Possuo passatempos bobos e/ou sem cabimento. Coisas que, até onde eu sei, só eu vejo graça em fazer.
Não resisto ao entregador de flores. Não posso ver um na rua que me ponho a imaginar.
Quem as receberia, por qual motivo. Gostaria? Colocaria em um vaso, debaixo de sorriso ou lágrima. Seriam lágrimas de alegria, tristeza? Raiva, emoção? Talvez permaneceria incólume, não moveria um músculo da face.
Quem as mandou, por sua vez, viveria o mistério que envolve a espera. Receberia uma ligação de agradecimento, ou uma esperada aceitação de um pedido de desculpas? A dor do desprezo ou a surpresa de lágrimas de emoção batendo à sua porta?
Quanta coisa se tem para imaginar ao vislumbrar um entregador de flores. Deve ser um ofício interessante, esse. Imagino quanta emoção não vai sendo acumulada ao longo do dia, e dos dias, como aquela pirâmide de energia da natureza que aprendemos (ou não) nas aulas de Biologia.
Pergunto-me se o entregador ainda conservaria a capacidade de comover-se após anos e anos de faces moldadas pelos mais diversos sentimentos. Penso que das duas uma: ou tornaria-se poeta ou agiria mecanicamente como quem trabalha no caixa do banco. Temo ser a segunda hipótese mais provável. É sempre mais raro a gente seguir a emoção. Uma pena.
Acho que entregadores de flores dariam ótimos poetas.
A próxima vez em que eu receber flores - caso aconteça - prestarei atenção no entregador. E, como faço inevitavelmente ao longo de toda minha vida, deixarei transparecer minha emoção, seja ela qual for. Quem sabe ele não escreve um poema.
Quando eu as mandar, mando um poeta.
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