Bom dia, manhã, mais uma. Engraçado isso de acordar pensando em você. Às vezes penso que, se eu não fosse eu, me acharia uma desvairada. Bom dia, café preto.
Dentro do ônibus, já penso noutra coisa. Divirto-me a observar as pessoas na rua, fiz disso um passatempo que remediasse a rotina. Para onde vão, quem são? Seus trejeitos contam histórias. Minhas histórias, eu invento.
De lá, minhas pernas, já livres pela calçada, carregam meu passo marcado de sempre. Ou não, tanta coisa mudou. Quando nos conhecemos – lembra? tantas coisas me eram seguras, imutáveis. Qual não é a vida que chacoalha tudo. Não reclamo, não. Poeira boa. Só denoto tudo que andei. Sempre achei bonito seu andar pela vida, sua forma de seguir em frente. Se acha bonito o que se reconhece, dizem.
Eu reconheço cheiros e ventos de tardes. Minha parte favorita do dia. Eles sempre foram iguais. Em tempos de andança, eles confortam. Nada mais confortante que uma tarde de vento levantando folha do chão. A gente levanta junto. Será que hoje a tarde chega logo?
Almoço, já? Não sei se tenho fome. Prendemo-nos tanto ao relógio que viramos ditadores de nós mesmos. Deixa a barriga roncar que eu vou. Afinal, quem entende deste riscado é ela, não eu.
Acho que nunca partilhamos uma refeição juntos. Engraçado.
Quando a tarde vem trazendo seu vento, já estou nas paredes do ofício. Na baia do escritório, na tela onde me enxergo em palavras. Você não é de natureza de baia. Você é de espaços, abertos e cheios de opções. Eu também.
Noite. Gosto de chegar a casa e olhar da varanda. O caminhão de lixo passa todo dia, à mesma hora. Faz o mesmo barulho, que ecoa no silêncio do quarteirão. Deve ser por isso que gosto dele. Quebra o silêncio, mas não o estraga. Barulho que completa o silêncio. Pode haver também. Eu e a noite somos testemunhas.
Boa noite, noite. Engraçado, vou dormir e não penso em você. Vou dormir pensando no silêncio que o caminhão de lixo corta e cai tão bem. Talvez um tanto mais seja assim e eu não sei.