quarta-feira, 28 de julho de 2010

O que fazer com a própria liberdade é sempre um problema, sobretudo quando se é jovem e se tem um monte de coisas a provar a si mesmo e ao mundo. Mas eu li uma vez uma entrevista de um grande escritor – o paulista Raduan Nassar – que me ajudou a pensar nisso com mais clareza. O jornalista perguntou do que ele mais se orgulhava e a resposta veio límpida: “Eu me orgulho de não ter permitido que enchessem minha cabeça de lixo.” 

Ivan Martins em sua coluna na Época Online

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

Mario Quintana

à alma, com carinho.  

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Nosso Amor de Ontem



Cena final de um dos mais belos filmes.
The Way We Were (Nosso Amor de Ontem), com Robert Redford e Barbara Streisand, 1973.
Anos 30/40/50.
Ela, militante política. Comunista. Ele, o ideal do sonho americano, escritor e roteirista.

"You never give up, do you?
Only when I'm absolutely forced to(...)"

O filme mostra, na minha opinião, o que sempre pensei: Para dividir um amor, precisa-se dividir paixões. Sejam elas quais forem, dedicatórias misteriosas contidas nos livros de sebo ou o barulho do caminhão de lixo na madrugada. Ou qualquer outra.

"You'll never find anyone as good for you as I am, to believe in you as much as I do or love you as much!
I know that.
Well then, why? "

terça-feira, 20 de julho de 2010

(...)Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.

Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.

Paulo Leminski 

O Trem-Bala

Tarde provavelmente bela lá fora. Balcão de repartição - sim, meus relatos sempre derivam de balcões de repartições diversas, o que se há de fazer. Papéis, em pilhas e poeiras, funcionária:
"- E o trem-bala, heim... Dizem que tá pra sair...Animado?"
Ao que o moço responde:
"-É, mal acho que não pode fazer."
Confesso que senti-me mal em minha insignificância enquanto ouvinte de fila naquele momento. Senti-me mal porque não consegui definir-me animada ou não com o  iminente trem-bala. Senti-me mal porque coisas como o trem-bala pouco me importam, pouco me abalam, pouco me movem. Senti-me mal porque mais me preocupava a dúvida cruel sobre se estaria ou não  bela a tarde lá fora. Saint-Exupéry, em sua narração de seu encontro com o Pequeno Príncipe, diz que acha que é "um pouco como as pessoas grandes", acha que "envelheceu". Eu, por minha vez, aflijo-me achando que não sou muito como as pessoas grandes. Acho que não envelheci.

Papo de Bar Ruim

Bares, por si só, ensejam uma reflexão. "Puxar angústia", como dizia Sabino em seu Encontro Marcado. Tal poder é potencializado quando o bar é ruim. Há um poder místico em tais lugares que mantém seus frequentadores colados em suas cadeiras postergando a partida, por pior que seja o local. Mágico isso. É aí quando começam as reclamações.

"-Esse bar é uma porcaria mesmo, heim."

 "-Olha como demora o garçom, vou te contar, eu mesma vou lá no freezer!"

Não demora, as reclamações quanto ao estabelecimento descambam para as lamúrias:

 "-Sabe o que também é uma porcaria? Saudade. Uma droga."

No que replicam: "-Mas sabe o que é triste mesmo? A dormência. De sentimentos."

Ao final dessa explanação, pus-me a concordar. Há um momento em que o sentimento, de tão resignado, enraizado e mal realizado, torna-se dormente. Ele fica lá, naquele cantinho, como se lá fosse habitar para todo o sempre, sem querer atrapalhar - fique à vontade, você já é de casa. Aí a gente acostuma. A gente acostuma com ele despertando e indo dormir com a gente. Porque no fundo a gente sabe que se ele for embora, vai restar o espacinho dele vazio, com sua caminha, seu cobertorzinho e suas coisinhas. Por isso a gente deixa o sentimento alugar um lote de terra na gente sem data certa para ir embora. A gente o deixa lá, dormente, formigando, por todas as partes.

Até que, em um belo (ou não) dia, ele decide que é hora de partir, sem aviso prévio, nada. Às vezes ele só deixa um bilhete de despedida, junta suas trouxinhas e parte, porque dizer adeus é tão difícil, afinal.
Então pára a dormência, o formigamento, aquele espacinho ocupado. Pára tudo, só ecoa um cantinho vazio.

Então, nesse momento, alguém num bar ruim profere:

 "-Sabe o que também é uma porcaria? Saudade. Uma droga."

E lá continuamos, noite afora, divagando sobre saudades, dormências e garçons ruins. 

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tocando em Frente

Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso, porque já chorei demais.
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe...
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei,
Eu nada sei.

Conhecer as manhas e as manhãs,
o sabor das massas e das maçãs,
É preciso o amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha, e ir tocando em frente,
Como um velho boiadeiro levando a boiada,
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou,
de estrada eu sou.

Almir Sater e Renato Teixeira

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Não sei de você, mas essa música sempre me deixa reconfortada e com vontade de verão, dos seus sóis, estrelas, ondas, tardes, chopps e Baixos.

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade