terça-feira, 29 de junho de 2010

É o bom e velho esquema. Historieta da vida real virando metáfora existencial. Vamos lá. Todo dia, ao longo do último mês, passo diariamente pelo Largo da Carioca. À noite, já a bordo de meu ônibus para casa, vinha notando a existência de uma feira de livros. Desnecessário comentar o imenso apreço que tenho por feiras de livros, livrarias, sebos empoeirados, banquinha de livro, qualquer coisa. Cada achado daquele livro especial faz meus dias, e assim vou costurando meu lençolzinho da felicidade. Como já disse Nietzsche, a dita felicidade não é feita de arroubos e momentos isolados, mas sim de correntes acontecimentos satisfatórios e corriqueiros. Enfim. Todo dia que passava pela feira já a bordo do ônibus, pensava: "Ih, esqueci de passar lá. Amanhã eu vou." Ocorre que amanhã eu estava sempre com pressa a caminho do cumprimento de alguma tarefa burocrática e enfadonha, e, quando dava por mim, já havia esquecido de "passar" pela feira de livros. "Tudo bem", pensava, afinal, a feira estava lá, à minha espera. Pois bem. Hoje, ao encerrar o dia de trabalho, finalmente lembrei de minha dívida para com a feira. Lá fui, serelepe. Lixo, caixotes e moradores de rua foi o que encontrei no lugar onde deveria estar minha feira. Calculei então que a feira ocorria em determinados dias da semana e provavelmente eu nunca reparara isso. Informar-me-ei, pensei. Chegando em casa, pesquisei na internet. A feira era passageira e só permaneceria até o dia 16 passado. Minha feira. A feira que eu já tão bem conhecia sem nunca ter reservado vinte minutos de meu dia para visitá-la. Passou. E eu achando que sempre podia "passar lá" amanhã. Já diz Chico, "Amanhã, ninguém sabe, traga-me um violão, antes que o amor acabe, traga-me um violão..."
Ahh, amanhã...Por isso, crianças, tenham cuidado com o amanhã. Nem ele é para sempre.

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