sábado, 27 de novembro de 2010

carta fechada

Bom dia, manhã, mais uma. Engraçado isso de acordar pensando em você. Às vezes penso que, se eu não fosse eu, me acharia uma desvairada. Bom dia, café preto.

Dentro do ônibus, já penso noutra coisa. Divirto-me a observar as pessoas na rua, fiz disso um passatempo que remediasse a rotina. Para onde vão, quem são? Seus trejeitos contam histórias. Minhas histórias, eu invento.

De lá, minhas pernas, já livres pela calçada, carregam meu passo marcado de sempre. Ou não, tanta coisa mudou. Quando nos conhecemos – lembra? tantas coisas me eram seguras, imutáveis. Qual não é a vida que chacoalha tudo. Não reclamo, não. Poeira boa. Só denoto tudo que andei. Sempre achei bonito seu andar pela vida, sua forma de seguir em frente. Se acha bonito o que se reconhece, dizem.

Eu reconheço cheiros e ventos de tardes. Minha parte favorita do dia. Eles sempre foram iguais. Em tempos de andança, eles confortam. Nada mais confortante que uma tarde de vento levantando folha do chão. A gente levanta junto. Será que hoje a tarde chega logo?

Almoço, já? Não sei se tenho fome. Prendemo-nos tanto ao relógio que viramos ditadores de nós mesmos. Deixa a barriga roncar que eu vou. Afinal, quem entende deste riscado é ela, não eu.

Acho que nunca partilhamos uma refeição juntos. Engraçado.

Quando a tarde vem trazendo seu vento, já estou nas paredes do ofício. Na baia do escritório, na tela onde me enxergo em palavras. Você não é de natureza de baia. Você é de espaços, abertos e cheios de opções. Eu também.

Noite. Gosto de chegar a casa e olhar da varanda. O caminhão de lixo passa todo dia, à mesma hora. Faz o mesmo barulho, que ecoa no silêncio do quarteirão. Deve ser por isso que gosto dele. Quebra o silêncio, mas não o estraga. Barulho que completa o silêncio. Pode haver também. Eu e a noite somos testemunhas.

Boa noite, noite. Engraçado, vou dormir e não penso em você. Vou dormir pensando no silêncio que o caminhão de lixo corta e cai tão bem. Talvez um tanto mais seja assim e eu não sei.



domingo, 21 de novembro de 2010

Procuro deixar minhas crenças e ideologias de fora dos escritos deste blogue. Desta vez, terei de agir excepcionalmente. Acho que vale a pena dividir os acontecidos por mim presenciados no dia de hoje.

A fim de contextualizar a história, explico que pratico ativismo em defesa dos animais e meio ambiente. Estive, nesta manhã, participando de um protesto contra a caça de tubarões no Brasil. Havia mil barbatanas de tubarões - confeccionadas em cartolinas presas a um palito de madeira - espetadas na areia da praia do Leblon.  Representava a quantidade desses animais que são mortos em cinco minutos por seus algozes, os pescadores e suas redes.

Foi quando dois diálogos marcaram meu dia e fizeram-me refletir.

Uma criança - calculo eu em seus quatro ou cinco anos - pára ao meu lado, mãos dadas com sua mãe, e pergunta:

- O que é isso?

Ao que eu respondo, dando início a um dos diálogos mais gratificantes que já travei.

- São nadadeiras de tubarão.

- Pra quê?

Perguntei-me como explicaria a uma criança tão pequena um assunto tão delicado.

- Os tubarões são pescados, que nem os peixinhos. Aí cortam a nadadeira deles. Nós não achamos isso certo.

- Pra comer?

- É.

- Eles morrem só pra gente comer a nadadeira deles?
(faz essa pergunta com uma das expressões mais espantadas e tristes que já vi)

- Sim.

- Mas é errado, não é?

Nesse momento, já me vejo conquistada pela cena que estava vivendo.

- É. A gente não deve matar os bichinhos. 

No que a mãe, já impaciente, ensaia uma tentativa de continuar sua caminhada:

- Vamos filho, ela já explicou, agora você já sabe. Vamos.

Felizmente, crianças dificilmente desistem:

- Que nem o boi né? A gente mata ele pra comer. Tadinho. 

- É. A gente não deve matar o boi também. 

- Viu, mãe. 


Ainda com o coração entorpecido pelo diálogo que acabara de ter com a criança, atendo à curiosidade de um  transeunte. 

- É um protesto. Pelo fim da caça aos tubarões. Estão em extinção já.

- Mas o que os tubarões fazem de bom pra mim? 
Pergunta-me o homem, com cara de ameba sorridente - utilizando a expressão de Marcelo Migliaccio.

- Ao senhor, nada. Os animais não são seus empregados. Eles dividem o planeta com você. 


Não pude ignorar a discrepância entre os dois episódios. Pus-me a refletir. 

O menino, pouco viveu. Quatro ou cinco anos, no máximo. 
O cidadão, estimo trinta e alguns anos. Trinta e alguns anos de experiências vividas, sentidos utilizados. 

O menino, em seu pensamento plano, singelo, desprovido de sabedoria acadêmica, sabedoria de vivência ou qualquer outra, elabora, por si mesmo, uma linha de pensamento munida de opinião própria, consciência e reflexão.
O cidadão, em seu pensamento individualista e mesquinho, profere a primeira infâmia que passa por sua mente, sem nenhuma reflexão ou sombra de pensamento linear. 

Pergunto-me que fazemos pela vida se nada estamos aprendendo, agregando, refletindo. Transitamos a esmo por nossos anos completados como se seguíssemos instintos primários? Seguimos rebanhos errantes em busca do próximo prazer instantâneo que se utilize do mínimo de sentidos necessários? Dessa maneira, nos tornamos "adultos vividos"?

Espero que não. Espero que tenhamos todos a clareza de pensamento de uma criança de quatro ou cinco anos. 

papel reciclado

E agora, o que a gente faz com eles?
A gente põe na caixa de correio com destinatário incerto?
A gente aluga um armário na rodoviária e deixa lá?
A gente preenche um protocolo de desistência e encaminha à Prefeitura?
A gente anuncia no jornal Balcão como de segunda mão?
A gente cava um buraco na areia da praia e enterra?
A gente constrói com eles um móbile?
Afinal, o que fazemos com nossos sonhos e amores perdidos?
A gente junta.
Junta tudo, recicla e transforma em combustível pra vida.
A gente vive tudo junto, de novo. 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

ou compro uma bicicleta?

Segundo Sartre, o sentimento de contingência permeia a experiência humana da escolha. Por mais certeza que tenhamos sobre uma determinada decisão, temos consciência, não obstante, de que outra alternativa seria possível. Uma vez que cada caminho está cheio de possibilidades, parece que não podemos deixar de aceitar a responsabilidade sobre nossas escolhas. Sartre argumenta que esse sentimento de responsabilidade inescapável tende a provocar angústia.

Jonathan Crowe, Revista piauí
Ainda acho tudo aquilo
Ainda sou aquilo tudo
Ainda tenho e carrego à quilo tudo
numa sacola de feira
Ainda trago aquilo tudo
Apesar de tanto desdizer
Apesar de tanto despensar
Apesar de tanto tirar
Com tanto achado
Com tanto feito
Com tanto carregado
Pra longe
Com tanta correria
Ainda sou pra ser
Se fores.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Num dia - que eles não chamariam de belo - ela disse:

"- Aquele ali também. É seu."

"- O Dylan não era seu?"

"- Não. Você comprou na liquidação, lembra? Dois dvdês pelo preço de um. Leva."

"- Ah..."

"- Leva também o Salinger."

"- É seu, te dei no nosso primeiro Natal."

"- Eu sei. Leva."

"- Ok."

Silêncio.


"- E o apê novo? Tá se acostumando com Botafogo?"

"- É, não é ruim. Tem mais barulho. Faz companhia ao meu silêncio."

Silêncio.


"- Olha, não foi por não amar. A gente se amou. Não amou?"

"- Sim. Ou descuidou do resto. Tem quem diga que é a mesma coisa."

"- E agora?"

"- A gente cuida de novo."

Silêncio.


"- Promete que não descuida com mais ninguém?"
"- Prometo."
"- Ok. Não esquece o Dylan."
"- Ok."


Barulho da grade do elevador.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

palavradentro

Transfor   mar

Que me jo  go

ta que pinga

até acab  ar

que você resp  ira

inundar o meu

e seremos    nós

desatados.

E sós.
Precisamos, sim, endurecer sem perder a ternura. Pergunto-me: se é esse um clichê, por que endurecemos e perdemos a ternura? Concluo já ter havido mais respeito pelos clichês.

Perder a ternura nos rouba a capacidade de ver. De enxergar, melhor dizendo. Não nos deixamos enxergar nada além do concreto. Tudo se torna tolice.
Um querido animal de estimação de uma família parte. Parte para continuar sua viagem. Minutos depois, instala-se uma mariposa em uma parede da casa. O inseto lá permanece, por toda uma semana. A saudosa família atribui a presença da nova inquilina ao animal que partiu. Não acreditam em coincidências. Sentem.

Ao relatar esta historieta, já observei reações diversas. A mais recorrente, sem dúvida, é a cética sacudida de cabeça. “- Tolice.”

Torço, pois, para que sejamos todos tolos na vida. Ternos eternos tolos.