Rio de Janeiro, meia noite e trinta da madrugada de sábado. Bairro da Urca. Boate abarrotada de jovens e não tão jovens, esses talvez buscando uma juventude perdida, inacabada ou reinventada. Mas buscando. O tum-ti-tum da música eletrônica - único gênero musical que irá inundar meus ouvidos até as quatro horas e quarenta da manhã - embala a massa uniforme trajada de maneira tão semelhante que a gente até confunde. E pensar que eram os mesmos que tanto reclamavam de seus uniformes colegiais. Acabaram por encerrar-se neles por vontade própria. Em um dos breves momentos em que o tum-ti-tum tinha letras, o coro uníssono acompanhava "you've got to show me love" - você precisa me mostrar amor. Uma menina ao meu lado berrava a frase com tanta veemência que parecia uma espécie de mantra. Guardei esta cena. Estaria a menina em busca do amor, em busca de alguém que mostrasse amor a ela? Estaria ela buscando tal amor em meio a tal jovens em tal boate da Urca? Em meio a seus uniformes, suas frases feitas e suas noites perfeitas - parafraseando Cazuza?
Passo, então, para outro flagrante da noite carioca. Meia noite e trinta da madrugada de sexta-feira. Copacabana. Uma amiga desperta de sobressalto ao ouvir ruídos debaixo de sua janela. Qual não foi sua surpresa ao deparar-se com um jovem e seu violão cantando, em seu desajeito, uma canção romântica do grupo Jota Quest. Seus olhos custaram a acreditar no que viam - e ouviam. Uma serenata. Uma serenata, no ano de 2010, em meio ao caos, ao caos dos uniformes, das frases feitas e noites perfeitas, das buscas pelo amor em refrãos de música eletrônica. Uma serenata. Em todo o seu desajeito, o menino ali expressava seu afeto por alguém que nem apareceu na janela - segundo minha testemunha ocular. Arrisco o palpite de que esse alguém provavelmente estaria saculejando ao som do refrão "you've got to show me love" enquanto o amor serenava em sua janela, "cantando coisas de amor", como a banda do Chico cantou.
Arrisco o palpite de que, entre serenatas e saculejos, devemos buscar a alma de uma vida. De uma vida mais criativa e sentida, e, providencialmente, liberta dos uniformes.
hunfff
ResponderExcluirninguém faz serenata pra mim!
tabém, duvido que façam!! ahauahuaha
*também
ResponderExcluirDifícil acreditar na história da serenata msm.
ResponderExcluirSe eu mesma não tivesse visto, teria certeza de q era lenda urbana! Hahaha.
E essa vida safada, né!
Aposto q o meu seresteiro tava lá na Urca cantando "you've got to show me love", enquanto eu estava em casa, esperando ele aparecer embaixo da minha janela.
Hahahahahaha...
Eu quero uma serenata!
ResponderExcluirAinda existe romantismo no século XXI.
Isso nos traz esperança na sensibilidade do ser humano.