A minha realidade interior vive abaixo no nível da realidade que me cerca. Para restabelecer o equilíbrio, num contato normal com os demais seres humanos, tenho que escrever, porque a recriação da realidade pela imaginação, através da linguagem escrita, é a maneira que tenho de me comunicar.
Fernando Sabino.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Alma Nova
Rio de Janeiro, meia noite e trinta da madrugada de sábado. Bairro da Urca. Boate abarrotada de jovens e não tão jovens, esses talvez buscando uma juventude perdida, inacabada ou reinventada. Mas buscando. O tum-ti-tum da música eletrônica - único gênero musical que irá inundar meus ouvidos até as quatro horas e quarenta da manhã - embala a massa uniforme trajada de maneira tão semelhante que a gente até confunde. E pensar que eram os mesmos que tanto reclamavam de seus uniformes colegiais. Acabaram por encerrar-se neles por vontade própria. Em um dos breves momentos em que o tum-ti-tum tinha letras, o coro uníssono acompanhava "you've got to show me love" - você precisa me mostrar amor. Uma menina ao meu lado berrava a frase com tanta veemência que parecia uma espécie de mantra. Guardei esta cena. Estaria a menina em busca do amor, em busca de alguém que mostrasse amor a ela? Estaria ela buscando tal amor em meio a tal jovens em tal boate da Urca? Em meio a seus uniformes, suas frases feitas e suas noites perfeitas - parafraseando Cazuza?
Passo, então, para outro flagrante da noite carioca. Meia noite e trinta da madrugada de sexta-feira. Copacabana. Uma amiga desperta de sobressalto ao ouvir ruídos debaixo de sua janela. Qual não foi sua surpresa ao deparar-se com um jovem e seu violão cantando, em seu desajeito, uma canção romântica do grupo Jota Quest. Seus olhos custaram a acreditar no que viam - e ouviam. Uma serenata. Uma serenata, no ano de 2010, em meio ao caos, ao caos dos uniformes, das frases feitas e noites perfeitas, das buscas pelo amor em refrãos de música eletrônica. Uma serenata. Em todo o seu desajeito, o menino ali expressava seu afeto por alguém que nem apareceu na janela - segundo minha testemunha ocular. Arrisco o palpite de que esse alguém provavelmente estaria saculejando ao som do refrão "you've got to show me love" enquanto o amor serenava em sua janela, "cantando coisas de amor", como a banda do Chico cantou.
Arrisco o palpite de que, entre serenatas e saculejos, devemos buscar a alma de uma vida. De uma vida mais criativa e sentida, e, providencialmente, liberta dos uniformes.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Pequenas porções de ilusão.
Venho dividir meu confronto com duas frases que muito me atraem: "Mentiras sinceras me interessam", imortalizada por Cazuza, e "A única verdade é a relidade", proferida por Aristóteles e reproduzida por um filósofo cubano de quem adoraria recordar-me o nome. Bibliografias à parte, o fato é que o contraste que essas sentenças trazem à vida tem causado-me espécie.
Afinal, a que deveríamos nos ater, verdades infruíferas ou mentiras frutíferas?
Eu, particularmente - e excepcionalmente - não sigo Cazuza nessa e vou de Aristóteles. A realidade é a verdade. Coisa de que já me resignei é que podemos elocubrar em nossas cabeças o quanto quisermos, isso de nada mudará o resultado final de algo.
A realidade é o que podemos palpar, de que valeria uma verdade que nem está lá de verdade - com o perdão do trocadilho.
Sou, notadamente, uma entusiasta do abstrato - eu acho tão bonito isso, de ser abstrato, baby..., porém, quando o assunto é encarar uma verdade real ou uma mentira sincera, fico com a primeira opção. Da verdade, construo meus próprios castelinhos com suas porções de ilusão, mas sempre com os alicerces dela, da mãe-de-todos. Acho que assim pode. O que não pode é usar fundação de mentira.
Desaba rápido, com a primeira intempérie.
E carrega tudo junto.
A realidade é o que podemos palpar, de que valeria uma verdade que nem está lá de verdade - com o perdão do trocadilho.
Sou, notadamente, uma entusiasta do abstrato - eu acho tão bonito isso, de ser abstrato, baby..., porém, quando o assunto é encarar uma verdade real ou uma mentira sincera, fico com a primeira opção. Da verdade, construo meus próprios castelinhos com suas porções de ilusão, mas sempre com os alicerces dela, da mãe-de-todos. Acho que assim pode. O que não pode é usar fundação de mentira.
Desaba rápido, com a primeira intempérie.
E carrega tudo junto.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Fellini estava acima de esquemas: não era comunista, nem fascista, nem cristão, nem ateu, mas tinha uma coisa preciosa para um artista - o que Shakespeare chamou de "o leite da bondade humana". Os idiotas criticavam-no chamando-o de grande "mistificador" e ele disse: "Pode ser que eu seja mesmo, pois minha adesão à realidade é sempre subjetiva, emocional."
Arnaldo Jabor
Arnaldo Jabor
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Omnibus
Pra variar, papo de bar. Bar de sempre, papo de sempre. Conclusão nova. Você, leitor - em caso de haver algum - ,e prezado Universo, já reparou como adentrar em um ônibus enseja, quase que imediatamente, um processo de reflexão, daqueles que desenterra os mais profundos sentimentos de seu ser?
Estávamos a divagar sobre isso. O poder que o ônibus tem sobre nossos pensamentos. É impressionante, é sentar-se no banquinho - ou não, ou ficar em pé dependurado na barra de ferro, mesmo, que começa. "Puxar angústia", já dizia o Eduardo do Fernando Sabino. Ou não, ou puxar velhas alegrias, arquitetar sonhos, alimentar paixões. Isso tudo acontece ali, no coletivo. Basta olhar para os semblantes ao seu redor. Todos com uma cara de quem não está lá, de quem está distante, sabe-se lá onde, sabe-se lá com quem.
Velhos amores, novos anseios, piadas que nunca perdem a graça, aquela música que arrepia, tudo passa pelos seus olhos, num espaço de tempo estimado, por minhas pesquisas sociais aqui e ali, de aproximadamente 60 minutos.
É o que eu digo. Já que não pode vencer o inimigo, junte-se a ele.
Em tempo: o mesmo não vale para o metrô. Tem que ter paisagem. Se não tem paisagem, não serve. Sem mais.
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