quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

moral da história

Era uma vez.

O menino pequeno, infante. 
Perguntaram-no sua cor preferida. 

"-Amarelo."

Tempos depois, o menino mudara de idéia. Já podia correr e conhecer mais cores.

"-Verde."

Mais tempo passado, o menino já não tão menino, aventurando-se por aí, afirma com toda a certeza:

"-Azul, é claro."

Já moço, vivido, o eterno menino, como que acordando de sono profundo, profere em alto som:

"-Branco! Branco!"

Mas já era tarde. Ninguém mais acreditava no menino grande, de tantas vezes que mudara sua cor preferida.
O menino grande então recolheu-se a seus segredos e nunca mais abriu a caixa de lápis-de-cor.

sábado, 25 de dezembro de 2010

entretanto

Agora o sol baixou um pouco, o calor continua. Em dias de sol e muito calor, o pensamento muda. Assim como nos dias cinzentos. Faz toda a diferença. Engraçado isso, porque sempre me disseram que a vida é uma só. Talvez não seja. Talvez seja zoom, seja prisma. Talvez seja da gente essa coisa de não ser um só. Talvez. Pensei tanto hoje, e tudo diferente. Com os primeiros raios, os primeiros porém e entretanto. As primeiras esperanças trazidas pelo não necessariamente e pelo quem sabe. Deve ser efeito da luz natural. Entorpece a gente, faz pensar nesse monte de possibilidades, parece que a gente enxerga um adiante mais longe, que vai surgindo sempre mais. Claro que, como todo entorpecimento, passa. Mas fica a sementinha. Será que não pode ser?

A noitinha agora aquieta, faz o pensamento menos eufórico. Até chegarem as estrelas, claro. Bagunça tudo novamente, afinal, nada mais entorpecente do que um céu estrelado. Nada faz a gente enxergar mais distante. Mas é diferente. A gente pensa mais sereno. Pensa mais devagar. Ficamos um pouco mais próximos da unidade, embora eu não acredite que um dia chegaremos a ela totalmente. Fico contente.

Li em algum lugar hoje – a memória me trai e não me permite recordar a fonte – que nós escrevemos o que irá acontecer. Assim literalmente, mesmo. O quão literal fizer sentido, evidentemente; nada nunca é inteiramente literal. Este dizer me remeteu à questão da multiplicidade de nós em nós mesmos, do quanto pode ser em uma coisa só.
Acho fascinante o fato de que nada é absoluto, a possibilidade de adotarmos um prisma, uma face da situação e assim seguirmos. E, é claro, mudá-la a qualquer momento, dependendo do sol ou chuva.

Ao final de tantos pensamentos, sóis, calores e estrelas brancas postadas no céu negro, chego à conclusão de ser inútil a tentativa de cercear o próprio pensamento a fim de encerrar-se em um só. Ao primeiro sinal de raio de luz, ele cresce e obriga a gente a escrever os próximos capítulos. 

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo


-Opa! Entre, meu querido.

-Feliz Ano Novo, Chicão!

-Para todos nós!

-Todo mundo aí?

-A galera já chegou. A Nanda está lá na varanda.

-Quem perguntou da Nanda?

-Ninguém. Pega um copo!

--

-Mas e aí Nandinha, qual a resolução para o Ano Novo?

-Ah, Dedê, sei lá. Planos não são comigo, você sabe.

-Eu vou voltar à academia. E voltar a ser morena. Beto falou que pareço mais inteligente.

-E o Beto vai fazer o que para parecer mais inteligente, nascer de novo?

-Poxa, Nanda, coitado. Ele se esforça.

-Desculpa Dedê, minha resolução então será gostar do Beto. Tá bom?

-Só quero ver!

--

-Amor, onde fica o banheiro?

-Vai por ali e vira à esquerda.

Esquerda, Beto! Esquerda!

--

-Oi.

-E aí, tudo bom?

-Tudo.  E com você?

- Tudo ótimo, indo.

-Ótimo ou indo?

-Sei lá Pedro, que mania.

-Mania de quê?

-Nada. E o trabalho?

-Está ótimo. Acho que vamos conseguir aquela verba.

-Fico contente.

E sua namorada, não vem?

-Não é minha namorada. Que mania.

-Mania de quê?

-Nada.

Viajou. Búzios.

Silêncio.

-Sabe, ela não tem seus olhos. Seus olhos pretos sempre tão certos, definitivos, entram na gente, ou a gente entra neles, não sei. Os olhos verdes dela às vezes me confundem.

-Confusão às vezes é bom.

-É. Pode ser.

Silêncio.

-E seu projeto, sai para o ano?

-Não sei. Mudei a direção.

-Você nunca pára, não é?

-Quando eu tentei, não obtive muito sucesso, você não acha?

Silêncio.

--

-Pedrão, a Vânia tá aí. Diz que é sua fã. Vou apresentar vocês.

-Agradeça à Vânia e fale para ela assinar o jornal. No mais, estou fora de confusão por hoje, meu caro.

- Ih, vi tudo, já falou com a Nanda. Conversa com o Beto, da Dedê, que distrai rapidinho. O cara é uma peça.

- A Dedê também, heim?!

--

- Posso encher o copo?

- Opa, obrigado.

-Você é o Beto né? Da Dedê?

- Sou o Beto da Gama. Da Dedê é outra história.

Risada alto.

Silêncio.

- Então, Beto da Gama, o que você faz da vida?

- Faço sucesso, amigo!

Silêncio

--

- Poxa, Dedê, te apresentei ao Felipe, gente bacana, independente, inteligente, e você me aparece com esse Beto.

- Ah, Pedro. O Beto tem mais vida, é mais alegre. Esse Felipe era meio parado. Vocês implicam muito com o coitado. Deveriam me apoiar.

- Tudo bem, Dedê. Desculpe. Vamos combinar assim: minha resolução de Ano Novo será tentar gostar do Beto.

- Mas vocês são almas siamesas mesmo, heim? Ultrapassam a categoria de gêmeas convencionais!

- Heim?

- Nada.

--

-Sabe Dedê, estou sentindo que serei mais leve esse ano.

- Vai fazer dieta?

- Vejo que o senso de humor do Beto está te contagiando.

Enfim, ser mais leve com a vida. Comigo. Com o que eu fizer dela, com quem passar por ela.

Sinto isso.

- Que bom, Nanda. Vai ser bom para você.

- Ih, quase meia-noite.

--

- 5, 4, 3, 2,... 1!

- Feliz Ano Novo!

Gritam todos.

--

- Adeus, Ano Velho, feliz...

Interrompido.

- Beto, amor, acho que você já bebeu muito. Vamos comer uma rabanada.

--

- Nanda, musa desta singela reunião, feliz Ano Novo!

- Obrigada, Chico! Para todos nós!

--

-Nanda.

-Feliz Ano Novo, Pedro.

- Obrigado. Para você também.

Pausa, respira fundo.

Olha, Nanda. Não acho que você deva parar, não. Suas asas são tão bonitas. E sei que você sempre sabe o caminho de volta. E traz um monte de coisa nova junto. Faz a gente se sentir um pouco novo também. E seus olhos pretos realmente fazem-me falta. São sua segurança para si própria e para quem ganha seu olhar de presente. Tenho derivado sem eles.

Silêncio.

- Pedro, você acha que a gente pode ser novo de novo na vida? Reinventar o inventado?

-Acho que sim. Um dia nunca é igual a outro, afinal.

-É.

Silêncio.

-Pedro?

Vê os fogos comigo? Meus olhos têm se sentido meio sozinhos, mesmo.

--

FIM. 

domingo, 19 de dezembro de 2010

voltamos já.

Em minha opinião, – dentre outras menos razoáveis ainda – todos deveriam ter o direito de tirar férias de si mesmos. Ser novo. Um pouquinho só, tirar a alma para lavar e colocar no varal para secar. E, enquanto isso, vestir um roupão atoalhado.


Em nossos roupões atoalhados, escreveríamos um bilhete dizendo que voltamos logo. Sem sair do lugar. Então sairíamos à mesma rua que saímos todo dia, sem ela nos reconhecer. Faríamos tudo o que fazemos todo dia, diferente. Falaríamos o novo, faríamos o novo, seríamos o novo. Conheceríamos o outro lado. Tiraríamos fotografias, é claro, para não esquecermos quem fomos nas férias de si mesmos. Quem sabe não trazemos algo novo à alma antiga, como um souvenir? Olharíamos a nós mesmos de fora. Enxergaríamos o que nunca tínhamos visto, embora não nos tenha faltado mirante e binóculos. Viveríamos as mesmas pessoas de maneira diferente. De roupão atoalhado, não teríamos o poder de refazer o já feito. Se assim o fosse, não estaríamos sendo novos, estaríamos sendo presos ao passado. De roupão atoalhado, teríamos o poder de não nos repetirmos. Repetir é viver pela metade, roubar vida de si mesmo. Seríamos contemplados com a sabedoria de que nós somos nossos maiores cerceadores. Aprenderíamos que não sonhamos, não sentimos, não permitimos, não conseguimos e não somos por nossas próprias amarras.  Em nossas férias de si mesmos, viveríamos não apenas habitando uma seqüência de dias, sentiríamos um a um, a atenção redobrada, não deixaríamos passar um tanto que deixamos, não estaríamos tão atados por nós e em nós.


Ao fim de nosso recesso extra-oficial marcado no calendário pela Direção, montaríamos nosso álbum de fotografias com pequenas narrativas. Vestiríamos a alma lavada com amaciante Comfort e voltaríamos. Mas voltaríamos com um pedacinho novo, um cantinho de olhar diferente. Teríamos sempre conosco os souvenirs da viagem, nos lembrando de quem fomos em roupões atoalhados. 


Então, sem nem perceber, já não seríamos mais os mesmos. Seríamos nós sem nós e um pouco mais. 

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

encantado.

Não se conhecer é coisa muito perigosa.
É risco que a gente corre sem saber.
Tem tudo. Tem quem nunca foi apresentado a si mesmo. Urge marcar um encontro. Às escuras. E os dois têm de aparecer.
Tem quem finge que não conhece, atravessa a rua ao ver-se na outra calçada. Quer se evitar. Esquece das esquinas redondas. Difícil fugir por muito tempo.
Tem quem tem saudades. Saudades de si. De si de muito tempo, de si de pouco tempo, do si que foi ainda ontem. Como Mario Quintana, que acha que a saudade que dói mais fundo – e irremediavelmente – é a saudade que temos de nós.
Tem também quem se conhece todo dia. Muito prazer. Vive na surpresa eterna de si. Requer cuidado. 
Tem gente que sabe. De si. 
Saber de si dá trabalho. 


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

infante

Não, não cansam de me causar espanto os raciocínios infantis. Não apenas os das crianças que vejo por aí, mas os meus, que recordo, de quando menina. A recordação que virá a seguir fez-se presente dia desses, ao ouvir versos de uma música no rádio. 


Em 1999, Caetano lança sua canção "Sozinho" -- composta por Peninha. Em 1999, eu estava em meus onze anos de idade. Nos anos seguintes, a canção se fez popular - expressão tirada de alguma música ou verso escondida em algum canto de minha mente - , acessível inclusive à crianças em seus doze, treze anos, como a que vos fala. 

A primeira vez em que esta criança de doze, treze anos ouviu "Sozinho", teve sua mente embaralhada em dúvidas. Ela nada entendeu ao contemplar o verso "por que você me deixa tão solto / por que você não cola em mim". Pensou, talvez, ter escutado errado. Ouviu novamente com atenção, e lá estavam confirmadas as famigeradas palavras. A criança que escreve estas palavras pôs-se a refletir. Ora, ele reclama por estar solto, livre. Reclama que a moça da música não cola nele. A criança vê-se confusa, pois tudo que havia escutado em sua breve e singela experiência pela vida é que o ser humano preza -- e zela, além de tudo, por sua liberdade. Não haveria de fazer o menor sentido essas palavras, afinal. Devo ter escutado errado novamente, pensava ela. Nada a fazia compreender aquilo. 

O tempo se passou, a vida se passou, e a criança desenvolveu o hábito de, além de divagar por meio de palavras em uma tela de computador, passar o tempo em filas e afins pensando e deliberando sobre letras de músicas, poemas, crônicas, bulas de remédio, pichações de muro. E, novamente, como fosse um fantasma, lhe veio o verso da canção "Sozinho". A criança de tempo passado, então, riu-se sozinha. Entendia, afinal e finalmente, o que o verso expressava, seu significado subjetivo e essas coisas todas de gente grande. Entendeu que o moço da música desejava estar preso à moça, por sua própria vontade. Vontade profunda, que o fazia reivindicar o laço. A criança de tempo passado,que podemos,também, chamar de adulta, enxergava todo o sentido no verso. Achava-o bonito, até. Despida de toda a dúvida de interpretação dos doze, treze anos. 

Pois bem, ao ouvir a canção no rádio noutro dia, a criança de tempo passado reviveu todos os pensamentos acerca de seus versos. Seus pensamentos de outrora e contemporâneos. Relembrou a progressão de sua interpretação com o passar dos anos. Comparou, ponderou. Chegou à inevitável conclusão, enfim, de que o viver seria um tanto mais simples e sereno fosse guiado pelo pensamento linear e puro - por puro, leia-se livre de pré-conceitos - de uma criança de doze, treze anos. 

A criança de tempo passado pensava com todo o sentido e não sabia.  

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

apesar de você

Estava lendo o roteiro do filme "Zuzu Angel", de Marcos Bernstein e Sergio Rezende.

Muito bonito. Engraçado que, na maior parte das vezes, imagens emocionam mais que palavras escritas.

Para tudo há uma exceção, afinal.



Palmas para o fragmento:



146 - EXT. RUA DO ACIDENTE – NOITE



Zuzu está morta dentro do Karmann Ghia, as


rodas girando.


Mota se aproxima. De repente, uma música começa.


Com o acidente, o toca-fitas começou a


tocar sozinho. A música é Apesar de Você.


CHICO (CANTANDO)


“Hoje você é quem manda/ Falou tá falado/ Não


tem discussão...”


Mota procura alguma coisa dentro do carro. Só


o que vê é a bolsa de Zuzu. Puxa-a para fora.


Abre, descobre o dossiê da Anistia. Satisfeito


com a descoberta, no entanto fica irritado com


a letra da canção de Chico. Volta a enfiar o braço


pela janela. Tenta desligar o som, mas o teto foi


amassado e é impossível chegar ao toca fitas.


CHICO (CANTANDO)


“Hoje você é quem manda/ Falou tá falado/ Não


tem discussão / A minha gente hoje anda falando


de lado e olhando pro chão viu / você que


inventou esse estado, que inventou de inventar


toda a escuridão /você que inventou o pecado


esqueceu-se de inventar o perdão.


190


Chico canta, alto e bom som, para a irritação


impotente do agente, que se levanta, chuta a


lataria do carro. Afasta-se levando o dossiê.


CHICO (CANTANDO)


“Apesar de você / Amanhã há de ser outro dia / Eu


pergunto a você onde vai se esconder da enorme


euforia / Como vai proibir quando o galo insistir


em cantar? Água nova brotando e a gente se


amando sem parar.


Outros carros de polícia chegam, a grua sobe e


aos poucos deixa a cena do acidente, revelando


por fim o céu que começa a clarear.


LETREIROS: “A morte de Zuzu Angel, em 1976, foi


declarada acidental. Chico Buarque distribuiu 60


cópias da declaração de Zuzu a personalidades e


imprensa. Nenhum jornal a publicou.
 
Este roteiro e outros podem ser encontrados no site www.aplauso.imprensaoficial.com.br

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

alma minha

Em uma de suas correspondências com Mário de Andrade, Fernando Sabino questiona se um escritor deveria utilizar-se de suas próprias experiências, buscar inspiração em seus sentimentos e transbordá-los no papel. Mário – pelo que pude depreender – responde ser impossível dissociar o íntimo da obra.

Se Fernando Sabino perguntasse a mim, logo após recobrar os sentidos de meu desmaio, hesitaria em responder. Tenho me deparado com esta dúvida. Por enquanto, a conclusão à qual pude chegar é a de que o motivo que poderia reter os sentimentos advindos de experiências pessoais de um escritor é o medo. O medo ou talvez o pudor de expor-se em suas mais sinceras considerações. Vivemos em uma sociedade na qual expor-se denota fraqueza.

Se eu fosse fraca, então, escreveria sobre o que tenho observado. Escreveria sobre a dificuldade que as pessoas têm de dividir sua alma. Djavan diz que se tivesse mais alma para dar, ele daria. Vale a intenção.

Se eu fosse fraca, dividiria com você, leitor, o pesar que sinto a cada vez que reconheço uma alma que não será dividida pelo seu dono. A vontade é fazer como se faz com uma criança que não divide seu brinquedo. Pegar pela mão, levar até o amiguinho próximo e mediar o empréstimo.

Se eu fosse fraca, arriscaria dizer que, do profundo raso de minha experiência na Terra, enxergo uma espécie de auto-amarra latente. Coisa compreensível. Guardar a alma para si só e permanecer na superfície é, sem sombra de dúvidas, mais seguro. Para quem consegue, é claro. Há quem não consiga manter-se amarrado em si mesmo. Há quem seja como aquelas velinhas de aniversário que lançam fagulhas para todos os lados.

Se eu fosse fraca, encerraria com Mario Quintana dizendo que amar é mudar a alma de casa. Se eu fosse fraca, certamente acharia esse dizer pra lá de bonito.

Ainda bem que não sou fraca.

sábado, 27 de novembro de 2010

carta fechada

Bom dia, manhã, mais uma. Engraçado isso de acordar pensando em você. Às vezes penso que, se eu não fosse eu, me acharia uma desvairada. Bom dia, café preto.

Dentro do ônibus, já penso noutra coisa. Divirto-me a observar as pessoas na rua, fiz disso um passatempo que remediasse a rotina. Para onde vão, quem são? Seus trejeitos contam histórias. Minhas histórias, eu invento.

De lá, minhas pernas, já livres pela calçada, carregam meu passo marcado de sempre. Ou não, tanta coisa mudou. Quando nos conhecemos – lembra? tantas coisas me eram seguras, imutáveis. Qual não é a vida que chacoalha tudo. Não reclamo, não. Poeira boa. Só denoto tudo que andei. Sempre achei bonito seu andar pela vida, sua forma de seguir em frente. Se acha bonito o que se reconhece, dizem.

Eu reconheço cheiros e ventos de tardes. Minha parte favorita do dia. Eles sempre foram iguais. Em tempos de andança, eles confortam. Nada mais confortante que uma tarde de vento levantando folha do chão. A gente levanta junto. Será que hoje a tarde chega logo?

Almoço, já? Não sei se tenho fome. Prendemo-nos tanto ao relógio que viramos ditadores de nós mesmos. Deixa a barriga roncar que eu vou. Afinal, quem entende deste riscado é ela, não eu.

Acho que nunca partilhamos uma refeição juntos. Engraçado.

Quando a tarde vem trazendo seu vento, já estou nas paredes do ofício. Na baia do escritório, na tela onde me enxergo em palavras. Você não é de natureza de baia. Você é de espaços, abertos e cheios de opções. Eu também.

Noite. Gosto de chegar a casa e olhar da varanda. O caminhão de lixo passa todo dia, à mesma hora. Faz o mesmo barulho, que ecoa no silêncio do quarteirão. Deve ser por isso que gosto dele. Quebra o silêncio, mas não o estraga. Barulho que completa o silêncio. Pode haver também. Eu e a noite somos testemunhas.

Boa noite, noite. Engraçado, vou dormir e não penso em você. Vou dormir pensando no silêncio que o caminhão de lixo corta e cai tão bem. Talvez um tanto mais seja assim e eu não sei.



domingo, 21 de novembro de 2010

Procuro deixar minhas crenças e ideologias de fora dos escritos deste blogue. Desta vez, terei de agir excepcionalmente. Acho que vale a pena dividir os acontecidos por mim presenciados no dia de hoje.

A fim de contextualizar a história, explico que pratico ativismo em defesa dos animais e meio ambiente. Estive, nesta manhã, participando de um protesto contra a caça de tubarões no Brasil. Havia mil barbatanas de tubarões - confeccionadas em cartolinas presas a um palito de madeira - espetadas na areia da praia do Leblon.  Representava a quantidade desses animais que são mortos em cinco minutos por seus algozes, os pescadores e suas redes.

Foi quando dois diálogos marcaram meu dia e fizeram-me refletir.

Uma criança - calculo eu em seus quatro ou cinco anos - pára ao meu lado, mãos dadas com sua mãe, e pergunta:

- O que é isso?

Ao que eu respondo, dando início a um dos diálogos mais gratificantes que já travei.

- São nadadeiras de tubarão.

- Pra quê?

Perguntei-me como explicaria a uma criança tão pequena um assunto tão delicado.

- Os tubarões são pescados, que nem os peixinhos. Aí cortam a nadadeira deles. Nós não achamos isso certo.

- Pra comer?

- É.

- Eles morrem só pra gente comer a nadadeira deles?
(faz essa pergunta com uma das expressões mais espantadas e tristes que já vi)

- Sim.

- Mas é errado, não é?

Nesse momento, já me vejo conquistada pela cena que estava vivendo.

- É. A gente não deve matar os bichinhos. 

No que a mãe, já impaciente, ensaia uma tentativa de continuar sua caminhada:

- Vamos filho, ela já explicou, agora você já sabe. Vamos.

Felizmente, crianças dificilmente desistem:

- Que nem o boi né? A gente mata ele pra comer. Tadinho. 

- É. A gente não deve matar o boi também. 

- Viu, mãe. 


Ainda com o coração entorpecido pelo diálogo que acabara de ter com a criança, atendo à curiosidade de um  transeunte. 

- É um protesto. Pelo fim da caça aos tubarões. Estão em extinção já.

- Mas o que os tubarões fazem de bom pra mim? 
Pergunta-me o homem, com cara de ameba sorridente - utilizando a expressão de Marcelo Migliaccio.

- Ao senhor, nada. Os animais não são seus empregados. Eles dividem o planeta com você. 


Não pude ignorar a discrepância entre os dois episódios. Pus-me a refletir. 

O menino, pouco viveu. Quatro ou cinco anos, no máximo. 
O cidadão, estimo trinta e alguns anos. Trinta e alguns anos de experiências vividas, sentidos utilizados. 

O menino, em seu pensamento plano, singelo, desprovido de sabedoria acadêmica, sabedoria de vivência ou qualquer outra, elabora, por si mesmo, uma linha de pensamento munida de opinião própria, consciência e reflexão.
O cidadão, em seu pensamento individualista e mesquinho, profere a primeira infâmia que passa por sua mente, sem nenhuma reflexão ou sombra de pensamento linear. 

Pergunto-me que fazemos pela vida se nada estamos aprendendo, agregando, refletindo. Transitamos a esmo por nossos anos completados como se seguíssemos instintos primários? Seguimos rebanhos errantes em busca do próximo prazer instantâneo que se utilize do mínimo de sentidos necessários? Dessa maneira, nos tornamos "adultos vividos"?

Espero que não. Espero que tenhamos todos a clareza de pensamento de uma criança de quatro ou cinco anos. 

papel reciclado

E agora, o que a gente faz com eles?
A gente põe na caixa de correio com destinatário incerto?
A gente aluga um armário na rodoviária e deixa lá?
A gente preenche um protocolo de desistência e encaminha à Prefeitura?
A gente anuncia no jornal Balcão como de segunda mão?
A gente cava um buraco na areia da praia e enterra?
A gente constrói com eles um móbile?
Afinal, o que fazemos com nossos sonhos e amores perdidos?
A gente junta.
Junta tudo, recicla e transforma em combustível pra vida.
A gente vive tudo junto, de novo. 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

ou compro uma bicicleta?

Segundo Sartre, o sentimento de contingência permeia a experiência humana da escolha. Por mais certeza que tenhamos sobre uma determinada decisão, temos consciência, não obstante, de que outra alternativa seria possível. Uma vez que cada caminho está cheio de possibilidades, parece que não podemos deixar de aceitar a responsabilidade sobre nossas escolhas. Sartre argumenta que esse sentimento de responsabilidade inescapável tende a provocar angústia.

Jonathan Crowe, Revista piauí
Ainda acho tudo aquilo
Ainda sou aquilo tudo
Ainda tenho e carrego à quilo tudo
numa sacola de feira
Ainda trago aquilo tudo
Apesar de tanto desdizer
Apesar de tanto despensar
Apesar de tanto tirar
Com tanto achado
Com tanto feito
Com tanto carregado
Pra longe
Com tanta correria
Ainda sou pra ser
Se fores.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Num dia - que eles não chamariam de belo - ela disse:

"- Aquele ali também. É seu."

"- O Dylan não era seu?"

"- Não. Você comprou na liquidação, lembra? Dois dvdês pelo preço de um. Leva."

"- Ah..."

"- Leva também o Salinger."

"- É seu, te dei no nosso primeiro Natal."

"- Eu sei. Leva."

"- Ok."

Silêncio.


"- E o apê novo? Tá se acostumando com Botafogo?"

"- É, não é ruim. Tem mais barulho. Faz companhia ao meu silêncio."

Silêncio.


"- Olha, não foi por não amar. A gente se amou. Não amou?"

"- Sim. Ou descuidou do resto. Tem quem diga que é a mesma coisa."

"- E agora?"

"- A gente cuida de novo."

Silêncio.


"- Promete que não descuida com mais ninguém?"
"- Prometo."
"- Ok. Não esquece o Dylan."
"- Ok."


Barulho da grade do elevador.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

palavradentro

Transfor   mar

Que me jo  go

ta que pinga

até acab  ar

que você resp  ira

inundar o meu

e seremos    nós

desatados.

E sós.
Precisamos, sim, endurecer sem perder a ternura. Pergunto-me: se é esse um clichê, por que endurecemos e perdemos a ternura? Concluo já ter havido mais respeito pelos clichês.

Perder a ternura nos rouba a capacidade de ver. De enxergar, melhor dizendo. Não nos deixamos enxergar nada além do concreto. Tudo se torna tolice.
Um querido animal de estimação de uma família parte. Parte para continuar sua viagem. Minutos depois, instala-se uma mariposa em uma parede da casa. O inseto lá permanece, por toda uma semana. A saudosa família atribui a presença da nova inquilina ao animal que partiu. Não acreditam em coincidências. Sentem.

Ao relatar esta historieta, já observei reações diversas. A mais recorrente, sem dúvida, é a cética sacudida de cabeça. “- Tolice.”

Torço, pois, para que sejamos todos tolos na vida. Ternos eternos tolos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

acordei pensando nesse

"(...)um bom poema
 leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto"

Paulo Leminski - Amor Bastante
liberdade

fala                                                                 presa
cala                                                                 solta  


junta
                                                                parte                          volta




passa 





passa


 junta                  junta



liberdade
junta solta.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Escrever é transbordar no papel.

Fé: Fidelidade em honrar seus compromissos, lealdade, garantia: a fé dos tratados. / Confiança em alguém ou em alguma coisa: testemunha digna de fé; ter fé no futuro. / Crença nos dogmas de uma religião; esta mesma religião: ter fé; a propagação da fé. / Crença fervorosa: fé patriótica. / Afirmação, comprovação: em fé do que lhe digo... / Testemunho autêntico que certos funcionários dão por escrito: a fé do tabelião. /Estar de boa fé, estar convencido da verdade do que se diz; estar de má fé, saber muito bem que se diz uma coisa falsa; ter intenção dolosa. 

Dicionário Aurélio (on-line, diga-se de passagem, cumprindo o clichê atribuído à minha geração).

Certamente, não é à fé do tabelião que me refiro. Não me interesso muito por tabeliões e/ou testemunhos autênticos de funcionários. Não refiro-me, também, à fé religiosa. Já é avançada a hora e tal assunto ateria-me por muito a esta página em branco.  

Penso, afinal, sobre "confiança em alguém ou alguma coisa: testemunha digna de fé; ter fé no futuro."

Noutro dia, uma pessoa disse admirar minha coragem. Coragem? "-É, você acredita tanto nas coisas, não tem medo." Ao que respondi: "-Eu tenho fé."
Desde então, minhas próprias palavras ecoaram em minha cabeça e fizeram-me pensar algo em outra direção. Pensei, talvez, em covardia. Covardia? 
Já veio à minha atenção o fato de que o quão mais crítica determinada situação se apresenta, maior a capacidade de acreditar. A capacidade de ter fé. É o que nos resta. Seja assim talvez uma espécie de covardia. A necessidade de crer que não importa a quantidade de paralelepípedos a vida nos ponha na frente, de alguma maneira, conseguiremos seguir chutando. A necessidade de não pensar em os paralelepípedos não moverem-se. O medo de não pensar, eu diria. Movidos pelo medo, acreditamos. Acreditamos com todas nossas forças, colocamos fé no futuro. 

A boa notícia é que não me importo. Por coragem, covardia, mania ou costume, a gente segue acreditando. Mesmo com todo emblema, todoo  problema, todo o sistema, todo Ipanema, a gente vai levando, a gente vai levando essa gema...  

O Chico vai e eu também vou.



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Possuo passatempos bobos e/ou sem cabimento. Coisas que, até onde eu sei, só eu vejo graça em fazer.
Não resisto ao entregador de flores. Não posso ver um na rua que me ponho a imaginar.
Quem as receberia, por qual motivo. Gostaria? Colocaria em um vaso, debaixo de sorriso ou lágrima. Seriam lágrimas de alegria, tristeza? Raiva, emoção? Talvez permaneceria incólume, não moveria um músculo da face.
Quem as mandou, por sua vez, viveria o mistério que envolve a espera. Receberia uma ligação de agradecimento, ou uma esperada aceitação de um pedido de desculpas? A dor do desprezo ou a surpresa de lágrimas de emoção batendo à sua porta?
Quanta coisa se tem para imaginar ao vislumbrar um entregador de flores. Deve ser um ofício interessante, esse. Imagino quanta emoção não vai sendo acumulada ao longo do dia, e dos dias, como aquela pirâmide de energia da natureza que aprendemos (ou não) nas aulas de Biologia.
Pergunto-me se o entregador ainda conservaria a capacidade de comover-se após anos e anos de faces moldadas pelos mais diversos sentimentos. Penso que das duas uma: ou tornaria-se poeta ou agiria mecanicamente como quem trabalha no caixa do banco. Temo ser a segunda hipótese mais provável. É sempre mais raro a gente seguir a emoção. Uma pena.

Acho que entregadores de flores dariam ótimos poetas.


A próxima vez em que eu receber flores - caso aconteça - prestarei atenção no entregador. E, como faço inevitavelmente ao longo de toda minha vida, deixarei transparecer minha emoção, seja ela qual for. Quem sabe ele não escreve um poema.