendo os escritos dela, e me inspirando nos mesmos para continuar com a minha luta pessoal pelo planeta!
Parabéns Duda e mais uma vez muito obrigado pela re-armonização que aconteceu no meu cérebro após ter lido seu texto. Aliás como sempre.
Continue escrevendo sempre!
Que coisa linda, muito obrigada.
ResponderExcluirEu é que agradeço as palavras, que certamente alimentam minha inspiração!